ADEUS ÀS ILUSÕES
DE QUE
AMANHÃ SE TRATA?
Por causa disso, esta
edição apresenta novos desafios aos(às) leitores(as). Expõe descobertas
significativas. Mostra idéias e propostas em movimento. Idéias e práticas que
continuam buscando o quarto proibido. O quarto onde estão guardados os segredos
mais importantes da humanidade.
...
com tudo isso, evidencia-se a resposta para a
verdadeira dimensão da crise mundial no século XXI. Trata-se da superação não
só da história capitalista, mas da história existente até agora.
Caro(a) Leitor(a),
“Quando não há caminhos traçados
Nós voamos”.
Rilke
“O poeta aponta a lua, o idiota vê o
dedo”.
Internacional Situacionista
“... para o esclarecimento de minhas
próprias idéias
e não para a sua publicação”.
Trecho de uma carta de Marx a Engels
sobre os Grundrisse 8/12/1858
Com os “Grundrisse” iniciamos uma verdadeira aventura
de reflexão. Através dela pudemos dimensionar que os rascunhos não constituiam,
principalmente através de um dos seus trechos, tão somente, um andaime para “O
Capital”. Não. Eles prospectavam para muito mais adiante. Exigiam, uma outra
construção, uma nova teoria com sua prática correspondente para, de fato,
superarmos o capital com todo o seu sistema capitalista. Por isso, sua edição
(Contraponto), em português, constitui um acontecimento editorial dos mais
significativos em nosso país.
A sua descoberta nos inspirou para a batalha do acerto
de contas com nossa própria trajetória. E este acerto foi tão grande que, pelo
seu alcance, amplitude, profundidade e exigência, constituiu-se na busca de uma
revolução da teoria marxista.
No caminhar dessa busca reencontramos e/ou nos
deparamos com Karl Marx, Guy Debord e os Situacionistas, Alice Debord, Dieter
Heidemann, Peter Naumann, Grupo Krisis, Norbert Trenkle, Moishe Postone, Anselm
Jappe, Teresa Ricci, Roswitha Scholz e Robert Kurz. A edição deste caderno deve
muito a todos(as) eles(as), em particular, a Karl Marx, Anselm Jappe e Robert
Kurz. Devemos, em especial, aos nossos 30 anos de caminhos traçados e de vôos
impensáveis em Fortaleza e em outros pontos do país e do mundo. Em todos(as)
eles(as) nos apoiamos para historicizar, reapresentar, parafrasear, desviar,
reelaborar e dar origem a esta edição. Posto isso, cabe ressaltar que
nossos(as) interlocutores(as) atuais não têm nenhuma responsabilidade na
elaboração e edição desta publicação. A responsabilidade é única e
exclusivamente nossa.
O lançamento deste caderno constitui uma (re)formulação
teórica e prática quase integral do pensar e agir do grupo. Ele é fruto de
várias de nossas tentativas de elaboração e reelaboração na busca de um fio
condutor de muitos anos de reflexão crítica e luta contra o Espírito do Tempo.
Por causa disso, esta edição apresenta novos desafios aos(às) leitores(as). Expõe descobertas
significativas. Mostra idéias e propostas em movimento. Idéias e práticas que
continuam buscando o quarto proibido. O quarto onde estão guardados os segredos
mais importantes da humanidade.
Queremos aproveitar a oportunidade da edição e
lançamento desta publicação para registrar o empenho de cada um(a) dos(as)
integrantes do grupo e de cada um(a) de nossos amigos(as) e colaboradores(as).
Sem eles(as) teria sido impossível a
aventura e ventura da reflexão e ação em busca da emancipação humana.
A todos(as), nossos agradecimentos.
Um abraço.
Fortaleza, 21 de junho de 2005.
Grupo Crítica Radical
A SUBVERSÃO DA EMANCIPAÇÃO, A EMANCIPAÇÃO
DA SUBVERSÃO
Uma subversão radical ronda o mundo – a subversão pra
superar o capitalismo.
Ultrapassar este sistema produtor de mercadorias é
superar o capital, seu sujeito, seu fetichismo, sua dissociação e o valor, essa
abstração real que comanda a vida humana com todas as suas categorias. O
resultado desta subversão só pode ser a morte do capitalismo e da própria
subversão.
Mas, todos os poderes do mundo - Bush e Hu Jintao;
Fidel e Bin Laden; Sharon e Abbas; igrejas e o Papa; Lula e FHC; religiosos e
empresários; banqueiros e latifundiários; partidos políticos e meios de
comunicação; CUT e CONLUTAS; MST e UDR; cientistas e ecologistas; comunistas e
socialistas; trotskistas e anarquistas; traficantes e corruptos; rentistas e
artistas; patrões e trabalhadores - estão comprometidos na defesa do fundamento
da produção burguesa (valor). Por causa disso, todos os seus posicionamentos
giram em torno da distribuição do dinheiro e não de seu questionamento. Pode
-se afirmar, portanto, que todos eles têm um só lema: dinheiro, dinheiro,
dinheiro.
O CAPITALISMO NÃO PODE VENCER A
SUA PRÓPRIA LÓGICA
No entanto, a crise atual, ao evidenciar o esgotamento
da lógica do processo de acumulação capitalista, expõe os limites do
capitalismo. Conseqüentemente, os limites do dinheiro. Com isso, o sistema
perde sua dinâmica, fica sem perspectiva e só produz desastres. Como
decorrência disso, ele não responde mais às conseqüências da crise para a vida
humana, o planeta e para si próprio. Se você duvida, verifique:
1º- a economia submeteu a vida humana às suas próprias
leis. Isto provocou uma catástrofe dos fundamentos naturais da vida. Portanto,
a destruição do planeta. Como conseqüência, a continuidade da sociedade ficou
ameaçada;
2º - a enorme acumulação dos meios de que a sociedade
dispõe não torna a vida mais rica, mais bela e mais humana. A cega utilização
destes meios materiais não pode ir mais longe sem comprometer a vida humana;
3° - a crise atual atinge todos os países centrais
capitalistas e vai tornando evidente, nos demais, que a maior parte de sua
população já não consegue viver dentro de suas formas sociais;
4° - o nosso dia a dia é dominado por horrores.
Horrores que continuam existindo porque continua a existir a sociedade que os
produz. Afinal, eles são frutos de sua própria lógica. Mas, o capitalismo não
pode vencer sua própria lógica. A conseqüência disso é a catástrofe social e
ecológica em que vivemos. A vida começa a se transformar numa vida animalesca.
Resumindo: a crise atual demonstra que, diante do
limite interno absoluto do capital, a história do capitalismo está chegando ao
fim. A razão iluminista não consegue mais iluminar a modernidade.
DECADÊNCIA OU SUPERAÇÃO?
Nenhum partido, nem governante, nem candidato, nem
eleição, nem fórum social, científico, cultural, artístico, de imprensa ou de
juventude respondem a essas questões decisivas. Suas propostas convivem com a
decadência do sistema. Um exemplo: fazem um barulho danado sobre a corrupção e
chegam a punir alguns corruptos(as), mas não buscam e muito menos eliminam as
suas causas. Por causa disso, pioram o já piorado. Isto se torna claro na
medida em que propõem e/ou querem administrar o que é inadministrável. De vez
em quando armam um enorme aparato, mas apenas para a perfumaria política. E o
resultado fica sempre equivalente a zero.
Como fazer,então, para que os diversos acontecimentos
atuais não permaneçam sob o abrigo da decadência do capitalismo mas apontem para
além deles? Se as luzes do moderno sistema produtor de mercadorias se apagam,
haverá vida depois dele? Será possível superar o capitalismo? Será que diante
dessa decadência com sua barbárie seremos capazes de uma reflexão e ação que
sejam portadores de uma chama infinita de esperança, energia psíquica e ousadia
emancipatórias, que despertem e multipliquem a consciência, a vontade, a
paixão, o tesão e a fantasia de milhões de seres humanos para transformar
radicalmente esta sociedade? Como começou toda esta história?
A MERCADORIA E O DINHEIRO NAS SOCIEDADES
PRÉ-MODERNAS
As sociedades pré-modernas não existiam em todo o
planeta. Não possuíam consciência histórica. Não dispunham da história como uma
explicitação de seus processos de evolução e formação sócio-econômicas.
Além do mais, não estavam em conflito consigo mesmas,
ou seja, com sua própria forma. Uma dinastia podia suceder a outra, mas a forma
social como tal não era colocada em dúvida. A sociedade, sob tais pressupostos,
aparecia sempre como sociedade em geral, não como forma específica que também
poderia ser totalmente diversa.
As sociedades pré-modernas eram capazes de
reproduzir-se por períodos incrivelmente longos (no caso do Egito, por séculos)
sem ruírem a partir de dentro; seu declínio, pois, era condicionado antes de
tudo por causas externas.
As culturas agrárias pré-modernas possuíam uma reflexão
que não fazia a crítica da sociedade. Antes era uma reflexão imediata sobre Deus,
ou sobre o universo, sobre a posição do homem no cosmos, sobre o enigma da
morte. Era necessariamente, portanto, uma reflexão religiosa e com conteúdo
religioso que permaneceu vinculada à estrutura sócio-econômica pressuposta sem
crítica.
Nas sociedades pré-modernas havia, desde épocas
distantes, a troca local e, do mesmo modo, o comércio exterior (especiarias,
seda, minérios, armas, etc). Oriente - Próximo, Egito e China desenvolveram um
notável comércio onde o dinheiro, sob diversas formas, foi utilizado como
mediação entre as mercadorias. No entanto, nessas sociedades pré-modernas, em
geral, o volume de trocas permaneceu pequeno. Afinal, eram sociedades
essencialmente agrícolas, baseadas no trabalho servil e organizadas por um
Estado despótico.
Assim sendo, nunca se formou, abrangendo toda a
sociedade, um sistema produtor de mercadorias como é o capitalismo. E o
trabalho não constituia uma esfera separada. Nem tampouco era encarado como um
princípio ontológico da sociedade humana. Ao contrário, possuía um significado
de inferioridade social e dependência. Estas sociedades conheceram a invenção
de máquinas que aumentavam a produtividade. Mas elas não causaram nenhuma
revolução no modo de produção como em séculos posteriores.
CAPITALISMO, AINDA QUE TARDIO
Por que o capitalismo não veio antes, se o valor é mais
antigo do que o capital?
O capitalismo não nasceu antes porque o valor
pré-capitalista funcionava apenas como uma mediação entre valores de uso. Dessa
forma, ele não podia constituir uma relação de produção social.
O valor e a mercadoria são condições necessárias, mas
não suficientes da produção capitalista da mais- valia: esta não decorre
inevitavelmente daquelas. O valor, ao contrário, contém necessariamente a mais-valia,
a partir do momento em que são produzidas as condições históricas necessárias.
Durante longos séculos, a mercadoria permaneceu um fenômeno de “nicho”,
limitada à circulação, isto é, uma troca ocasional de produtos quase sempre
obtidos por apropriação direta (escravidão, servidão). É somente onde o
trabalho assalariado “livre” se encontra frente ao capital que a mercadoria
penetra na produção e em seguida na sociedade inteira.
Mas, se o desenvolvimento econômico do valor durante a
Antigüidade foi fraco, as formas de consciência correspondentes alcançaram um
grande vôo. Com relação a isso, parece existir um laço entre os primórdios do
pensamento filosófico europeu, que elaborou as primeiras idéias universais e o
aparecimento da moeda. Estes dois fenômenos surgiram ao mesmo tempo e no mesmo
lugar: nas cidades gregas de Jônio, no final do século VII a.C.
O desenvolvimento da mercadoria e do dinheiro foi
submetido, no final da Antigüidade, a um declínio que durou aproximadamente mil
anos. Contudo, nesse período, particularmente a partir do século XIII, foram
surgindo elementos fundamentais para o nascimento do capitalismo. Inicialmente
nos mosteiros, onde, pela primeira vez, atribuiu-se ao trabalho um significado
moral - exatamente na qualidade de sofrimento.
E o trabalho nos mosteiros era acompanhado de uma organização regular do tempo.
Esta fazia parte desse fenômeno mais vasto que era a introdução do “tempo
abstrato”, visível também na invenção e difusão dos relógios. Mas um novo e
decisivo elemento rompeu com a caminhada lenta na direção do capitalismo.
UMA FORÇA DESTRUTIVA ABRE CAMINHO
PARA O CAPITALISMO
O advento da modernidade alterou completamente essa
situação, não através de uma força produtiva, mas, pelo contrário, destrutiva.
O que abriu o caminho para a modernização foram o homem branco e ocidental com
sua economia política das armas de fogo. Foi através da invenção e uso das
armas de fogo que se destruíram as formas pré-capitalistas de domínio. A
cavalaria feudal tornou-se militarmente ridícula. Estava selado o destino dos
exércitos trajados de armaduras. Mas a arma de fogo não estava nas mãos de uma
oposição “de baixo” que fizesse frente ao domínio feudal.
Isto fica evidenciado na medida em que as armas de fogo
não podiam mais ser produzidas em pequenas oficinas. Ao contrário, elas exigiam
uma indústria de armamentos em grandes fábricas. Tanto as armas, quanto a
construção de fortificações, deviam ser pagas em dinheiro, bem como os
mercenários. O dinheiro começava, assim, muito mais do que durante a
Antigüidade, a penetrar com profundidade na sociedade e a dissolver a vida
agrária localizada. Indústrias armamentistas, corridas armamentistas e
manutenção de exércitos permanentes organizados, divorciados da sociedade civil
e ao mesmo tempo com forte crescimento, conduziram necessariamente à
dependência do dinheiro.
A produção de mercadorias e a economia monetária
(elementos fundamentais do capitalismo) passaram a existir porque contaram com
a economia militar e de armamento. Através delas, as pessoas foram forçadas a
trabalhar para ganhar dinheiro. Evidentemente, as pessoas não se deixaram levar
de livre e espontânea vontade pelas exigências da nova economia armamentista e
financeira. Só podiam ser forçadas a isto por meio de uma repressão sangrenta.
Eis aqui a origem das guerras camponesas, no início da modernidade, até as
agitações dos ludistas (chamados “quebradores de máquinas”) e a caça às bruxas.
Por meio da caça às bruxas a igreja forneceu o impulso decisivo para destruição
da antiga imagem mística do mundo, e nesse sentido foi plenamente propícia aos
novos poderes e novas idéias.
TRABALHO E DINHEIRO, OS PRIMEIROS HORRORES
DO CAPITALISMO
O nascimento do capitalismo está vinculado, portanto, à
violência. Foi a repressão que transformou os pequenos produtores em
trabalhadores “livres”. Para isso, eles foram expulsos de suas terras e tiveram
cortados seus direitos à caça, à pesca e à lenha. A finalidade destas medidas
era forçá-los a venderem a única coisa que ainda lhes restava - sua “força de
trabalho”. No entanto, outros fatores contribuíram para o surgimento e
desenvolvimento do capitalismo. Entre eles cabe destacar a mudança nas formas
de consciência e o disciplinamento dos seres humanos. Papel importante cumpriu,
neste sentido, o sistema escolar e educacional para o adestramento espiritual e
aprendizado de parâmetros comportamentais com a finalidade de se ajustar a vida
inteira ao trabalho.
O nascimento da ciência moderna e sua visão
quantitativa da natureza estava vinculado ao surgimento do valor abstrato na
vida social. A concepção de Galileu sobre a natureza e de Newton sobre a força
gravitacional surgiram na época em que o mundo passava a se unificar sob o
governo de uma única força - o dinheiro. Além disso, a glorificação do
trabalho, a mudança do mundo mediante o trabalho e a defesa de virtudes
indispensáveis para se obter esses objetivos ganharam, no Renascimento, uma
força considerável.
A partir desse momento, torna-se decisivo interiorizar
nas pessoas as exigências do trabalho. Jeremy Benthan, Hobbes, Rousseau, Kant,
dentre muitos outros, pregaram uma nova submissão: não mais a um senhor de
carne e osso, nem a um Deus, mas ao novo fetiche, ao mecanismo impessoal, sob o
aspecto de “razão”, “vontade geral”, “progresso” e “Estado”. A razão dos
iluministas era também a transfiguração da irracionalidade da valorização.
AS SOCIEDADES MODERNAS DERAM
ORIGEM A DUAS CRÍTICAS
Esse novo período nasce carregando consigo uma dinâmica
sem precedentes. Essa dinâmica, que tem por base a moderna revolução
industrial, submete a vida social ao movimento de valorização do dinheiro. Esse
movimento se torna insaciável e se reproduz com formas sempre novas, em
estágios evolutivos cada vez mais elevados. Para dar resposta a tudo isso, a
nova sociedade inaugura seus novos conceitos de revolução, processo, movimento,
espaço, tempo, cultura, educação, arte, etc. A partir daí, o novo
pensamento de crítica social inventa a história linear e o progresso, o olhar
voltado para o futuro e a crítica de cada situação alcançada, como mero estágio
transitório para uma respectiva situação nova e supostamente superior. Papel
importante coube às máquinas a vapor que revolucionaram a produção industrial,
seus modos de produção e troca.
Porém, a crítica social inaugurada pela modernidade dá
origem a duas críticas sociais antagônicas. Uma, que ensaiava a crítica radical
das formas básicas desta sociedade. Outra, que criticava a insuficiência e
subdesenvolvimento da mesma. A primeira, que no início permaneceu oculta e
durante um bom tempo reprimida, só recentemente foi (re) descoberta e por isso
só agora dá os seus primeiros passos. Passos que nos conduzem ao quarto onde
estão guardados os segredos mais importantes da humanidade. A segunda
sobreviveu e se desenvolveu até agora como uma reflexão imanente ao
capitalismo. Sua fundamentação está baseada na teoria da modernização
capitalista, ou seja, no socialismo com suas variantes (marxista, socialista,
bolchevista, stalinista, trotskista, maoísta, etc) e seus discordantes
anarquistas.
As duas teorias se voltam para uma mesma base de estudos
que é o capitalismo. Porém, o capitalismo não ingressou na história em estado
puro, mas sim através de uma miscelânea de momentos capitalistas,
pré-capitalistas, modernos e pré-modernos. Isso ocasionou uma disparidade entre
os vários países continentais da Europa que eram subdesenvolvidos em relação à
Inglaterra e também nos demais países do mundo, que eram ainda mais atrasados
do que os subdesenvolvidos europeus. Nessa não simultaneidade interna e externa
do capitalismo reside a gênese dessas teorias. Daqui advém suas distintas
abordagens, com duas teorias diferentes: uma, a teoria da superação do
capitalismo; outra, a teoria de sua modernização.
Essa contradição ainda persiste. Mas até aqui vinha
prevalecendo a reflexão teórica interna das formas capitalistas.
Conseqüentemente, a crítica ao capitalismo acabou não se referindo ao todo
lógico e histórico desse modo de produção, mas sim sempre apenas a determinados
estágios de desenvolvimento já percorridos ou a serem superados. Com isso, a
vida do capitalismo se prolongou.Como entender isto?
A LÓGICA DO CAPITAL EM MOVIMENTO - O CAPITALISMO
SEM LIMITES
O objetivo da produção moderna foi transformar dinheiro
em mais dinheiro. Isto só foi possível porque, no capitalismo, o dinheiro é a
encarnação do trabalho. O fundamento do sistema é a valorização do dinheiro que
surge como uma forma de riqueza constituída pelo dispêndio do trabalho humano
direto, tendo por base o tempo de trabalho. Nisto reside o coração do sistema
capitalista, a produção do valor, a valorização do dinheiro.
No entanto, para obter o lucro, a venda dos bens
produzidos deve render mais dinheiro do que o custo de sua produção.
Alcança este objetivo a empresa que faz ofertas mais baratas de mercadorias.
Quem decide, face à concorrência, é a produtividade. Para produzir grande
quantidade de produtos com pouco dispêndio de trabalho vivo, ou seja, poucos
trabalhadores e muitas mercadorias baratas, torna-se indispensável o uso cada
vez maior de máquinas. Portanto, a diminuição dos custos exige que menos
trabalhadores produzam mais produtos.
Apesar desta contradição, o sistema se expandiu. E se
expandiu porque a capacidade de racionalização era, neste momento, menor que a
expansão do mercado. Com isso, a indústria absorveu antigos ramos de produção
artesanal, criou novos setores produtivos, inventou produtos jamais imaginados
e infundiu a sede de comprar nos consumidores. O processo de aumento de
produtividade, expansão e saturação dos mercados, criação de novas necessidades
e nova expansão parecia não ter limites.
O APOGEU DO FORDISMO E OS SINAIS DA CRISE
DAS FRONTEIRAS DO CAPITALISMO
Em 1886, o engenheiro alemão Carl Benz construiu o
primeiro carro. Em 1900, o engenheiro norte-americano Frederic Taylor criou um
sistema que separava as áreas de trabalhos específicos, o que
resultou no aumento da produção. Em seguida, o empresário Henry Ford
introduziu a esteira rolante, originando um novo método de produção, o
fordismo. Os resultados foram surpreendentes. De l0 mil carros por
ano, a indústria fordista pulou para 248 mil carros em l914. Os novos métodos
deflagraram uma nova revolução industrial. O aumento de produtividade barateou
uma enorme quantidade de produtos, ampliou o mercado e criou um número
espantoso de novos empregos. O capitalismo viveu sua época de ouro e os
trabalhadores obtiveram suas maiores conquistas. Agora, ao contrário dessa
situação, nasce uma crise que não decorre das imperfeições do sistema produtor
de mercadoria, mas de sua vitória plena.
No início do século XX, o capitalismo se modificou. Na
época, a transformação do modo de produção capitalista alterou o sistema de referência
dos conflitos sociais. Com isso, imperialismo, economia de guerra, fordismo,
taylorismo etc., polarizaram a humanidade. Isso obrigou uma transformação
também da teoria . Ora, se o objeto da crítica se modifica, é claro que a
própria crítica tem que se modificar.
Após a Segunda Guerra Mundial, sob a égide da Guerra
Fria, todo esse processo revelou-se através da conjuntura formada pelos “ três
mundos “, que marcou a segunda metade do século XX, notadamente: o “Primeiro
Mundo” do velho centro capitalista, sob o comando dos EUA; o “Segundo Mundo”,
representado pelo capitalismo de estado e/ou socialismo de estado, sob o
comando da URSS; e, finalmente, o “Terceiro Mundo”, composto por movimentos
pós-coloniais de libertação nacional e por ditaduras desenvolvimentistas das
mais diferentes tendências.
Hoje, a ruptura da nossa época, no início do século
XXI, exige uma transformação ainda mais profunda e radical. As novas forças
produtivas da micro-eletrônica são as responsáveis pela nova crise do
capitalismo. A riqueza material produzida, agora, é fruto de um sofisticado
complexo tecnológico. O dispêndio do trabalho humano abstrato perdeu a corrida
para a ciência. Antes, o fordismo marcou o apogeu do sistema. Agora, a
informatização marca a sua entrada definitiva em crise. Eis o aspecto central
que explica a causa e a natureza da crise atual do mundo globalizado. Não se
trata de um aspecto particular mas determinante do colapso da modernização. O
conteúdo material da produção se tornou incompatível com a forma imposta pelo
valor.
A CONCORRÊNCIA DO FIM DA MODERNIDADE, O FIM DA MODERNIDADE NA CONCORRÊNCIA
Inglaterra, França, Estados Unidos e Alemanha foram os
países que, no século XIX, construiram um capitalismo industrial. Após isto, um
fato considerado inusitado se tornou evidente: a economia de mercado não é -
como deseja-se fazer crer hoje em dia - o “modelo” perfeito que basta ser
aplicado em cada país, para que se colha em seguida os melhores frutos. Pelo
contrário, cada economia nacional de mercado se coloca, desde o começo, no
quadro de uma economia mundial fortemente determinada pela concorrência. A
Inglaterra conservou por um bom tempo a vantagem que lhe advinha do fato de ter
sido a primeira nação a inundar os mercados mundiais com suas mercadorias. Na
seqüência, as outras economias tiveram que contar com um nível de produtividade
estabelecido pelas nações industrializadas. Tornava-se, portanto, necessário
investir, antes mesmo de começar a produzir, em infra-estrutura e capital fixo
que deveriam estar no mesmo nível dos países mais desenvolvidos. Em outras
palavras, esses países tinham um atraso a suprimir, que era tão grande, quanto
o tempo que ia demorar para entrar na competição. Assim, o Japão e a Itália
foram os últimos países que conseguiram entrar no grupo de “linha de frente”,
tornando-se os demais países perdedores na disputa pela concorrência. No século
XX , tinha se tornado impossível implantar o modo de produção capitalista num
país sem que a sua economia fosse imediatamente sacudida pelo afluxo de
mercadorias baratas provenientes dos países industrializados.
SOCIALISMO DO HORROR, HORROR DO SOCIALISMO
Diante dessa situação, ganhou força a idéia de que um
país só poderia fazer parte da modernidade se contasse com um poder absoluto.
Só assim estaria garantido um espaço protegido de qualquer concorrência
exterior. Com isso, estariam sendo asseguradas e criadas as condições
indispensáveis para o desenvolvimento capitalista e/ou socialista desses
países.
Com efeito, foi o que aconteceu na Rússia, na China e
em muitos países da periferia capitalista. A mercadoria, o dinheiro, o valor, o
trabalho, o Estado, o mercado, etc, não foram abolidos. Muito pelo contrário,
procurou-se desenvolvê-los até o nível ocidental. A economia mercantil não
seria superada, mas sim dirigida pela “política”. Repetiu-se na Rússia uma
espécie de “acumulação primitiva” que implicou na transformação forçada de
milhões de camponeses em operários de fábrica e na difusão de uma mentalidade
adaptada ao trabalho abstrato. Os recursos da sociedade eram canalizados para a
construção das infra-estruturas e da indústria pesada (de base) em um nível que
uma economia privada jamais teria podido alcançar. A redução do comércio
exterior ao mínimo, sob o controle do Estado, permitiu a este enorme país fazer
crescer uma indústria que teria desaparecido no mesmo instante se ela tivesse
que fazer frente, imediatamente, à concorrência mundial.
No início, os sucessos foram consideráveis e, em pouco
tempo, a União Soviética tinha se tornado a segunda potência industrial do
mundo. As “democracias ocidentais” se declaravam horrorizadas com os métodos
pelos quais esse resultado tinha sido atingido. Na verdade, o que elas viam lá
não passava de um resumo dos horrores de seu próprio passado - a Rússia
atrasada tinha repetido em alguns anos o que tinha levado séculos no Ocidente.
E, com isso, a construção do socialismo na Rússia não foi nem uma tentativa de
construir uma sociedade emancipada (como afirmavam seus partidários), nem a
ambição tresloucada de realizar uma utopia ideológica (como queriam acreditar
seus críticos burgueses), nem mesmo, também, uma “revolução traída” pela nova
burocracia parasitária (como proclamavam seus críticos de esquerda).
Tratava-se, simplesmente, de uma modernização tardia. Afinal, não se pode
superar a mais-valia em nome da emancipação dos trabalhadores, com o valor
permanecendo como base ontológica. Ao contrário, o modo de produção baseado no
valor só pode ser superado com a superação da própria forma - valor fetichista.
A derrocada do Leste, que foi alardeada pelos ideólogos
do sistema capitalista como o fim da história,ou seja , a vitória absoluta do
capitalismo, representou, na verdade, o sinal da crise geral do sistema
produtor de mercadorias.
O LIMITE DO CAPITALISMO, O CAPITALISMO DO LIMITE
Nos anos 80, a terceira revolução industrial, com base
na microeletrônica, levou as indústrias fordistas a atingirem seu nível
histórico de saturação. Novos e sofisticados produtos tiveram seus preços
barateados. Computador vai se transformando em consumo de massas.
Mas, este novo surto econômico não trouxe o correspondente aumento de empregos.
A produção passou a depender menos do tempo de trabalho e do montante de
trabalho empregado e muito mais das sofisticadas máquinas na produção, criadas
pela ciência e tecnologia. Perante o imenso acúmulo de trabalho morto, o
trabalho vivo ficou reduzido à mera supervisão e manutenção do sistema
mecânico. O aumento incessante da produtividade do trabalho chegou numa
situação em que o valor novo adicionado por unidade de produto é insignificante
e mesquinho. Com isso, a medição pelo critério do valor se tornou
insustentável. Assim, nem o trabalho e nem o tempo de trabalho são mais as
condições principais da produção. O trabalho começa a deixar de ser a fonte
principal de riqueza e o tempo de trabalho deixa de ser a sua medida. Aqui se
inicia o extermínio da galinha dos ovos de ouro do capital, o trabalho.
IMPASSE DA SOCIEDADE ATUAL - A CRISE FINAL
DO TRABALHO
A produção moderna, cujo objetivo é originar o lucro,
está diante de um impasse. Reduzir o tempo de trabalho a um mínimo
ou continuar com o tempo de trabalho como medida de produção, eis a questão.
Pela primeira vez na história da humanidade, a nova tecnologia economiza
mais trabalho do que o necessário para a expansão dos mercados de novos
produtos. A capacidade de racionalização é maior que a capacidade de expansão.
Uma nova fase criadora de empregos deixou de existir. O desemprego se espalha
por todas as indústrias, por todo o planeta. A troca de trabalho vivo pelo
trabalho objetivado se apresenta como o último desenvolvimento atual da relação
do valor, da produção baseada no valor. Muda o significado de
riqueza, tempo e trabalho. A barreira histórica do capitalismo se apresenta, o
seu limite vislumbrado. Pois a terceira revolução industrial mudou a aplicação
do capital dinheiro. Na medida em que ele não pode mais ser reinvestido de
forma rentável na economia real, porque não pode mais absorver mais trabalho,
ele se desvia. O seu caminho é o mercado financeiro.
Esse deslocamento especulativo é prova concreta do
limite do sistema. O dinheiro, que aparentemente circula em quantidades
infinitas, já não é , mesmo no sentido capitalista, um “bom dinheiro”,
mas apenas “ar quente”, com o qual a bolha especulativa foi levantada e
simula a solidez do sistema financeiro. A possibilidade desta bolha
estourar avança diariamente. Suas conseqüências serão muito mais graves do que
da crise de l929.
Esse limite se manifesta de forma muito diferenciada em
cada país do mundo global. Por causa disso, a ilusão de um futuro promissor
para o capitalismo irrompe, de vez em quando, com grande estardalhaço.
Primeiro, foi o Japão. Em seguida, foi a vez dos Tigres Asiáticos. Agora, a
bola da vez é a China. Mas esta esperança é tão enganadora quanto as
anteriores. Neste sistema não tem remendo que possa dar jeito! Ele perdeu sua
dinâmica e, agora, só produz catástrofe.
Os seres humanos, que foram capazes de construir um
maquinário técnico-científico para substituir o trabalho, estão sendo chamados
agora para, na maior demonstração de sua capacidade e genialidade, superarem
esse sistema e construírem a sociedade da emancipação humana.
CRISE DA POLÍTICA E DO ESTADO, POLÍTICA
E ESTADO EM CRISE
A crise do trabalho tem como conseqüência a crise do
Estado e, portanto, da política. O Estado moderno constituiu-se como uma
instância superior que garantia, no quadro da concorrência, os fundamentos jurídicos
normais e os pressupostos da valorização dos sistemas produtores de
mercadorias. Para garantir isso era indispensável a existência de um aparelho
de repressão para a possibilidade do material humano
insubordinar-se contra os sistemas capitalista e socialista de Estado. No
capitalismo sem limites, o Estado assumiu de forma crescente tarefas
sócio-econômicas como saúde, educação, rede de transportes e comunicação,
infra-estruturas de todos os tipos que eram indispensáveis ao
funcionamento da sociedade do trabalho.
Mas, o Estado não transforma trabalho em dinheiro, ou
seja, o Estado não constitui uma unidade de valorização autônoma e por isso
precisa retirar dinheiro do processo real de valorização, fruto da produção e
contradição entre o capital e o trabalho. Faz isso taxando, através dos
impostos, os rendimentos capitalistas do mercado (lucros, salários,
honorários). Mas, como vai se esgotando o trabalho, esgota-se a valorização.
Esgotada a valorização, esgotam-se também as finanças do Estado. O Estado
apresenta-se desnudado e exibe a sua dependência diante da economia cega e
fetichizada da sociedade do trabalho. Na crise desta sociedade, tanto a
propriedade privada, quanto a propriedade estatal, ficam obsoletas porque as
duas formas de propriedade pressupõem, do mesmo modo, o processo de
valorização. A propriedade estatal é apenas uma forma derivada da propriedade
privada, tanto faz se com ou sem o adjetivo socialista.
OS HORRORES DA SOCIEDADE ATUAL, A SOCIEDADE
ATUAL DOS HORRORES
Com o crescente desemprego estrutural de
massas, esgota-se a renda estatal proveniente dos impostos sobre os
rendimentos do trabalho. Com a crise, caem fora também as rendas estatais
provenientes dos impostos sobre os lucros das empresas. Por outro lado, os
trustes transnacionais obrigam os Estados que concorrem por investimentos
a praticarem todo tipo de bandidagem. E aí o neoliberalismo se destaca pela sua
enorme contribuição aos desastres do atual sistema produtor de mercadorias. Os
limites da economia nacional são dinamitados. Regiões mundiais inteiras são
cortadas dos fluxos globais de capital e mercadorias. Numa onda de fusões
sem precedentes históricos, os trustes se preparam para a última batalha da
economia empresarial. Estados e nações são desorganizados e implodem.
Populações são empurradas para a loucura da concorrência. Na luta pela
sobrevivência assaltam em guerras étnicas de bandos. Com novas roupagens
ressurgem o racismo, canibalismo, homofobia, xenofobia, genocídio,
patriarcalismo, nazismo, fascismo.
Com a permanência e agravamento da crise crescem a
exclusão, discriminação, terror, violência, guerra, narcotráfico, desemprego,
etc. A barbárie ronda todas as cidades do Brasil e do Mundo. Acontecem estupros
de bebês e crianças. A desesperança e a miséria se alastram. O serviço público
virou calamidade. A sociedade mal funciona. O “lixo humano” fica sob
a competência da polícia, das seitas religiosas de salvação, da máfia, dos
esquadrões da morte e/ou grupos de extermínio. Aumenta enormemente o número de
pessoas nas prisões, particularmente jovens. Diariamente, crianças e pobres são
assassinados. Três quartos da humanidade afunda em estado de miséria e
calamidade porque o sistema social de trabalho não precisa mais do seu trabalho
e são declarados como lixo social. A natureza está ameaçada de destruição. Uma
catástrofe de imensas conseqüências atinge os fundamentos naturais da vida e
ameaça também a sociedade.
Além disso, diante da crise atual, o patriarcado fica
ainda mais selvagem. O resultado das democracias fordistas para as
mulheres já foi a carga dupla, a dupla jornada de trabalho, salários
diferenciados, subalternidade, discriminação, humilhação e violência sexual.
Agora vem a terceira, que além de acentuar a dissociação nas relações entre os
sexos e a cisão entre o público e o privado, pretende tornar as mulheres
responsáveis pela sobrevivência impossível da sociedade atual, que o
mundo masculino, irracionalmente, quer prolongar.
ESTADO É ADMINISTRADOR DE CRISES
O Estado democrático transforma-se, com isso, em mero
administrador de crises. A educação vira privilégio para incluídos e enganação
para excluídos. A cultura intelectual, artística e teórica é remetida aos
critérios do mercado, vai padecendo e se desqualificando e destilando o tédio
cotidiano. A saúde não é mais financiável. Descaradamente vale a lei da
eutanásia social: porque você é pobre e “supérfluo” não tem direito a
nada e tem que morrer bem antes. Desempregados, moradores e meninos de rua,
sem-teto, sem-terra, sem nada, doentes, idosos e excluídos são atirados no
aterro sanitário social. O Estado virou um sistema de apartheid que não
tem mais nada a oferecer aos seus ex-cidadãos.
Diante da barreira histórica do modo de produção
de mercadorias, os seus atuais integrantes e postulantes resolveram
cometer suicídio ao lado do capitalismo. Pois o Estado se converteu num
aparelho para a barbárie, terror, loucura, corrupção, assassinato, tráfico,
demagogia, violência, escárnio, cinismo, etc. Por isso, só pessoas que reúnem
aptidão e qualidades para tais atividades podem integrar um tal aparelho e
executar sobre o povo e sobre si mesmas, com o avanço da crise, o veredicto do sistema.
A MISÉRIA DA POLÍTICA, A POLÍTICA DA MISÉRIA
Esta crise não pode ser revertida através da política.
Pois política é em sua essência uma ação relacionada ao Estado que se tornou,
na situação atual, completamente sem sentido. Num mundo fundamentalmente
mentiroso, a política, como portadora da mentira, tem seu papel relevado
para enganar as pessoas. A finalidade da política só pode ser a conquista do
aparelho de estado para dar continuidade à sociedade da política. A
política fala de realismo quando devasta o mundo e ameaça a vida. Fala do
que é melhor para a cidade e a torna cada vez mais feia e animalesca. Fala em
humanismo e deixa a pessoa humana empobrecida e miserável no meio da riqueza.
Evidentemente, fica impossível, nessas condições, haver alguma regulação
política democrática para a crise do trabalho e da política. O fim do
trabalho torna-se o fim da política.
Com isso, a política ficou reduzida a mero espetáculo.
Um espetáculo que leva você a obedecê-lo, que coloca você a seu serviço, que o
apaixona para servi-lo e que o conduz para a passividade, resignação e
mediocridade. Todos concordam que não fica bem vender um político, como se
vende um detergente. Mas, vendem e eleitores continuam comprando. Por isso, a
atuação política virou tarefa de demagogo. Por mais chocados que fiquem os
adoradores da deusa-política, a política acabou.
Portanto, a impotência da política também contribui
para dimensionarmos melhor que a crise atual se apresenta como crise final do
capitalismo, a crise da própria forma-valor e não apenas de seus aspectos
secundários. Fazem parte dela: a crise ecológica; a impossibilidade, na época
da globalização, para a política e para os estados nacionais de continuarem a funcionar
como instâncias reguladoras; a crise do sujeito constituído pelo
valor-dissociação, particularmente visível na crise da relação entre os sexos e
o esgotamento da sociedade do trabalho e de seus fundamentos.
A CRÍTICA DA HISTÓRIA, A HISTÓRIA DA CRÍTICA
O pensamento pré-moderno acrítico só era possível sob a
condição de que a sociedade repousasse estaticamente sobre si mesma e o
pensamento reflexivo se reportasse, não ao vazio, mas a uma ordem divina. Não
há mais volta a esta situação.
O pensamento moderno, tendo por base a filosofia
iluminista burguesa e a teoria econômica a ela vinculada e praticada, realizou
uma grande façanha, ao vender o contexto da forma social capitalista, antes
totalmente inexistente, como uma lei natural da convivência humana. Este êxito
contou com uma destacada contribuição da crítica imanente ao capitalismo.
Enquanto o capitalismo tinha horizontes pela frente, ficou fácil projetar para
toda a história da humanidade a necessidade das relações sociais capitalistas.
Mas, agora, a crise mundial atual escancara os limites do sistema. E a teoria
imanente ao capitalismo esvai-se junto com ele. Daí só pode advir uma razão, a
razão que quer desesperadamente justificar a administração da crise.
O pensamento pós-moderno constitui a crítica social
fragmentada no estado terminal do sistema e se coloca contra toda teoria que
examina o conjunto da sociedade. Trata-se de uma reflexão teórica que cada vez
mais se fragmenta porque a dinâmica social a ela subjacente extinguiu-se. As
gerações pós-modernas, portanto, já não compreendem os conceitos de reflexão.
Elas são o que são e mais nada. São perfeitamente idênticas a seus atos banais,
quanto mais absurdos forem estes atos.
O pensamento da crítica radical entende a teoria como
crítica categorial ao capitalismo, às suas raízes, como crítica à
irracionalidade do moderno sistema de produção de mercadorias, ou seja, ela
repudia as classificações ontológicas básicas do capitalismo (trabalho, valor,
dissociação, mercadoria, dinheiro, mercado, Estado, nação, política,
democracia, etc.). Ela examina o modo de produção capitalista fundamentalmente
em suas formas político-econômicas elementares, que abrangem todos os grupos,
classes e camadas sociais que formam o sistema coletivo de referência dos
conflitos sociais intercapitalistas.
A HORA DA EMANCIPAÇÃO HUMANA
É inegável que anteriormente não foi possível a
formação de um movimento que fosse capaz de eliminar o capitalismo e,
conseqüentemente, o Estado, a política, o mercado, o dinheiro, a mercadoria e
suas conseqüências. Não foi possível a formação de atores que forjassem a
história da emancipação humana. As experiências revolucionárias do século
passado demonstram isto cabalmente. A ausência desse movimento constitui,
portanto, a maior vitória do capitalismo.
Isso porque, entre outras razões, a teoria que
fundamentava a luta de quem tencionava acabar com o capitalismo, cuja
fundamentação residia na história da luta de classes, não dimensionou a
compreensão da crítica radical de que os trabalhadores foram criados pelo
valor. Por isso, foram transformados em comparsas da política e do capital e
não dirigentes das suas próprias vidas, vividas e projetadas. Afinal, toda criatura
tem dificuldade para superar o seu criador, de substituir o amor da
servidão pelo desejo da liberdade. A crítica radical, cuja fundamentação
reside na história das relações fetichistas,
elimina esta grave insuficiência teórica. Nossa arma é a crítica
radical do valor- dissociação que restabelece a identidade, no pensamento
e na ação, entre forma de existir e forma de pensar o até aqui
impensável.
Agora, poderemos adentrar no labirinto atual
guiando-nos com o fio de Ariadne da crítica radical. Agora, poderemos superar
de vez este sistema de horror e construir a nossa emancipação do capitalismo.
Portanto, o aspecto central da práxis emancipatória tem que ser a superação do
capitalismo e não a administração da sua crise. Basta de espetáculo de fim do
mundo, pelo fim do mundo do espetáculo!
O colapso da modernização deixa claro que é impossível
viver nesta sociedade sem uma transformação emancipatória. A ciência e a arte
se deparam com este desafio. Na medida que vem à tona o caráter agudo das
contradições (éticas, sociais, ambientais, filosóficas, artísticas, culturais,
históricas, econômicas, científicas etc.) o saber científico e sua aplicação
passam a enfrentar uma opinião cada vez mais expressiva para que a ciência não
continue como um mundo à parte, ao mesmo tempo fonte de fascínio e angústia,
mas coloque suas descobertas a serviço da emancipação. Situação ainda mais
desafiadora enfrenta a arte em geral. Pois a estagnação e a falta de
perspectiva da arte moderna correspondem à estagnação e à falta de perspectivas
da sociedade da mercadoria. A glória da primeira passou juntamente com a glória
da segunda. Assim, a humanidade só poderá ter futuro se caminhar para além do
sistema produtor de mercadorias. A crítica radical encara o obstáculo que tem de
ultrapassar. Portanto, uma subversão inédita ronda o mundo – a subversão da
crítica radical.
A SUPERAÇÃO DO SUJEITO E DA DISSOCIAÇÃO SEXUAL
Essa subversão é inédita porque dimensiona que a
crise da sociedade atual é resultado de uma longa história patriarcal e
cristã–ocidental da socialização pelo valor e da dissociação entre os sexos.
Para essa história contribuiu decisivamente o homem branco e ocidental. Para
que a racionalidade do homem moderno pudesse impor-se na esteira do legado
antigo e para além dele, era necessário “eliminar” a mulher e tudo o que ela
representava. Mas não se tratava apenas do fato dos homens expropriarem
brutalmente a ciência medicinal empírica das mulheres; antes o que estava em
jogo era um projeto fundamentalmente diverso de relacionamento com a natureza.
Agora, essa sociedade apresenta um tipo de crise que
põe em cheque sua identidade sexual. Por isso, a superação da socialização pelo
valor exige também a superação da sua identidade masculina. Em razão disso,
toda tentativa de estender o véu da neutralidade sexual sobre a crise do valor
está condenada ao fracasso.
Pela primeira vez na história da humanidade a
problemática global da sociedade em crise encontra sua expressão na questão
feminina. Superar o patriarcado, hoje, é superar a forma fetichista da
mercadoria. Pois aqui reside o fundamento da dissociação patriarcal e a
convocação para uma construção histórica para além do fetichismo da mercadoria
e de suas atribuições sexuais.
A origem deste homem branco e ocidental, como vimos
anteriormente, vem da economia política das armas de fogo nos primórdios da
modernidade e do potencial destrutivo destas; mas sua constituição e forma de
reflexão teórica consciente apenas podem ser encontradas no iluminismo. Por
causa disso, a crítica radical do valor e da dissociação, a crítica do sujeito
e a crítica do iluminismo constituem um todo indivisível. Afinal, a construção
histórica do iluminismo concorreu para a constituição da forma do sujeito
moderno, capitalista, masculino e permeada pela ideologia do valor e da lógica
da dissociação – um sujeito destrutivo.
A forma do sujeito não é outra coisa senão esse modus
geral da relação do valor moderno e capitalista, a forma geral de pensar e agir
da socialização do valor. Trata-se aqui, por um lado, dessa forma que se
apresenta aos indivíduos como totalidade fetichista do sujeito
automático objetivado. Mas esta forma também é, simultaneamente, a dos
portadores (as) das ações individuais e institucionais; e, enquanto tal, ela
constitui, num sentido mais restrito, a forma do sujeito ou a forma sujeito.
A sociedade do valor e da dissociação representa em si
um programa de tábua rasa. Ela constitui a negação brutal de todo o mundo
sensível e social. Emancipação, portanto, significa a negação da negação do
mundo contida na própria forma sujeito. A subjetividade negativa contra
o próprio sujeito deve ser entendida como uma superação transformadora do
sujeito. Uma definição claramente negativa e transformadora da formação do
sujeito contra o sujeito. Sujeito, mas apenas para abolir o sujeito. Portanto,
um contra-sujeito ronda o mundo – o sujeito da desfetichização!
POR UM MOVIMENTO SOCIAL TRANSNACIONAL EMANCIPATÓRIO
Para a subversão da crítica radical basta aproveitarmos
esta única e admirável conjunção histórica que passou a existir na trajetória
da humanidade. Trata-se de uma conjunção que, de um lado, faz com que a crise
atual apresente os limites do sistema capitalista, num momento em que uma
transformação social profunda pode ser realizada. Do outro lado, passamos a
contar com uma formulação teórica que dá conta desta transformação
emancipatória.
Portanto, não deveríamos perder esta rara oportunidade
histórica. Afinal, a cega utilização dos meios materiais existentes levou a
sociedade a um funcionamento absurdo, e no entanto, nos possibilitou os meios
materiais para uma organização superior do mundo que alcance a emancipação
humana. Com a emancipação, deixaremos de viver sob o império da barbárie, do
terror e da ameaça de aniquilamento total da humanidade e do planeta como
indicam os acontecimentos de 11 de setembro e seus desdobramentos.
Analisando as experiências passadas e a nossa própria experiência
(afinal, não foram poucas as lutas que fizemos) percebemos que a práxis
emancipatória está em gestação. Uma gestação da revolta que exige uma
prática coerente. Que recuse encontrar um lugar confortável na alienação
geral, na busca de migalhas num mundo degradante. Uma prática que enfrente a
crise atual da sociedade capitalista considerando que essa sociedade ameaça
destruir o planeta, e portanto, ameaça a todos nós, ficando cada vez mais
afetados o solo, a água, a atmosfera e os alimentos que se tornam
transgênicos. Uma prática que adote formas de luta cuja compreensão,
organização e atuação sejam baseadas na ação direta das pessoas, para que
possamos nos forjar enquanto visão teórica e prática da totalidade. Uma prática
que não seja de luta pela distribuição no interior do sistema, mas
iniciativas que visem a superação do capitalismo. Uma prática que
questione tudo, as nossas relações e os objetivos da transformação
da sociedade e da natureza. Uma prática em que nossa recusa da política afirme
a práxis transformadora para construir a felicidade humana, abolindo no nosso
meio tudo o que tende a reproduzir a alienação. Uma prática que seja uma
declaração de guerra à irracionalidade reinante. Uma prática que faça parte de
um projeto que visa a uma existência rica e apaixonante, oposta à contemplação
passiva, e que quer abolir tudo o que, atualmente, torna impossível tal vida.
Uma prática da qual possa se originar um radical e novo movimento social
contestatório: o movimento da emancipação. Uma práxis que exija uma combinação
quase que perfeita entre conscientização e sua atuação correspondente. Pois
nosso tempo histórico indica que estamos confrontados com a decadência do
capitalismo mas não ainda com o seu desaparecimento.
Para alcançar a superação desse sistema torna-se
indispensável construirmos um movimento social totalmente novo. Que contenha
não só uma crítica teórica radical, mas também, uma atividade prática radical.
Um movimento que contribua para o deslanchar de um novo processo histórico.
É evidente que não se trata de um movimento de caráter
local, regional ou nacional, mas de um movimento social transnacional
emancipatório. Um movimento, portanto, que enfrente e supere o patriarcado, o
racismo e a sociedade produtora de mercadorias com seu fetichismo e sujeito. É
hora de darmos esse passo à frente. Um passo para pensar e construir o processo
emancipatório mundial, compreendendo que uma ofensiva de transformação social
dessa envergadura só poderá se realizar se houver uma concentração de esforços.
Críticos(as) radicais de todo mundo, uni-vos!
É compreensível que os poderes da nossa cidade, estado,
país e mundo nos considerem loucos porque queremos pôr fim à pré-história da
humanidade. Mas, nada temos a perder senão a catástrofe para a qual eles nos
conduzem. Temos a ganhar a Terra da emancipação humana.
A FETICHIZAÇÃO DO MUNDO, O MUNDO
DA DESFETICHIZAÇÃO
Como vimos, através de nossa análise, o capitalismo só
surgiu, se desenvolveu, superou suas crises e hoje, na sua decadência, balança
mas não cai porque estão intactas suas formas sociais categoriais básicas.
Elas resistem e permanecem há séculos gozando de uma
perenidade de causar espanto aos seus novos coveiros. E, ainda hoje, são
consideradas como axiomas implícitos, um pano de fundo tácito que é proibido
questionar. Criticá-las é como se o mundo viesse abaixo por causa dessas
críticas. Ao contrário, é exatamente por falta da crítica teórica e prática a
essas categorias que o mundo está vindo abaixo. Se isto persistir, persistirá o
capitalismo, persistirá a barbárie capitalista.
Se as categorias fundantes do capitalismo (valor,
trabalho, dinheiro, mercadoria, mercado, Estado, política, nação, democracia,
etc.) continuarem existindo, deixará de existir o ser humano, a natureza e o
planeta Terra. Uma conclusão realista diante das catástrofes previsíveis, mas
de dimensões imprevisíveis que se anunciam!
O conceito central que representa a crítica radical
dessas categorias é o conceito de fetichismo. O fetichismo não é só uma
representação inversa da realidade, mas uma inversão da própria realidade.Como
tal, está presente nas próprias bases da sociedade capitalista e infiltra-se em
todos os seus aspectos. Afinal, a sociedade da mercadoria é a primeira
sociedade em que a relação social torna-se abstrata e essa abstração torna-se
realidade. Uma realidade que expressa as relações entre as pessoas como
relações entre as coisas e das coisas. Isso se torna cristalino na medida em que
uma das contradições fundamentais da formação social capitalista é a
contradição entre o abstrato e o concreto, que se expressa no valor de uso como
contrário do valor, no trabalho concreto como contrário do trabalho abstrato e
no trabalho privado como contrário do trabalho social. Com a crítica radical do
fetichismo desnudamos, portanto, esta aparente racionalidade da modernidade
capitalista. Percebemos que ela representa a racionalidade interior de um
sistema irracional, louco, absurdo e objetivado.
Esta irracionalidade evidencia-se na autonomização da
economia, na fetichização do trabalho, valor, dinheiro, etc, que se opõem aos
seres humanos, à sua própria sociabilidade, enquanto um poder alheio e externo.
Com a crítica radical do fetichismo nos damos conta que o verdadeiro escândalo
consiste exatamente em que essa autonomização moderna, horrorosa,
fantasmagórica, destruidora tomou a forma de obviedade axiomática.Uma obviedade
que para se encontrar semelhança somente recorrendo-se à região nebulosa da crença.
Na religião os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria. São
verdadeiras figuras autônomas que mantêm relações entre si e os seres humanos.
É o que ocorre com os produtos da mão humana, no mundo das mercadorias.
A crítica radical do fetichismo nos permite compreender
que ele nos acompanha desde os primórdios da humanidade. Por causa disso, a
nossa história é a história das relações fetichistas. Vale dizer, não só a
história contemporânea. Por mais diferentes que as relações sociais tenham sido
na história das sociedades até aqui existentes, uma conclusão se impõe: todas
elas foram dirigidas por meios fetichistas. Nunca existiram, portanto,
sociedades autoconscientes que pudessem decidir livremente sobre o emprego de
suas possibilidades. O moderno sistema de produção de mercadorias representa,
apenas, a última forma social da dinâmica cega do fetichismo.
Com isso, o mundo capitalista passa, a partir de agora,
a ser dimensionado como uma etapa passageira na história da humanidade. E a consangüinidade,
o totemismo, a propriedade do solo e o valor passam a ser considerados como
etapas mais longas do processo através do qual o ser humano se despregou da
natureza, tornando-se um ser relativamente consciente em relação à primeira
natureza, mas não ainda em relação à segunda natureza, que é a sua própria
conexão social criada por ele mesmo.
Com tudo isso, evidencia-se a resposta para a
verdadeira dimensão da crise mundial no século XXI. Trata-se da superação não
só da história capitalista, mas da história existente até agora. Não só a era
da Guerra Fria chegou ao fim. Chegou ao fim também a história mundial da
modernização. Não apenas essa história especificamente moderna, mas a história
mundial das relações de fetiche em geral.
A CRÍTICA RADICAL E A NOVA ÉPOCA
Em razão de tudo isso, a subversão da crítica radical
decidiu fazer deste tempo o seu tempo: um tempo para além da sociedade
produtora de mercadorias.
Esse projeto radical é o único que pode abrir perspectivas
nas lutas das idéias e práticas sociais da atualidade. Sua razão de ser reside
no fato de que a subversão da crítica radical é a expressão concentrada de uma
transformação histórica ansiada por cada vez mais gente.
O que tem nela de radicalmente novo corresponde
precisamente às novas tendências históricas que configuram uma crise de novo
tipo da sociedade moderna. Uma crise que expõe, pela primeira vez, as
fronteiras do sistema capitalista.
Captar essas tendências foi o primeiro sinal antecipado
do triunfo da subversão da crítica radical do fetichismo. Seu segundo sinal
será a superação revolucionária desta sociedade espetacular e sua substituição
por uma sociedade humanamente diversa e desfetichizada, socialmente igual e
criativa, ecologicamente exuberante e bela, prazerosa no ócio produtivo e
completamente livre.
Anti-fetichistas de todo o
mundo, uni-vos!
“Por mais críticas que sejam a
situação e as circunstâncias, não aceite o desespero; nas ocasiões em que tudo
leva ao medo, não se deve ter medo de nada;quando se está rodeado de perigos,
não se deve temer perigo algum; quando
já se esgotaram os recursos, deve-se contar com todos os recursos;
quando se é surpreendido, deve-se surpreender o próprio inimigo”.
Sun Tsé (A Arte da Guerra)
Citado por Guy Debord
em Comentários
sobre a Sociedade
do Espétaculo
(Contraponto)
PEQUENO
GLOSSÁRIO
Fetichismo
Conceito
que se origina na crítica da religião do século XVIII, sendo considerado uma
característica essencial das religiões "primitivas". Fundamentava-se
nas observações de colonizadores portugueses na África e servia para designar
uma crença que imagina em objetos mortos uma alma e forças sobrenaturais. Marx
referiu esse conceito ironicamente à moderna sociedade produtora de
mercadorias, que se sujeita a um fetichismo análogo na forma do dinheiro e de
seu movimento de exploração em empresas. Assim, o conceito tornou-se
corriqueiro na critica da lógica da mercadoria, apesar de ser, a rigor,
demasiadamente geral. Pois no fundo, Marx não quer ressaltar, apenas, o fato de
que a objetos em geral podem ser atribuídas forças sobrenaturais que nada tem a
ver com sua existência natural, mas sim caracterizar um estado social em que a
sociedade não tem consciência de si mesma, não penetra nem organiza diretamente
na prática sua própria forma de socialização, mas sim tem que
"representá-la" simbolicamente em um objeto externo. Esse objeto (que
também pode ser animado) assume então um significado sobrenatural que não é
idêntico a sua forma externa, mas que aparece através desta. Em virtude desse
significado adquire ele, apesar de sua banalidade material, poder sobre todos
os membros dessa sociedade.
Trabalho abstrato
À
primeira vista, o trabalho (concreto e abstrato) parece sempre ser concreto,
pensando-se em determinada atividade útil e no caso do substantivo abstrato, na
generalização dessa atividade. Mas o trabalho possibilita que uma abstração
real dirija a sociedade. O abstrato, nascido da mente, aparece frente a essa
mente, na forma de dinheiro, como fenômeno real externo. O dinheiro, a
encarnação do trabalho abstrato, não deixa transparecer nenhum conteúdo
concreto; apresenta sempre a mesma qualidade, sendo um fenômeno insensível com
forma sensível, um paradoxo. Ali onde o dinheiro, como imperativo social de
fazer mais dinheiro, passa a trazer em si sua própria finalidade, a abstração
real estende-se também ao próprio processo de trabalho material. Os homens,
antes de qualquer determinação concreta e substancial, transformam-se em mônadas
do dispêndio de força de trabalho abstrata. Em agregados altamente
diferenciados cooperam de forma diretamente social, porém no grau mais alto de
indiferença e alienação recíprocas. Podem satisfazer suas necessidades apenas
indireta e posteriormente, mediante o processo abstrato de automovimento do
dinheiro.
Valor
Tanto
etimologicamente quanto na prática, o conceito de valor parece designar o
"bom" como tal, o desejável. Apesar da acentuação diferente,
confundem-se como sinônimos o “valor econômico” e os "valores" éticos
e culturais. Não é à toa que o fundador da economia política clássica, Adam
Smith, atuava paralelamente como filósofo da moral. Mas na conceituação
totalmente inversa de Marx, o valor é, precisamente o contrário, o negativo
central da sociedade da mercadoria. Nela é objetivado o trabalho abstrato, a
forma social fetichista dos produtos. A expressão de um produto "ter"
um chamado valor, tem para ele um significado duplo. Primeiro, enquanto são
valores econômicos, extingue-se a qualidade sensível dos produtos, não passando
eles de representantes materiais de trabalho que apenas como tais podem ser
transformados na forma de encarnação do dinheiro. Em segundo lugar, porém,
revela-se na forma-valor abstrata dos produtos, que se expressa pelo preço em
dinheiro, o absurdo social de que o processo vivo da apropriação da natureza
pelo homem e das relações sociais por ela medidas assumem a forma de
propriedades de objetos mortos. A produção produz, portanto, não apenas o
objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto. A atividade viva
dos homens é absorvida, por assim dizer, por seus próprios produtos, que por
esse mecanismo absurdo são promovidas a quase-sujeitos da sociedade, enquanto
os homens, seus criadores, são degradados a meros acessórios. No automovimento
do dinheiro conclui-se essa inversão.
O
marxismo dos epígonos, na sucessão dos clássicos burgueses e em contraste a
Marx, não se referia de forma negativa, mas sim de forma positiva à qualidade
dos produtos de valores fetichistas, do "bom" resultado do trabalho,
enquanto o conceito de objetivação foi reduzido a um mero fenômeno da
consciência. A crítica passa a enfocar exclusivamente a mais-valia, isto é, a
quantia "não paga" do valor produtivo, da qual é privado o
trabalhador. Dessa maneira, não se crítica a qualidade destrutiva da
socialização na forma-valor, mas sim apenas o mecanismo quantitativo de
distribuição que se encontra sobre essa base cegamente pressuposta.
CRITICA RADICAL
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