"A
GLOBALIZAÇÃO É APENAS UMA FUGA PARA FRENTE"
Em Lisboa para a apresentação do seu livro (As
Aventuras da Mercadoria) e para uma conferência na Universidade Nova, Anselm Jappe falou ao DN sobre a
"crise do capitalismo" e a necessidade de combater os perigos da
globalização, embora sem ceder, como outros, à "lógica do sistema".
Em As Aventuras da Mercadoria, revisita as ideias de Marx sobre a crítica do valor. Porquê
este regresso ao Marx mais económico e menos
político?
Nos últimos anos, ouvimos muitas vezes dizer que o pensamento de Marx está
ultrapassado e que há muitas coisas que já não podemos explicar com o
pensamento de Marx. A verdade é que, se uma análise simplesmente sociológica já
não funciona, o Marx que determinou as categorias de base do capitalismo - a
lógica da mercadoria, do trabalho abstracto, do
dinheiro - ganhou actualidade, porque essa lógica que
então nascia ampliou-se mais e mais.
Neste livro resume o trabalho de vários pensadores marxistas contemporâneos
que estavam dispersos e inacessíveis ao leitor comum.
O que eu fiz foi resumir o essencial do que dois ou três autores disseram,
acrescentando as minhas próprias considerações, fazendo depois algumas ligações
com autores mais antigos, como Lukács ou Rubin.
Reconheço uma dívida intelectual em relação a outros, mas a verdade é que não
somos mais do que uns dez autores, ao todo, a trabalhar nos últimos anos sobre
estes temas.
O seu livro defende que já estamos a viver a crise final do capitalismo. No
entanto, o que vemos nos países desenvolvidos é o contrário disso: uma
demonstração de força. Cada vez se consome mais, de forma mais rápida e com
estratégias comerciais mais agressivas. Considera que este paradigma do
"sucesso" económico é uma ilusão?
Podemos dizer que há alguns produtos, como os telemóveis
ou as viagens aéreas, que custam cada vez menos, devido aos avanços
tecnológicos, tornando-se acessíveis a um número maior de pessoas. Mas se
observarmos bem, em paralelo, temos o desemprego
sempre a subir. Há um sentimento generalizado de insegurança em relação ao
futuro. E se as pessoas consomem freneticamente, é porque têm a sensação de que
tudo é precário, de que tudo vai terminar de um dia para o outro.
É a ansiedade da "humanidade supérflua".
Exacto. E isto atinge não apenas os pobres, mas
também as classes médias. Durante muito tempo, pensou-se que mais depressa
morreríamos de tédio que de fome. A realidade está a encarregar-se de desmentir
essa profecia.
Mesmo assim, aparentemente a catástrofe final ainda não chegou...
Não se trata de um processo apocalíptico. Mas o certo é que o sistema está hoje
muito mais em crise do que nos anos 70: a produção verdadeira, a acumulação de
capital real, perdeu importância face à acumulação de capital fictício, nas
bolsas e na especulação imobiliária.
Há quem diga que a globalização foi a tábua de
salvação do capitalismo.
Para mim é apenas uma fuga para a frente.
A crise do capitalismo será sempre uma crise global. Isso não dificulta a
luta contra o sistema?
É verdade. Mas isso não quer dizer que a solução passe pela reforma do sistema
que existe. Pelo contrário. Como dizia um colaborador da revista Krisis, a globalização é como um barco que já não
tem combustível e que continua a navegar apenas porque vai queimando, a pouco e
pouco, as tábuas do convés. É evidente que as saídas se
tornaram mais difíceis. Temos pela frente uma tarefa ciclópica,
de grande fôlego, que requer tempo e não passa apenas pelo próximo slogan
para a manifestação de amanhã.
O seu livro tem mais de 280 páginas, mas só quatro dessas páginas é que
procuram esboçar uma alternativa. Não lhe parece pouco?
Eu não quis construir uma alternativa mas apenas
lembrar, com a citação final de Aristóteles sobre a "vida boa", que
sempre houve na História pessoas com vontade de construir uma existência que
não esteja completamente submetida à economia.
Não deixa de ser irónico que termine um livro sobre o
presente com a frase de alguém que viveu há mais de dois mil anos.
O que eu quis foi mostrar que se queremos pensar de forma diferente, não temos
que inventar uma utopia e partir do zero.