A ciência e
a emancipação humana
De um
obscurantismo a outro?
Resumo da conferência
apresentada em Fortaleza em 2005
Anselm Jappe
Qual é a
posição na história da relação entre o que pode ser chamado, em sentido amplo,
"pensamento emancipacionista" (isto é, a liberação dos indivíduos da
coerção heterônima, da forma de vida não sujeita à discussão livre, portanto de
diversas formas de fetichismo social) de um lado, e a confiança na ciência e
nas suas aplicações tecnológicas do outro lado ?
Durante
muito tempo - desde as primeiras manifestações do Iluminismo em diante - a
crítica social via a ciência como sua aliada, concebida como o oposto da
religião e da tradição, isto é, dos reinos estabelecidos sem discussão e sem
justificativa.
O advento de
uma sociedade melhor era muitas vezes considerado como a conseqüência
inevitável do progresso da ciência e da sua aplicação à vida e às forças
produtivas. Progresso social e progresso científico pareciam marchar no mesmo
passo. Antes, o socialismo parecia a condição social
necessária para que a ciência pudesse verdadeiramente desenvolver o seu
potencial de melhorar da vida humana.
Vice-versa, o contínuo progresso da ciência parecia garantir
sozinho, com o passar do tempo, o triunfo das idéias de emancipação. Já durante
a Revolução Inglesa, um dos grupos mais radicais propôs abolir a pregação
dominical e substituí-la por conferências sobre as ciências. Estas convicções
encontravam-se tanto entre os iluministas franceses como também entre os
'socialistas utópicos' no início do século XIX, e o marxismo - que não por
acaso - denominava-se "científico" - formulava a "lei"
histórica segundo a qual o crescimento das forças produtivas acaba sempre
por derrubar as relações de produção. Mas, do mesmo modo, as mais modestas
tentativas das cooperativas de operários e de diversos reformadores,
filantrópicos e humanistas de melhorar a vida cotidiana das classes populares
com relação à saúde, à habitação e etc, referiam-se
sempre aos bens realizados pela ciência. A sociedade do futuro parecia
essencialmente consistir em uma aplicação rigorosa da ciência e tecnologia na
vida de todos, e esta convicção explica em parte o sucessivo desenvolvimento do
leninismo e da social-democracia - recordemos a
afirmação de Lênin segundo a qual o comunismo era o "poder dos sovietes mais a eletrificação do país inteiro". Muitas
vezes, estes esforços para difundir princípios científicos nas classes
populares viam objetivamente aliados os promotores (reformistas ou
revolucionários que fossem) de melhoramentos sociais de um lado, e as
instituições estatais do outro, no esforço de erradicar o
"obscurantismo" no qual certas camadas
teimavam em viver. De fato, a introdução de medidas higiênicas, a demolição de
edifícios insalubres, a difusão de novos métodos educativos, não mais entregues
exclusivamente às famílias, e, geralmente, a escolarização, o impulso em
direção a novos hábitos alimentares, a luta contra o alcoolismo, a medicação da
vida a partir do parto e etc, foram sentidos por
vastas camadas populares como imposições nocivas e prejudiciais aos seus
direitos ancestrais - e não por acaso - porque estas novidades andavam, em
geral, no mesmo passo, com a introdução de novos ritmos de trabalho, a
burocratização da existência e de tantas outras amabilidades que acompanharam a
imposição do capitalismo. Sabe-se que Lênin, Antonio Gramsci e outros teóricos
do movimento operário, nos anos vinte, alegravam-se com a obra sã de
disciplinamento que o trabalho "fordista", com a sua esteira de montagem,
empunha aos operários, libertando-os da sua excessiva inclinação para o sexo e
o álcool.
A tentativa
de desqualificar todas as críticas à ciência e à indústria, como nostálgicas de
uma ordem hierárquica e imutável da sociedade, não resiste a um exame
histórico.
Desde o
início, isto é, desde a época das Luzes, existiu quem formulasse críticas
semelhantes, sem por isso referir-se positivamente à religião ou desejar um
retorno à Idade Média. Mas é sobretudo no período
entre as duas guerras mundiais que se forma uma vasta corrente de crítica à
sociedade industrial, exatamente em nome da emancipação social, de Gustav Landauer à Escola de
Frankfurt, de Ernst Bloch a Walter Benjamim. Outras críticas agudas são
formuladas depois da Segunda Guerra Mundial por pensadores não-marxistas como
Ivan Illich, Jacques Ellul,
GÜnter Anders ou Lewis Mumford, o que evidencia, portanto, um crescente déficit da
reflexão marxista.
Naturalmente,
o progressismo triunfante, aquele no qual o progresso
social e progresso tecnológico coincidiam, não poderia ignorar certos lados
negativos da tecnologia. Mas estes vinham atribuídos somente ao único fato da
propriedade privada e
considerados corrigíveis em um regime
"socialista" - até a afirmação em voga antes de Chernobil,
que as centrais nucleares dos países do "socialismo real" fossem
seguras, porque de propriedade do povo, não estariam sujeitas à busca de
proveito individual. Todas as críticas da sociedade industrial e dos seus
pressupostos técnico-cientificos vêm então,
imediatamente, acusadas de serem "reacionárias",
"obscurantistas" e "nostálgicas do passado" e de fazerem o
jogo do atual retorno às religiões. Geralmente, admite-se que exista
somente um nocivo uso da ciência e da tecnologia, enquanto uma crítica voltada
à sua estrutura profunda, que fez vir à tona a sua tendência intríseca de livrar-se de controle e a desenvolver
mecanismos totalmente autônomos, vem aceita, quando muito, nos casos mais
evidentes, como os caos nucleares e os casos de tecnologia genética. Um caso
típico desta atitude é opor a "nociva" pesquisa privada à
"boa" pesquisa pública no campo das biotecnologias, como se o
problema não fosse as biotecnologias enquanto tal, mas
somente o uso delas pela indústria privada.
Raramente,
chega-se a perguntar qual relação existe entre a complexidade
científico-tecnológica e a possibilidade de uma gestão democrática, e ainda
menos coloca-se em discussão as necessidades e os
desejos, e a concepção de vida e do homem, que estão na base do desejo a
contínuos "progressos" científicos. Hoje é necessário perguntar-se
mais qual é a quantidade de ciência e tecnologia - e quais - podem encontrar
lugar na lógica da emancipação. Esse debate não se deixa mais aprisionar nas
categorias de "reacionário" e "progressista", e nem de
"direita" e "esquerda". Se é
impossível democratizar o aparelho produtivo, porque é demasiado complexo,
então é necessário resignar-se a uma necessária dose de opacidade autoritária,
para não renunciar a nenhuma oportunidade tecnológica, ou então seria este um
argumento para reduzir este aparelho reprodutivo ? A questão é: um novo
utensílio aumenta ou diminui o controle sobre as nossas vidas? Pode ser objeto
de uma apropriação emancipatória, ou aumenta a
dependência aos peritos e especialistas? Não se pode fazer um debate livre, se
o saber é seqüestrado pelos técnicos, se cada pequena ou grande decisão pode
ser tomada somente no quadro já traçado pelos "dispositivos
técnicos". Não existe nenhuma emancipação sem controle sobre uma parte da
própria vida cotidiana.
O sistema técnico-econômico
- ao contrário de cada controle consciente sobre as nossas condições de vida -
nos mantém, de tal modo, reféns em um estágio em que não somos mais capazes de
mudar nenhum detalhe, por mais grave que pareça a questão ( seja
o buraco na camada de ozônio, o amianto, a dioxina ou a questão nuclear ). Isso
forma um entrelaçamento em que fatores técnicos e fatores socioeconômicos, em
sentido restrito, remetem sempre um ao outro. Mas os grandes problemas que aflingem o mundo, há pouco pareciam resolvíveis através da
ciência e da tecnologia.
Sabe-se,
para citar somente dois exemplos gritantes, que a fome no mundo não é devida a
rendimentos agrícolas insuficientes que podem melhorar com técnicas agrícolas
mais eficientes, eventualmente genéticas. A fome no mundo tem, evidentemente,
causas sociais e econômicas. E sabe-se que se o objetivo é reduzir doenças e
sofrimentos no mundo, facilitar o acesso à água potável, seria infinitamente
mais eficaz - e mais fácil ao mesmo tempo - que alterar a organização dos
cromossomos ou fingir encontrar remédios para as doenças genéticas. A ciência
não é um instrumento neutro, da qual contam somente os seus gestores, mas é a
sua estrutura a ser, pelo menos em parte, determinada pela forma capitalista,
ou melhor, é em parte responsável por isso.
A objeção
mais evidente a esse discurso consiste então na afirmação de que a ciência,
enquanto exploração das leis da natureza é sempre um bem, uma simples ampliação
das consciências humanas enquanto o eventual problema reside nas suas
aplicações tecnológicas, ditadas pela circunstância social. Mas segundo o
primeiro e verdadeiro teórico da ciência moderna, o inglês Francis Bacon,
contemporâneo de Shakespeare, o método científico consiste "
em colocar a natureza sobre o banco da tortura para arrancar todos os
seus segredos", com o objetivo de " expugnar a natureza". Esta
metáfora proposta nos primórdios do desenvolvimento científico, na futura
pátria da Revolução Industrial e não por acaso na época da grande caça às
bruxas, é de maneira nenhuma casual.
Sem nos
perguntarmos o quê a pesquisa da natureza poderia ser
na teoria, deve-se constatar que há quatrocentos anos a pesquisa científica,
assim como se desenvolveu efetivamente, era concebida por seus mesmos autores
como uma guerra à natureza, como a violenta submissão de um objeto inimigo e
rebelde, que necessita privar-se de cada vontade própria e capacidade de
resistência. Pode-se notar o quanto essa imagem da natureza é consubstancial à
imagem da mulher e dos povos não-europeus formadora da época moderna,
igualmente concebida como parte de uma natureza estranha e inferior, e, por
isso, a ser dominada.
A ciência
moderna não é inteiramente neutra, mas, desde o início, estruturalmente
semelhante à nascente do capitalismo - vê-se isso também no elemento mais
fundamental desta ciência, isto é, a redução das qualidades naturais a simples
quantidades, a diversas expressões numéricas da mesma "substância"
indiferenciada, a partir da revolucionária virada de Galileu.
A analogia
com a redução de todas as atividades humanas a uma simples quantidade de
força-trabalho gasta e representada no valor da mercadoria é evidente. Reduzir
a diversidade à unidade e fazer sumir as diferenças: eis o princípio de
equivalência que domina tanto a economia quanto a ciência.
Em uma certa lógica, todo tipo de desenvolvimento pode ser
somente quantitativo, mas por este motivo tal desenvolvimento é necessariamente
ilimitado: da tecnologia como valor surge a acumulação infinita, a transformar
todo o mundo concreto em simples material para a manutenção da forma social.
Nas
sociedades pré-capitalistas, a produção material era naturalmente importante,
mas essa era subordinada à reprodução da sociedade. Produzia-se tanto quanto
era necessário para que a sociedade continuasse a existir do mesmo modo. Por
isso, pode-se dizer, utilizando a expressão de Karl Polanyi, que nesta
sociedade, a economia era "encravada" na sociedade. Somente na
sociedade capitalista a produção tornou-se, enquanto tal, um objetivo, e a sociedade
inteira é aqui subordinada à economia eàs suas exigências. Como demonstrou Karl Marx com a sua
análise do caráter duplo do trabalho, abstrato e concreto, no capitalismo
existe uma necessidade ilimitada de utilizar sempre mais trabalho para acumular
capital. Na sociedade moderna, o objetivo da atividade produtiva é o dinheiro,
e não uma utilidade ou um prazer concreto. E diferentemente da utilidade ou do
prazer, o crescimento do dinheiro é ilimitado porque é puramente quantitativo.
Este impulso ao autocrescimento infinito é inerente à
forma mesma da mercadoria, baseada no valor abstrato, isto é, na quantidade de
trabalho indiferenciado, abstrato. Mas a forma-mercadoria, que existe
embrionariamente já na Antigüidade e na Idade Média, não teria jamais podido
conquistar praticamente o mundo a partir do Renascimento, se a ciência e as
suas aplicações tecnológicas não tivessem permitido que a crescente quantidade
de trabalho empregado se realizasse também em quantidade sempre mais vasta de
objetos.
Tradução de Juliana Zanetti de Paiva