DEMOCRACIA, QUE ARAPUCA!
Anselm Jappe
"Nunca um
candidato especulou de modo mais monótono sobre a monotonia das massas",
disse Marx referindo-se a Napoleão III. Inúmeros habitantes da Itália ou do
Brasil devem ter tido a mesma sensação quando viram chegar ao poder um
Berlusconi ou um Collor de Mello. Poder-se-ia, então, ter a impressão de que a
"democracia", duramente conquistada, tivesse sido anulada de repente,
dado que o uso "despolitizante" da mídia e
da indústria do entretenimento permite aos poderosos fazerem eleger pelo povo,
"democraticamente", quem bem entenderem. A diferença entre Napoleão
III e seus êmulos modernos (1) é que estes construíram sua fortuna política
sobre o uso desabusado da mídia e da notoriedade que a televisão confere.
Fizeram-no com tal sucesso, que seus adversários passaram a reivindicar em alto
e bom som uma partilha equitativa de tais vantagens(2),
ao mesmo tempo em que, virtuosamente, declaram que não fica bem vender um homem
político como se vende um detergente. A redução da política a "mero
espetáculo" é pois, geralmente, criticada um
pouco por toda parte e, sobretudo, por quem se vê, momentaneamente, em
desvantagem no terreno do confronto. Quem quer aparecer como crítico sério e
preocupado com os destinos da sociedade reclama que a "política", a
verdadeira, séria, com p maiúsculo, seja recolocada em seu trono.
Nesse empreendimento
pode-se, certamente, recorrer a alguém que até há
pouco não "era mal conhecido e, sim, conhecido como o mal" (Asger Jorn), isto é, Guy Debord, cabeça pensante da Internacional Situacionista
(1957 -1972) e autor de A sociedade do Espetáculo (1967) (3). Após ter
sido cultuado durante muitos anos nos ambientes que se pretendiam
revolucionários, Debord goza, há
algum tempo, de uma ampla reputação na própria "sociedade do
espetáculo" que combateu ao longo de toda a sua vida, finda em 1994. De
fato, e antes de tantos outros, foi Debord quem disse
que "tudo o que era diretamente vivido distanciou-se numa
representação" (Sde, § 1) e que o espetáculo, a principal
produção da sociedade atual" (Sde, § 15), é
"a afirmação da aparência e a afirmação de toda vida humana, isto
é, social, como simples aparência" (Sde, § 10),
porque, "quando o mundo real se transforma em simples imagens, as simples
imagens tornam-se seres reais" (SE, § 18). Cada um,
escreve Debord em 1988, nos Comentários
sobre a sociedade do espetáculo (4), conhece o mundo apenas pela mediação
das imagens escolhidas por outros que não o fazem desinteressadamente. " A
imagem construída e escolhida por outra pessoa tornou-se a principal ligação do
indivíduo com o mundo que, antes, ele olhava por si mesmo de cada lugar onde
pudesse ir... O fluxo das imagens carrega tudo e,
analogamente, é outra pessoa que comanda a seu bel-prazer essa síntese
simplificada do mundo sensível".
Na verdade, Debord não coloca no centro de sua análise apenas a
televisão como suposta fonte de todos os males, pois, ao mesmo tempo, sublinha
que "o espetáculo não pode ser compreendido como o abuso de um mundo da
visão, o produto das técnicas de difusão maciça das imagens" (Sde, § 5) e que, "se o espetáculo, tomado sob o
aspecto restrito dos 'meios de comunicação de massa', que são sua manifestação
superficial mais opressiva, dá a impressão de invadir a sociedade como uma
simples instrumentação, tal instrumentação nada tem de neutra; é a própria
instrumentação que convém ao automovimento total da
sociedade" (Sde, § 24 ).
Como veremos, o espetáculo não é outra coisa senão a
forma assumida pelo capitalismo na época em que a economia atingiu a plena
independência irresponsável. Mas pouco importa a jornalistas ou a pensadores em
falta de citações: tirada de seu contexto, uma pequena frase sobre o
"espetáculo" bem pode servir como ornamento pseudocrítico
para discursos mantidos, exatamente, até na própria televisão (5). Além disso,
desse modo se contribui para aquela recuperação banalizadora
de que, atualmente, é objeto a teoria de Debord,
depois que trinta anos de ostracismo não conseguiram fazer esquecê-la (6).
A nostalgia da
"política verdadeira" - considerada idêntica ao "confronto
democrático" - que precisaria ser salva da demagogia dos que manipulam os
cérebros inundando-os com imagens transmitidas pela mídia, é conseqüência do
conceito muito positivo de "política" que sempre caracterizou quase
toda a esquerda. Mas Debord não propõe defender
completamente a política, nem mesmo a "revolucionária", da distorção
e da superficialidade introduzidas pelo "espetáculo"; ao contrário,
mostra que tanto a política quanto o espetáculo são resultados do fetichismo da
mercadoria e que ambos entram em crise quando entra em crise toda a sociedade
baseada no fetichismo da mercadoria. Tal caracterização da política enquanto
categoria fetichista contradistingue as poucas
teorias atuais que não abandonaram a categoria de totalidade social como, ao
contrário, fizeram não só o pensamento burguês mas
também quase todas as correntes que nasceram das idéias de Marx e que retomaram
a alguma variante do pensamento positivista. Isso, que hoje reina de modo
incontestado, costuma absolutizar e ontologizar os diversos campos em que se apresenta
subdividido o espaço empírico da sociedade, declarando "metafísica" e
"superada" cada tentativa de encontrar seu princípio comum. "As
imagens", os "meios de comunicação" ou "a política"
aparecem como categorias que conservaram uma lógica própria. Reinterpretado sob
essa ótica, o conceito de espetáculo não parece se distinguir muito de algo
como a "midiologia" de Régis Debray (7) ou das afirmações de Jean Baudrillard, para
quem, de agora em diante, tudo é uma imagem que não reflete mais uma
"realidade". Mas, em Debord, a
"imagem" não é um fator circunscrito, separado da totalidade social.
"Espetáculo" é toda substituição do vivido e sua representação, toda
situação em que a contemplação passiva de uma idéia, de uma imagem - em sentido
amplo - substitui o viver na primeira pessoa. O stalinismo, por exemplo, também
era um espetáculo; a União Soviética e os partidos comunistas do Ocidente
ofereciam uma simples imagem da revolução. Enquanto existia um
proletariado inquieto, garantiam - no interesse comum
de todos os proprietários do mundo, a Leste como a Oeste - que a identificação
com as formas falsas da revolução (ou com as pretensas revoluções muito
distantes, no Terceiro Mundo) impedisse toda verdadeira actividade
crítica no imediato. "Quem fica sempre olhando, para saber o que vem
depois, nunca age; assim deve ser o bom espectador" (8). Tudo o que falta
à vida real se consuma sob a forma de ilusões compensatórias,
fazendo esquecer, assim, a escandalosa pobreza da vida cotidiana, individual,
real- pobreza mais escandalosa ainda quando confrontada com as
possibilidades criadas pelo desenvolvimento das forças produtivas. O orgulho,
para um ator, pode ser um mecanismo espetacular do mesmo modo que o culto a Che
Guevara, os integrismos e os nacionalismos, o esporte
ou o terrorismo, os sindicatos e os partidos. Enquanto a religião era a
projeção da potência humana no céu, onde levaria uma vida aparentemente
independente, o espetáculo é sua projeção sobre portadores terrestres
igualmente afastados do poder dos homens que não são reconhecidos pelas
próprias criaturas que geraram. O espetáculo é, então, a forma mais elevada da
alienação e, justamente, do fetichismo da mercadoria.
Contudo, o conceito
de espetáculo não representa uma simples teoria da "manipulação" ou
da "falsa consciência" que estavam em moda nos anos 60. O espetáculo
é algo muito diferente de uma banal propaganda que faz as coisas parecerem distintas do que realmente são (como poderia
acreditar, por exemplo, a ingenuidade interessada de Louis Althusser). A
redução do real à imagem, a degradação do ser a ter e, depois, a aparecer (Sde, § 17) são apenas o aspecto mais visível da tendência
social à "abstração" que constitui o "modo de ser concreto"
do espetáculo (Sde, § 29). Debord
- que deve muito à obra História e consciência de classe do jovem Lukács - aponta, no segundo capítulo de A sociedade do
espetáculo, a origem da abstração na forma-mercadoria (ou forma-valor).
Esta é a "forma-célula" (Marx) de toda a sociedade burguesa e não só
de sua economia. As implicações do conceito de forma-valor - do qual, também em
Debord, frequentemente se
encontram apenas indícios, embora preciosos - não incidem tanto sobre considerações
relativas à economia entendida como esfera em si (que talvez, enquanto
"base", determinasse a "supra-estrutura", como ensina o
marxismo positivista), quanto, ao contrário, sobre o conceito de "fenômeno
social total" (Marcel Mauss). A própria formação
da "economia" e da "política" como esferas separadas,
desconhecidas nos períodos pré-capitalistas, é uma conseqüência da
forma-mercadoria. Pois o pensamento burguês ontologiza,
de modo abusivo, essas esferas. O valor de troca, como se sabe, é determinado pela
quantidade de trabalho abstrato contido na mercadoria, anulando todas as
diferenças qualitativas dos trabalhos e dos produtos. Este processo estende seu
efeito de abstração a toda a vida social: nada mais
conta como ser concreto e, sim, como quantidade de dinheiro. Só um longo hábito
faz, assim, com que a consciência comum não perceba mais a loucura incluída no
fato de que, a título de exemplo, a poluição atmosférica "custa"
menos que as perdas que uma redução do tráfego de veículos infligiria à indústria
automobilística. Muito antes de qualquer juízo moral, a loucura aqui já reside
no fato de considerar duas coisas totalmente distintas - a saúde dos indivíduos
e os interesses da indústria - por um único parâmetro quantitativo, além do
mais totalmente abstrato, isto é, o dinheiro. Observa-se, então, a veracidade
da afirmação marxiana segundo a qual "o valor de
uso torna-se forma fenomênica de seu contrário, do valor" (9). Aqui a
abstração se tornou real. De fato, é evidente - ainda que Debord não faça explicitamente essa distinção - que não se
trata da abstração no pensamento, da abstração filosófica, mas da
"abstração real" (Sohn-Rethel). Não se
trata do "falso" reflexo da realidade nas mentes humanas, mas de uma
realidade "falsa", porque privada de suas qualidades concretas e em
que as abstrações (por exemplo, o trabalho abstrato, transformado em valor e,
depois, em dinheiro) tornaram-se realidades materiais - por mais que seja
difícil, para a consciência positivista, conceber que uma coisa possa ser, ao mesmo tempo, uma realidade e uma abstração. A
abstração não é um mau hábito do pensamento que se cura substituindo as idéias
falsas pelas verdadeiras, tampouco mudando as circunstâncias que geram tais
idéias falsas, mas somente abolindo a real submissão do conteúdo
concreto à forma abstrata. A predominância da imagem não é senão a expressão
mais alta de tal abstração; como a técnica e a ciência, também a imagem é
determinada pela socialização operada pela forma-mercadoria. O espetáculo é,
pois, o processo em que as imagens se reconstituem num conjunto dotado - pelo
menos aparentemente - da coerência que a realidade perdeu há muito tempo. A
mercadoria reduziu tudo a simples quantidade; a
qualidade existe somente como imagem apresentada a admiração aos espectadores.
Portanto, se para Debord o espetáculo não reconduz a uma lógica imanente
própria da "imagem", a "política" não é nem mesmo o pólo
"positivo", o pólo da intervenção consciente em condição de regular e
limitar o pólo negativo, isto é, o reino da economia autonomizada
de que o espetáculo é a tradução visível. Examinando os textos situacionistas
dos anos 60, quando as ideologias e a ênfase sobre a "política"
tinham chegado ao ápice, observa-se, antes de tudo, que os situacionistas
evitam cuidadosamente chamar de "política" a própria atividade.
Declaram, com frequência, rejeitar a "velha
política especializada" e a "política entendida no sentido
tradicional ". Em A sociedade do espetáculo, Debord acredita reconhecer os preâmbulos de um movimento
revolucionário de tipo novo, baseado na "recusa da antiga política
especializada, da arte e da vida quotidiana" (Sde,
§ 115). Na revista Internationale Situationniste, em 1964, fala-se: "As palavras
'movimento político' definem hoje a atividade especializada dos chefes dos
grupos e partidos que obtêm da passividade organizada
de seus militantes a força opressora de seu poder futuro. A I. S. não quer ter
nada em comum com o poder hierarquizado, não importa sob que forma se
apresente. A I. S., portanto, não é nem um movimento político nem uma
sociologia da mistificação política". Quer, ao contrário, contribuir para
um novo movimento proletário de emancipação: "Fundada no princípio da
espontaneidade das massas, tal atividade é incontestavelmente política, a menos
que se negue esta qualidade aos próprios agitadores" (10). À questão
"você participa ou não da política?", os situacionistas respondem:
"Sim, mas apenas de uma - trabalhamos... pela união e pela organização
teórica e prática de um novo movimento revolucionário" para "ir além
das falhas da velha política especializada" (11). Propõem "novas
formas de ação contra a política e a arte" (12). Já no início, lembraram
que "a meta dos revolucionários não é outra senão a supressão da política
(o governo das pessoas que cede lugar à administração das coisas" (13) . Evidentemente, tal recusa da política não significa,
absolutamente, uma renúncia à atividade, à "práxis", nem deve ser
entendida no sentido do velho anarco-sindicalismo que
rejeitava toda ação política em favor apenas da luta sindical. Enquanto
atividade separada dos outros setores da vida social e da existência cotidiana,
e enquanto contemplação das ações dos outros em vez de um agir próprio, a
política, para os situacionistas, representa uma alienação na mesma proporção
que a arte. Um ponto central do programa situacionista era a tentativa de
"superar" a arte, no sentido de realizá-la e suprimi-la ao mesmo
tempo, em favor da "revolução da vida cotidiana" e da "criação
contínua de situações". Tal crítica situacionista da política como
espetáculo encontrou, depois, durante os anos 70, muita repercussão nos
movimentos sociais que transformavam vários aspectos da vida social, até então
considerados "neutros" ou "privados" - habitação,
transportes, meio ambiente, estruturas familiares etc. - em espaços de
antagonismo social; isto continuou de forma domesticada nos anos 80 (movimentos
alternativos, ecologismo etc.).
O "fim da
política", nos anos 60, era entendido pelos situacionistas como recusa da
política, como sua desejada abolição ainda por se realizar através de uma
intervenção externa, revolucionária. Ao invés disso, pouco depois começou o
processo de autodestruição da política e que se tornou visível sobretudo nos últimos anos. Consequentemente,
novas correntes de crítica social tornaram bastante mais explícito o fato de
pôr em discussão a política enquanto tal, em termos que procuramos resumir aqui
(14). Assim como os situacionistas constataram que a arte não precisava mais
ser destruída mas já estava destruída - e por isso
devia ser superada em uma forma superior -, também se pode, atualmente,
constatar que a política já está destruída. Esta convergência no esforço
para abater a vaca sagrada que é a "política "
demonstra, por outro lado, que as diversas críticas fundamentais da sociedade
da mercadoria, ainda que tenham surgido em contextos e épocas distintos e
tenham pontos de partida diferentes, estão destinadas a se encontrar.
A
"política" não é um meio neutro, uma forma existente em cada
sociedade e susceptível de ser preenchida por qualquer conteúdo, mas é uma
forma específica em que se desenvolvem as relações entre os sujeitos de
mercado. Trata-se de uma forma indirecta de
socialização. Na sociedade baseada na produção de mercadorias, o elo social é
exterior aos homens, pois estes não se socializam imediatamente na produção
(15), mas apenas na troca que se desenvolve através da transformação de todo
produto da atividade social em uma determinada quantia de trabalho abstrato. A
democracia, evidentemente, é a forma mais completa de tal política porque
corresponde àquela liberdade formal que é constitutiva da troca capitalista
(diferentemente, por exemplo, do caso da servidão da gleba). A política é o
"outro lado" necessário da sociedade da mercadoria, sem o qual esta
se desagregaria imediatamente na anomia e na guerra
de todos contra todos. É um vínculo externo, separado de seus portadores,
alienado, que substitui o vínculo interno que, na sociedade pré-capitalista,
era produzido juntamente com a produção material. Além disso, o Estado moderno,
isto é, a política, assegura as infra-estruturas (transportes, educação,
pesquisa etc. ) que são cada vez mais amplas e sem as
quais a criação de valores não pode ocorrer, mas que, em si mesmas, não são
produtoras de valor e que, em cada caso, superam as capacidades de investimento
dos capitais isolados. O destino da política está preso à trajetória histórica
da economia da mercadoria.
A espetacularização
da política não é, absolutamente, sua saturação, mas é, ao contrário, o acabamento
de sua lógica histórica. O mesmo processo que levou ao que se apresenta como
uma invasão de imagens, isto é, a completa penetração da lógica do valor, da
abstração, em todos os setores da vida social, também tornou supérflua a
"política" com P maiúsculo. Porém não no sentido idílico de que agora
seria possível passar a uma simples "administração das coisas", mas
no sentido de que, progressivamente, tira-se o terreno em que se apoia a política. O contínuo aumento das despesas com
infra-estruturas, assim como o término do último boom capitalista - o
fordista - e a rápida diminuição, graças sobretudo à
revolução microeletrônica, do trabalho verdadeiramente "produtivo" no
sentido capitalista (isto é, produtivo de valor de troca, o que quer dizer
capaz de utilizar a força-trabalho segundo os padrões do mercado mundial)
comportam um esgotamento da substância de valor e portanto, de modo muito
banal, dos "fundos" disponíveis. Sem meios financeiros e por causa
disso, o Estado perde facilmente suas possibilidades de intervir nos processos
de reprodução. A decadência mundial da política enquanto instância reguladora
da vida social expressa-se de diferentes modos: como
rejeição da política e das ideologias por parte dos "cidadãos", como
perda de soberania por parte dos Estados nacionais, como redução neoliberalista das competências do Estado. A política tem
sido redimensionada para esse papel indispensável, mas subordinado, que a
caracteriza estruturalmente na sociedade da mercadoria, mesmo se, há algumas
décadas, as necessidades conexas à fase ascendente de tal sociedade (superação
das formas pré-capitalistas, integração de toda a população à lógica da
mercadoria) tenham podido, temporariamente, fazer com que o papel da política
parecesse maior. A "espetacularização" da
política, a substituição do argumento pelo spot publicitário e do
programa de governo pela tentativa de aparecer com a maior freqüência possível
na televisão, são apenas aspectos mais visíveis dessa mudança que marca a
época. A política não goza mais de nenhuma autonomia ou liberdade de decisão,
mas está reduzida à política econômica e a um só tipo de política econômica: o
esforço, muitas vezes desesperado, para manter a competitividade do próprio
país nos mercados mundiais. As diferenças entre as forças políticas se reduzem,
então, quase a zero; não se trata, pois, de uma degeneração
mas, sim, de algo inteiramente lógico, se o sorriso telegênico
de um aspirante a homem político vale mais que suas promessas, irrealizáveis
contudo.
O ininterrupto retroceder
da política diante das forças desencadeadas pelo mercado mundial e diante da
autodestruição da sociedade assim encaminhada, torna, é claro, completamente
inútil e ingênuo o misto de moralismo e de keynesianismo,
proposto continuamente pelo irmão inimigo do neoliberalismo, quer dizer, pelo
resto da esquerda. Esta, moderada ou "radical", continua a querer
impor de forma voluntarista, por meio da política, regras à sociedade da
mercadoria. No entanto, nunca soube compreendê-la ou combatê-la enquanto totalidade
social. A retirada do Estado de amplos setores da reprodução social não é fruto
da diabólica estratégia de um suposto mega-sujeito chamado "capital",
entendido como um círculo de pessoas capazes de ditarem leis à história, mas é
o resultado inevitável de um processo que a esquerda se recusa a enxergar: a
crise global de algo que ela não quer, absoluta- mente,
reconhecer como problema - o dinheiro e a mercadoria. Em vez disso, exatamente
a globalização e o neoliberalismo é que demonstraram que não se pode mais
modificar as categorias básicas da sociedade da mercadoria, visto que cada
medida política a expensas do capital num determinado país apenas o induz a
deslocar-se para outro lugar.
Entretanto, o triunfo
do neoliberalismo, aparentemente mais "realista" enquanto quer
libertar a "mão invisível" do mercado dos obstáculos da política, não
dura senão um breve momento histórico. É semelhante ao entusiasmo de quem se
inebria com a velocidade de um carro que, na verdade, está em queda livre num
despenhadeiro. A alternativa para a extinção gradual da política não é,
certamente, o automatismo do mercado. A reflexão sobre a política deve
tornar-se uma reflexão sobre o fim da política e sobre a forma de totalidade da
sociedade moderna, isto é, a forma-mercadoria. O fato de que constitua, para a
consciência burguesa, uma "forma a priori" aparentemente
natural e auto-evidente, nunca percebida conscientemente, não impede que ela
condicione toda a vida "política".
Os situacionistas é
que começaram a pôr a "política" em discussão, ainda que, no que se
refere a outros aspectos, tenham participado do clima de efervescência política
de 1968; por exemplo, da exaltação da "autogestão" e dos
"conselhos operários". Frequentemente, tal
temática tem sido uma ilusão pois, enquanto
continuarem a existir a economia da mercadoria e o dinheiro, também a mais
radical autogestão, mesmo que realmente livre de toda deformação burocrática,
obedecerá às mesmas lógicas às quais se deve conformar qualquer sujeito económico. É constitutivo dos sujeitos do pensamento
burguês acreditarem-se "livres" e fazerem
abstração de todas as coerções que derivam das leis das entidades fetichistas
que a sociedade criou sem saber e sem querer. O valor e sua expressão tangível,
o dinheiro, são formas a priori que estão acima de cada vontade
consciente dos sujeitos, a qual se expressa de uma forma já determinada - a
cujas leis é necessário, pois, conformar-se - isto é,
como exigência de dinheiro ou de poder político. A maior liberdade na esfera
política e a mais radical "democracia" são vazias quando não podem aportar outra coisa além da execução das leis cegas do
automovimento da economia. Tais leis, para dizer mais
uma vez, hoje não decorrem de necessidades iniludíveis que derivam da
"troca orgânica com a natureza", mas da deformação especial que a
forma-valor imprime às forças produtivas. Influenciar "politicamente"
os efeitos do trabalho abstrato e do dinheiro sem superar sua lógica de base
nunca foi possível estruturalmente; os esforços que houve nessa direcção foram apenas uma ação corretiva nos anos, já
passados, em que uma massa ainda crescente de valor permitia alguma medida redistributiva. Se, realmente, a sociedade fosse capaz de
ditar leis à sua economia em vez de as receber dela,
não se trataria mais de uma sociedade fetichista. Porém, se a economia da
mercadoria é retirada da vontade dos sujeitos, então ela é igualmente
inatingível pela forma política que pode assumir tal vontade. Os
situacionistas, pleiteando a abolição do dinheiro, do valor de troca, da
mercadoria e do Estado, seguiam uma linha de princípio muito além da ilusão politicista, focalizando o essencial do problema.
Debord distinguia, em 1967, duas formas de
espetáculo: o "espetáculo concentrado" dos regimes totalitários -
stalinismo, fascismo, regimes militares dos países "em via de
desenvolvimento" - onde cada um é obrigado a identificar-se com uma
ideologia imposta de modo policialesco, e o "espetáculo difuso" das
sociedades ocidentais, baseado em uma ampla escolha de mercadorias em que o
indivíduo é levado a ver sua felicidade. Nos Comentários, de 1988, Debord observa que a sucessiva evolução levou, no mundo
todo, ao predomínio de uma combinação desses dois tipos, o que chama de
"espetacular integrado". Este se baseia na vitória generalizada do
espetáculo difuso, mas sem desdenhar o aporte das técnicas autoritárias e manipuladoras desenvolvidas pelo espetáculo concentrado. O
espetacular integrado é ainda mais perfeito que seus predecessores, pois
invadiu toda a sociedade, remodelando-a segundo as próprias exigências e
destruindo até os últimos restos de realidade autônoma em seu interior, como
foram, um dia, o sindicalismo ou os jornais, as cidades ou os livros (16). O
espetáculo pode fazer os indivíduos, isolados e privados de qualquer acesso
independente ao mundo, acreditarem no que ele quiser, visto que não existe mais
possibilidade de verificação. Não havendo mais inimigos a temer, o espetáculo
integrado pode se desvencilhar dos modos de repressão muito dispendiosos e
permitir-se uma fachada de democracia. Mas enquanto a democracia burguesa
clássica dos tempos pré- espetaculares correspondia, em parte, efetivamente a
esse elemento de liberdade que afirmava ser, a democracia espetacular é, no
fundo, o pior totalitarismo. Ela "est une société parfaite pour être gouvernée;
et la
preuve, c'est que tous ceux qui
aspirent à gouverner veulent gouverner celle-là, par les mêmes procédés". Como não
pensar imediatamente, lendo essas páginas de Debord,
nas mudanças ocorridas nos últimos 15 anos, na América Latina? (17) Debord não se refere a elas explicitamente, mas suas teses
são confirmadas pelo modo como, não obstante a ausência de pressão popular
significativa, os poderes claramente ditatoriais na América Latina abandonaram
o palco. A democracia espetacular é plenamente realizada quando os intelectuais
de esquerda são livres para discutir Marx na imprensa ou na televisão, e quando
os cidadãos têm o direito de votar em um presidente de esquerda - que, caso
fosse eleito, seria forçado a assumir a espantosa tarefa de adequar o país ao
mercado mundial enlouquecido (18) - enquanto outros cidadãos mais
desafortunados, porque moram nas ruas, ou nas selvas onde se deve exercitar o
livre mercado, são tratados com métodos que poderiam provocar saudades dos
tempos menos "democráticos" (19) .Hoje, a
liberdade política pode conjugar-se perfeitamente com a mais feroz repressão
social. A descrição que Debord faz das redes
secretas, que administram, com desprezo total pelas leis burguesas, todas as
questões da sociedade sem aparentar que o fazem, parece particularmente
adequada à América Latina. Aqui se vê também o quanto o poder político visível
já é uma carcaça vazia, incapaz de se fazer ouvir tanto por um banco quanto por
um comissariado de polícia, e o quanto sua conquista é, então, inútil.
Compreende-se por que os golpes de Estado de antes, com tantos tanques
blindados cercando o palácio presidencial, não estão mais na moda (20). Não por
acaso, todas as sociedades modernas reivindicam, diferentemente do que fazia
ainda o nazismo, ser democráticas; até o General Pinochet que, mais do que
abolir a democracia, queria "banhá-la toda em sangue".
Mas a oposição à
democracia espetacular não pode mais, certamente, se desenvolver sob a insígnia
da luta pela "verdadeira democracia". Quando reduziu todo o seu
programa à palavra de ordem da "democratização" e dos "direitos
humanos"(21) - eventualmente com a desculpa e
que, em certos países, isso já representaria um avanço notável em relação a
formas anteriores de dominação - a esquerda demonstrou mais uma vez sua
disponibilidade para cair em todas as ratoeiras e para se propor como
alternativa para a gestão do sistema da mercadoria. O fim da política caminha pari
passu com o fim do que habitualmente se chama de
"democracia". Os movimentos anticapitalistas e revolucionários sempre
acreditaram que o capitalismo era incompatível com a democracia - até Marx, num
certo momento, julgou que o capitalismo não poderia sobreviver à introdução do
sufrágio universal - e viram, em cada progresso da liberdade e da igualdade, em
cada concessão de "direitos" a novas categorias da população, um
território arrebatado ao domínio burguês, uma conquista a ser defendida
obstinadamente contra as inevitáveis tentativas de anulá-la. Porém, com essa
luta, os movimentos democráticos, mesmo os mais radicais, não fizeram senão
ajudar o capitalismo moderno a superar seus resquícios ainda pré-burgueses e
quase feudais, baseados nas imutáveis diferenças das castas sociais. Esses
resquícios sobreviveram por muito tempo ainda. O movimento operário e as outras
forças que atuaram pela democratização pensando combater o sistema capitalista
- e devendo, efetivamente, topar com seus representantes empíricos - impeliram-na, de modo involuntário, rumo à sua forma acabada
que prevê exatamente a igualdade e a liberdade abstratas de todos os sujeitos
de mercado. A democracia espetacular é a conseqüência lógica da única
democracia possível na sociedade da mercadoria, isto é, a democracia dos
vendedores de mercadorias, livres e iguais. Enquanto a sociedade inteira for
governada pelas leis cegas de uma economia autonomizada,
qualquer que seja a forma de administração "política" da sociedade
continuará sempre obrigada a seguir o "Diktat"
que impõe o desenvolvimento da mercadoria. Uma democracia num sentido
completamente distinto, entendida como uma sociedade que faz conscientemente a
própria história e que terá reconduzido todas as suas criações - a economia, a
política, a religião etc. - à decisão em comum, ao invés de ser por elas
governada, só será possível depois de haver superado a subordinação da
atividade humana à forma-mercadoria.
Se o fim da política
não é assumido conscientemente como tarefa e como possibilidade de se libertar
de uma categoria fetichista, o risco é que a política será substituída por
formas ainda piores. Não, é claro, por um novo fascismo, mas por uma nova
barbárie, por uma "economia da pilhagem" como
último estágio do mercado livre. O fim lógico da sociedade da mercadoria
é a desintegração até a guerra de bandos, a máfia, até o comprometimento
violento dos últimos restos de riqueza ainda em circulação. Ao final de sua
evolução, o Estado tende a se transformar novamente naquilo que era no início:
um bando armado. O exemplo iugoslavo é eloquente.
É necessário que os
até agora poucos filões de crítica radical da sociedade da mercadoria se
encontrem e encontrem seu público. Só uma crítica desse tipo é
"realista", visto que a sociedade da mercadoria pode talvez ser abolida, mas não mais ser reformada, como demonstra-se a
cada dia. Só uma crítica como essa pode reivindicar o fato de ter sabido se
valer das intuições mais profundas de Marx. De outro modo, o descontentamento,
que cresce a cada dia diante das loucuras da economia autonomizada
e dos desastres ecológicos, pode ser recuperado por forças interessadas apenas
em canalizá-lo para formas impotentes. As diversas igrejas já estão à espreita
para propor seus remédios. Mas também já se disse: "É possível enganar
alguém durante todo o tempo. É possível enganar a todos por algum tempo. Mas
não é possível enganar a todos durante todo o tempo".
Tradução do original
italiano por Iraci D. Poleti. Publicado na Revista
Praga, n° 4, 1997. Texto revisto pela própria tradutora.
* ARAPUCA: (do Tupi,
Brasil) Armadilha para pássaros; (fig.) casa esburacada (Nota dos editores da
página Krisis -Portugal)
1 O texto de Marx em questão - O dezoito
Brumário de Napoleão Bonaparte - é, por outro
lado, aquele em que se encontra a famosa frase que diz que as tragédias da
história se repetem como farsa.
2 Na Itália, depois da vitória eleitoral
de Berlusconi, em 1994, obtida em parte graças ao trabalho de propaganda
realizado por seus canais de televisão privados, foram propostas, e em parte
promulgadas, leis que pretendem assegurar a todos os concorrentes políticos um
acesso adequado à mídia, também privada.
3 Guy Debord, A
sociedade do espetáculo, Contraponto, Rio de Janeiro, 1997; (A
Sociedade do Espectáculo, Mobilis
in Mobile, Lisboa, 1971 - nota dos editores da
página); daqui em diante, Sde.
4 Incluído na edição brasileira de A
sociedade do espetáculo. (Comentários sobre a Sociedade do Espectáculo, Mobilis in Mobile, Lisboa, 1995 - nota dos editores da página)
5 De fato, recentemente se viu, na
Itália, chegar ao cargo de diretor de um dos canais da televisão estatal um
personagem que, há tempos, declara em alto e bom som sua admiração por Debord e recomenda aos telespectadores que leiam A
sociedade do espetáculo para se protegerem melhor contra a televisão: mais
ou menos como o criminoso arrependido pode ser um ótimo tira ou como um passado
de universitário marxista não prejudica em nada uma grande carreira política
sob a bandeira do neoliberalismo.
6 Realmente, nos últimos anos, se fala
mais do que nunca de Debord e dos situacionistas mas,
em geral, apresentando-os como uma simples vanguarda artística, ou como um
fenômeno de admirável estilo literário, ou como precursores de 1968; porém,
quase nunca se lhes reconhece uma crítica radical, de base marxista, do mundo
atual.
7 Cópia extremamente mal resolvida de
André Malraux, Debray, na
trajetória que o levou de pseudoguerrilheiro a
conselheiro de todos os presidentes, não deixou de lucubrar uma pomposa "midiologia", ela própria muito midiática (Vida e
morte da imagem, Vozes, Petrópolis, 1994; Manifestos midiológicos,
Vozes, Petrópolis, 1996).
8 Guy Debord, Comentários
sobre a sociedade do espetáculo, cap. VIII.
9 Karl Marx, O Capital, v. 1, p.
59. São Paulo: Ed. Abril, 1983.
10 Internationale situacionniste,
n° 9, 1964, p. 24.
11 Idem, n° 9,
p. 42.
12 Idem, n°
11, 1967, p. 32.
13 Idem, n° 2,
1958, p. 9.
14 Uma análise desse
processo, a qual levamos em consideração neste artigo, encontra-se sobretudo nos textos de Robert Kurz
e da revista alemã Krisis. No Brasil,
foram publicados: Robert Kurz, O colapso da
modernização, São Paulo: Paz e Terra, 1992; O retorno de Potemkin, São Paulo: Paz e Terra, 1993, e Os últimos
combates, Petrópolis: Vozes, 1997.
15 Para ser mais preciso: hoje, a produção é diretamente socializada no plano
material (qualquer produção pressupõe infra-estruturas enormes). Porém, não o é
no plano social, pois o horizonte do sujeito econômico nunca são a sociedade e
suas necessidades, tampouco as próprias necessidades reais, mas apenas a
criação de valor de troca acima de qualquer consideração quanto às
conseqüências.
16
Guy Debord, Comentários sobre a sociedade do espetáculo, cap.
XXIX.
17 Sem esquecer que a
inesperada conversão dos países do leste a um tipo bastante particular de
democracia - e o papel que os serviços secretos e diversas mistificações
desempenharam nessa mudança - trouxeram, de repente,
uma notável confirmação às análises de Debord.
18 Quando, em tempos
de crise, os donos da sociedade permitem que a esquerda se aproxime do poder,
pensam, talvez, na máxima de Baltazar Gracián:
"Le médecin adroit, qui n'a pas réussi
à la guerison
de son malade, ne manque jamais d'en appeler un autre
qui, sous le nom de consultation,
I'aide à soulever le cercueil" (cito uma
tradução francesa que tenho em mãos. Trata-se do § 258 do Oráculo manual).
19 Debord observa, em Comentários
sobre a sociedade do espetáculo, cap. XVIII, que "sabe-se... o que são
os esquadrões da morte no Brasil".
20 Debord sublinha que o papel de
vanguarda que a Rússia e a Alemanha tiveram na formação do espetáculo
concentrado, e os Estados Unidos na do espetáculo difuso, parece ter cabido, no
que diz respeito ao espetáculo integrado, à França e à Itália (Comentários
sobre a sociedade do espetáculo, cap. IV). Quanto a isso, Debord também poderia ter citado o México. A partir dos
anos 20, quando o espetáculo mundial estava apenas ensaiando os primeiros
passos, uma férrea oligarquia conseguiu, nesse país, governar mantendo um jogo
de regras democráticas, com alguma eleição aqui e acolá pela oposição, com uma
margem de liberdade de opinião e de organização desconhecida em outros países
latino-americanos, e apoiando, no âmbito da política externa, governos e
movimentos revolucionários. Com tudo isso, aquele partido de nome tão eloquente exerceu um controle da sociedade bastante mais
perfeito do que seus colegas conseguiram fazer em outros países, mantendo-se no
poder por mais tempo do que qualquer outro regime político neste século. E é bem
conhecido que soube também recorrer a outros métodos quando necessário, bem
como soube apagar as marcas disso com uma habilidade digna do espetáculo
integrado que ainda não havia sido instaurado. Debord
alude a isso, aliás, em Comentários sobre a sociedade do espetáculo, cap.
XXVIII.
21. Também além do fato de que o enfatizar a
"democracia" se tornou em muitos países, principalmente na Itália e
na França, o último refúgio de académicos de esquerda
e de velhos stalinistas que não se converteram, a tempo, em heideggerianos
ou popperianos, e que devem ter, porém, algum cavalo de batalha para evitar que sejam excluídos dos
debates de televisão.