A crise
ecológica mundial e sua conexão com a agressão ao “Parque do Cocó” em Fortaleza
A cidade de Fortaleza se situa no entorno do “Parque do Rio Cocó”, que ao chegar às proximidades de sua foz se alastra
e se constitui num complexo de mangues próprios à manutenção de um ecossistema
biológico importante para o equilíbrio natural da cidade. Trata-se de um dos
mais importantes sistemas ecológicos urbanos, e isso situado numa cidade de
cerca de 2,4 milhões de habitantes, figurante entre as maiores capitais do
país. Tal condição não ficaria imune às agressões ao meio ambiente próprias a
uma sociedade que considera a terra uma mercadoria e os cursos d’água como
escoadouro barato de dejetos humanos e industriais, e onde tudo é mensurado por
um quantitativo de valor e destinado a sua reprodução contínua. Assim, além das
já conhecidas agressões poluentes que tornam as águas do rio e do mangue do Parque
do Cocó impróprias para o consumo humano, e até mesmo
para a pesca e outras atividades extrativas da piscicultura, desde há muito, e agora
mais intensamente, avançam construções de imóveis sobre as suas margens, numa
corrida autofágica provocada pela especulação imobiliária e pela avidez de
lucros do setor da construção civil.
O Estado tem sido
impotente para o combate a tais agressões, e é fácil compreender a sua
impotência diante desses fatos. O Estado como instância política, institucional
e reguladora da vida mercantil e, portanto, parte indissolúvel e dependente
desse modo de relação social, não pode se voltar contra a sua própria natureza
abstrata, mesmo que isso atinja a natureza biossistémica.
Assim os Poderes Judiciário, Executivo e Legislativo, instâncias que servem
como pilares de sustentação do organismo estatal, são impotentes para coibir as
agressões de que ora falamos, e a sociedade, mesmo que fique indignada com tais
abusos, não tem instrumentos eficazes para o combate frutífero desses
cometimentos, vez que é igualmente dependente dessa lógica mercantil abstrata
da qual falamos. Que se louvem as atitudes heróicas dos defensores do meio
ambiente, mas que não se escamoteie nem se deixe de lado, como tema tabu no
qual não podemos tocar as análises de causa e efeito desses cometimentos, vez
que somente combatendo a gênese basilar da lógica fetichista e destrutiva sob a
qual vivemos, poderemos impedir a hecatombe que se avizinha, seja no Parque do Cocó, seja no Sri Lanka, seja na China, em Mianmar ou nos
EUA (Califórnia e New Orleans).
Sobre o que
está na base da agressão ecológica - Os tripulantes da nave espacial planeta terra correm perigo? A
própria nave corre perigo? Não há outra resposta para essa pergunta, senão uma
aterrorizante afirmação dessas duas possibilidades. Diante desse sim, e para
melhor situarmos a questão, cabe outra pergunta: quem promove essa navegação de
risco? A resposta também não pode ser outra senão aquela que afirme
categoricamente que “são os seres
humanos, agindo inconscientemente sob o comando hipnótico e impositivo de uma
relação social abstrata, fetichista, destrutiva e autodestrutiva, porque
contraditória na sua essência, cujo sujeito é uma pura forma, que tem como
objetivo teleológico a sua própria sustentação através de um autocrescimento contínuo, tendente ao infinito, mas com
limite interno na sua base veicular (o mercado), circunstância que
correspondente a uma contradição endógena irresolúvel, além de se constituir em
uma forma destituída de objetivo virtuoso. Trata-se da forma valor!” Então, se é assim, por que a consciência
humana não interfere nessa forma de direção perigosa e suicida, discutindo a
base ontológica sobre a qual ela se ergue? A correta resposta a essa pergunta
nos parece ser a única forma de superarmos o problema na sua origem, e a sua
exata formulação é tão ou mais importante do que os estudos científicos havidos
nos mais variados ramos das ciências físicas aplicadas à ecologia para a
avaliação dos fenômenos meteorológicos que nos dão dados suficientes para
deixar a todos perplexos diante das catástrofes iminentes e das muitas que já
se fazem sentir. Assim, tentemos responder a essa questão do conteúdo físico da
catástrofe e do “porquê”
dos seus aspectos mais cruciais de causa e efeito, de modo a considerarmos o
gigantismo dessa crise ecológica, que para alguns cientistas já toma contornos
de irreversibilidade.
O
aquecimento do planeta – dentre os fenômenos que afetam a vida do ecossistema do planeta
terra, certamente que o aquecimento provocado pela emissão excessiva de gás carbônico (CO2) é o mais assustador,
pela sua abrangência, intensidade destrutiva e irreversibilidade de curto
prazo. Afirmam os estudos dos especialistas de diversos organismos internacionais, que
o atual estágio de aquecimento do planeta atinge níveis bastante perigosos,
e o que é mais grave, já com contornos de irreversibilidade, dado o demorado
processo de recuperação necessário, mesmo que houvesse uma intervenção
concentrada nas causas desse aquecimento. O aquecimento do planeta se dá,
especialmente, em função da emissão de gás carbônico (CO2) na atmosfera, entre
outros, que não se dissipam imediatamente na imensidão do universo, e funciona
como o telhado de uma estufa sobre o planeta, que permite a entrada dos raios
solares, mas retém parte do calor refletido por esses raios na superfície. A
emissão desses gases pela natureza, em níveis naturais, promove o equilíbrio
que permitiu a vida vegetal e animal na superfície do planeta. Entretanto, o
aumento excessivo de emissão desses gases, provoca um “telhado” mais espesso,
provocando o superaquecimento do planeta, ameaçando o equilíbrio ecológico e,
conseqüentemente, a vida dos seus vegetais e animais. A emissão de gases na atmosfera se acentuou
drasticamente a partir do consumo de combustíveis fósseis decorrente do
processo da revolução industrial embasada na combustão do petróleo, bem como do
modo transporte automobilístico massivo, que é feito através dos motores à
combustão, grandes emissores desses gases (calcula-se em 725 milhões de
unidades a frota de carros do planeta, emitindo diariamente gás carbônico na
atmosfera). De 1 bilhão de toneladas de emissão de CO2
em 1928, pulamos para 7,3 bilhões de toneladas em 2005. O combustível fóssil petróleo, fonte
energética produtora de gás carbônico por excelência, é responsável por cerca de 75% dessa emissão excessiva. Os outros 25% ficam
por conta das queimadas, que ao mesmo tempo em que emitem gás carbônico,
promovem a diminuição da arborização, dificultando a absorção de gás carbônico
pelas florestas, constituindo-se, portanto, em fator de aquecimento e
desertificação, numa dinâmica auto-indutiva que se prenuncia como catastrófica
se não for barrada a tempo.
O aquecimento do planeta
gera desequilíbrios em vários níveis da vida planetária. Vejamos os principais
aspectos desse fenômeno meteorológico:
- diminuição da cobertura de gelo da calota polar ártica, que em
média se reduz em 8% ao ano, há três décadas, e que somente no ano de 2005,
derreteu uma área correspondente aos territórios da França, Alemanha e Reino
Unido, juntos. Esse degelo produz uma grande quantidade de água despejada nos
oceanos, o que aumenta os seus níveis, bem como produz um aquecimento das suas
águas. As águas dos oceanos estão 0,5% mais quentes nos últimos 20 anos,
circunstância que altera a circulação dos ventos, provocando deslocamento de ar
seco para várias regiões do planeta, causadores da seca e, conseqüentemente, na
diminuição das águas, fator auto-indutivo do aquecimento, num processo autopropulsor. O rio Amazonas no Brasil, o maior do mundo
em volume d’água, com uma bacia de 6,150 milhões de
km2, baixou 2m (dois metros) na ultima seca, o que dá bem a idéia dos desníveis
causados por esses fenômenos. Algumas regiões da Amazônia, recentemente,
tiveram enchentes nunca vistas. A redução substancial dos glaciares (blocos de
gelos continentais decorrentes da conservação contínua de neve) nos EUA, na
Patagônia e nos Andes, implica no aumento substancial da temperatura das águas
dos mares, e é responsável por 10% desse aumento. Na Groenlândia o degelo
aumentou em 100% nos últimos 10 anos e a capa de gelo que cobre 85% da área da
ilha diminui ao ritmo de
- o aumento do calor implica na alteração da vida animal de modo
substancial. Estudos de quinze universidades e centros de pesquisa de vários
países estima que o aquecimento da temperatura no planeta terra implicará na
extinção de cerca de 1 (um) milhão de espécies animais
até 2.050. Além do mais, estimula a produção de fungos que somente podem
subsistir em temperaturas altas, e que são nocivos à vida animal. A título de
exemplo, e segundo estimativas de biólogos e cientistas, nas florestas
tropicais das Américas do Sul e Central, das 110 espécies de sapos
identificadas, cerca de 66% desapareceu vitimada pela
proliferação de fungos antes inexistentes. No sul da França houve uma
proliferação de lagartos da espécie Lacerta,
inclusive com aumento de tamanho, que se transformou em verdadeira praga. Nas
praias, o aquecimento da temperatura das areias usadas pelas tartarugas para a
desova, implicou no desequilíbrio do desenvolvimento dos embriões, fazendo com
que nascessem mais fêmeas do que machos provocando um comprometimento do futuro
da espécie. Alteração na intensidade e velocidade dos ventos tem causado
destruição dos ninhos dos albatrozes, causando a diminuição de 50% em alguns
espécimes de aves dessa família;
- a desertificação é um fenômeno assustador, que atinge alguns
países de forma muito agressiva. As áreas em processo de desertificação
aumentaram substancialmente, e já se estima que 25% da superfície do planeta já
está desertificada. As secas e inundações avançam por
toda parte, mesmo as mais distantes da linha do equador, e regiões nunca antes
atingidas por esse fenômeno (ou muito raramente) agora passam a viver esse
drama (caso do Sul do Brasil). Calcula-se que cerca de 150.000 pessoas morrem
por ano por causa das secas, e na China as áreas desérticas avançam cerca de
- a ocorrência dos tornados, furacões e tufões nos continentes propícios
as suas investidas tem aumentado, e até países onde não se observavam tais
fenômenos passaram a conhecê-los, como é o caso do sul do Brasil. Segundo o IPCC
da ONU, em 2005, ocorreram cerca de 259 fenômenos
ligados diretamente ao aquecimento global (169 inundações, 69 tornados, e 21
secas), em contraposição à média de seis por ano há 200 anos atrás. O exemplo
de devastação do furacão Katrina,
- a aceleração da decomposição de matéria orgânica na terra e no mar causada pelo aquecimento da terra é fator de emissão de
gases tóxicos nocivos à vida animal. A emissão de gás carbônico de modo
excessivo está igualmente tornando ácidas as águas dos oceanos, fenômeno que
provoca a morte dos plânctons, corais e viveiros do mar, base da cadeia
alimentar subaquática. O surgimento de epidemias, como é o caso da “febre da
vaca louca” e da “gripe aviária”, e o recrudescimento de epidemias antigas como
é o caso da malária e da dengue, podem estar relacionadas com o aquecimento da
temperatura do planeta Terra.
A poluição
industrial, agrícola e urbana – acresce-se à agressão ecológica promovida pela emissão de gás
carbônico na atmosfera pela atividade industrial, outras de naturezas as mais
diversas, tais como a poluição dos rios com produtos químicos ou dejetos
orgânicos e inorgânicos; extração mineral predatória; inadequação do tratamento
e destino do lixo resultante de atividades industriais e hospitalares, ou do
lixo produzido pelo consumo humano nas residências; gases poluentes em
decorrência de uso de eletrodomésticos; uso de defensivos agrícolas na produção
de alimentos com base na utilização de produtos químicos nocivos ao manuseio e
consumo humanos; utilização de produtos químicos na produção e conservação
industrial de alimentos enlatados, ensacados ou acondicionados em vidros; o uso
indiscriminado de automóveis movidos à combustão fóssil; etc., etc. etc. É
interminável a lista de poluentes que de forma consciente ou inconsciente de
uso pela intervenção humana agridem a natureza.
O combate às
causas da crise ecológica - todos esses fatos são do conhecimento público, sem que haja
força política (e não pode haver) para a alteração substancial desse quadro.
Ações educativas veiculadas pela mídia; iniciativas particulares aqui e acolá;
importantes protestos e ações práticas de grupos ecológicos; ação parlamentar
de partidos políticos voltados para essa questão, não têm sido suficientes (e
não podem ser, sob essa forma) para barrar essa
trajetória suicida. Por que no atual quadro a sensibilidade humana é impotente
para barrar essa forma autodestrutiva de procedimento social? A correta
resposta a essa pergunta corresponde à decifração do enigma que está a nos
devorar.
A lógica da produção de
mercadorias não obedece à satisfação das necessidades humanas, mas ao movimento
tautológico da forma valor, ou seja, obedece à necessidade de sua
auto-reprodução, de sua autovalorização como pura
forma abstrata e fetichista, que está chegando ao seu limite existencial,
prenunciando o seu iminente colapso como modo de mediação social, mas não sem
antes promover um estrago ecológico decorrente da atividade insana dos
executores de sua lógica, os seres humanos, que agem de modo inconsciente e
suicida na defesa de sua permanência, notadamente nesse momento dos seus
estertores. Entretanto, as pessoas não se apercebem de que é essa forma de
mediação social – a forma valor - em si, a causa do problema, e não o modo como
ela é conduzida. Até mesmo os mais destacados representantes de partidos
voltados para o problema ecológico, como é o caso dos partidos verdes, não
atinam para essa questão, e sequer percebem que são
parte do sistema produtor dessa hecatombe. Exemplo claro
disso, podemos tirar do pensamento de um dos políticos mais populares da
Alemanha, representante da corrente dos realistas do partido verde alemão e
Ex-Ministro das Relações Exteriores, Joschka Fischer, que em seu livro “Por uma nova concepção de Sociedade - uma
análise política da globalização (Summus Editorial,
Brasil, 2001, tradução de Sílvia Bittencourt e Hemílio
Santos), ao tentar explicar e criticar a globalização e o neoliberalismo,
com ênfase na questão ecológica, deixa transparecer claramente que, apesar de
conhecer a dinâmica interna destrutiva da forma valor, de reconhecê-la como uma
relação social negativa, quer subordiná-la à ação do estado através da
política, para lhe dar uma feição razoável (mais uma vez caindo no erro da
tentativa de sua impossível justa distribuição) não entendendo que tanto o
estado como a política são partes constitutivas subordinadas dessa forma, e que
antes de poder ditar normas para o seu funcionamento distributivo “justo”,
“humanizado” ou “sustentável”, são instrumento de regulação do seu
desenvolvimento a qualquer custo. Daí porque nesse livro citado, fica clara a
defesa do combate à adequação do estado e da política aos interesses mercantis
globalizados, ao mesmo tempo em que defende o restauro do poder do estado
nacional em intervir eficazmente na defesa dos cidadãos e da economia
nacionais, do estado social nacional, numa visão neo-keynesiana,
por desconhecimento do liame inseparável entre mercado, política e estado, com
a total dependência destes últimos ao primeiro, bem como da globalização como
estágio de necessidade de internacionalização do capital imposto pela corrida
concorrencial mundial, fenômeno que não apenas não pode ser contido pela
política e pelo estado, mas ao contrário, tem nessas esferas institucionais os
instrumentos de sua viabilização incondicional.
Para superar o modelo
causador de tudo isso é necessário vivermos sob a égide de uma sociedade livre
da troca de mercadorias, onde não se precise comprar e vender para se ter
acesso a bens (não mercadorias!), e mais precisamente, não se precise comprar e
vender cada vez mais como forma de dar sustentação à dinâmica interna
destrutiva da forma valor, embasada no processo contínuo tendente ao infinito de
autovalorização. Superar a ameaça de colapso ecológico
do nosso ecossistema não é coisa que dependa de políticas ecologicamente
corretas dentro da sociedade mercantil, posto que, isso é impossível, uma vez
que política, estado e mercado, instâncias causadoras do problema, mantêm laços
indissolúveis e intercomunicantes. Superar essa
ameaça é pensar numa cultura da vida, e não da morte; é superar e transcender o
sistema produtor de mercadorias; é entender que a questão ecológica (como por
exemplo, a produção de energia) não pode estar subordinada à lógica mercantil
de resultados econômico-financeiros, e para isso se faz necessário, antes de
combatê-la na forma, superar a questão de conteúdo, ou seja, trata-se de
superar esse modo de relação social - a forma valor - que ora atinge o seu
limite existencial, e superá-la significa, principalmente, acabar com todas as
formas jurídico-institucionais que lhe dão sustentação, superando a própria
política (e conseqüentemente, inclusive, o próprio partido verde) e o Estado.
Antes que seja tarde...
Dalton
Rosado Crítica Radical.