ENTREVISTA CONCEDIDA EM 2003 NO RIO DE
JANEIRO
AO GRUPO ANTIVALOR
Antivalor: No Brasil
existe um certo desconhecimento em relação ao Grupo Krisis. A obra de Robert Kurz é
relativamente bem conhecida, mas o mesmo não ocorre com a obra do Krisis em geral. Como, então, surgiu o Grupo, quais foram
os seus desdobramentos ao longo do tempo e qual a relação que você estabelece
com ele?
Anselm Jappe: O Grupo Krisis nasceu em 1986, através de pessoas que estavam
insatisfeitas com o marxismo tradicional e formaram inicialmente uma revista
intitulada Crítica Marxista. Essa revista era formada por um núcleo de pessoas
que permaneceram juntas por muitos anos e por uma série de outros colaboradores
que freqüentemente mudavam, com cada etapa de desenvolvimento. O primeiro
número da Crítica Marxista ainda chamava-se "a crise do valor de
troca", pois era uma das primeiras tentativas de retomar a questão do
valor. Depois, ocorreu uma radicalização no desenvolvimento da Crítica Marxista
que, primeiramente, conduziu à discussão sobre o conceito de luta de classes,
depois ao de trabalho, sujeito, etc. Foi uma radicalização progressiva que,
conforme avançava, provocava cisões dentro do grupo,
saída de alguns integrantes e também incorporava novas pessoas. Esse período, podemos dizer, "heróico" do Krisis,
quando as contribuições mais importantes e mais sacrílegas foram realizadas,
durou mais ou menos de 1986 a 1993. O nome mudou quando o número 8/9 foi
publicado, marcando, assim, o afastamento em relação à tradição marxista e,
sobretudo, a importância da análise da crise da sociedade da mercadoria para o
pensamento do grupo. Pessoalmente, conheci o Krisis
em 1992-3. Nesse momento, como já havia publicado o livro sobre Guy Debord e, portanto, desenvolvido estudos sobre os
situacionistas e sobre Marx, já considerava que o tema do valor era a parte
mais importante da teoria de Marx. Nessa época existiam muitos fragmentos de
análises que eu não conseguia unificar num todo coerente. Quando, quase
casualmente, li na Alemanha um número da revista Krisis
(era o número 11), foi para mim algo como uma "iluminação". Lá estava
escrito o que eu, exaustivamente, estava tentando formular, mas sem conseguir.
Ao mesmo tempo, todo um percurso já estava completado no pensamento do Krisis, como a crítica do conceito de luta de classes ou a
crítica da política. Eu também fiquei impressionado com a vontade do grupo de
retomar uma reflexão teórica. Isso porque, naquela época, existia uma pressão
para que a crítica teórica sempre conduzisse a resultados práticos imediatos,
como se fosse necessário participar imediatamente nos movimentos sociais. Por
outro lado, eu achava a crítica marxista muito acadêmica, filológica; era como
se fosse uma luta entre seguidores de Adorno ou Lukács...
Era tudo muito direcionado para o passado. A crítica teórica era uma espécie de
contemplação do passado, uma análise interminável do pensamento de outros
marxistas. O que me entusiasmava no Krisis era essa
disponibilidade de retomar questões centrais da reflexão marxista, mas sem se
preocupar muito com a tradição do pensamento marxista, sem se preocupar em
saber qual é a melhor tradição - se é a de Lukács ou
a de Adorno, etc. O que me interessava no Krisis era
essa vontade de recomeçar a pensar os assuntos mais fundamentais.
Interessava-me essa capacidade do Krisis de romper
com os temas da esquerda tradicional e também da esquerda radical. Acho que
esses são os aspectos mais importantes.
A: No final dos anos 80, Kurz publicou na Alemanha um manifesto pela reformulação da
teoria crítica radical. Você chegou a entrar em contato com esse texto?
AJ: Não, porque este texto foi publicado antes de eu entrar em contato com
o Grupo Krisis. Também porque eu não vivo na
Alemanha, e foi quase casualmente que, numa livraria, me falaram da revista Krisis. Nessa época, eles já eram um pouco conhecidos entre
a esquerda alemã. Mais ou menos depois de 1991, após a reunificação, as teses
do Krisis acharam muito mais ouvidos
na Alemanha, e depois no Brasil...
A: Quando a teoria da crise passou a ter
maior importância para o Grupo Krisis? Ela que
motivou a mudança do nome, de Crítica Marxista para o nome atual?
AJ: A teoria da crise era já existente desde o início, mas, como disse, eu
só conheço os primeiros anos do grupo através da leitura da revista. Eu não
tinha uma participação direta nessa época.
A: Mas a teoria da crise teve
desdobramentos, sofreu reformulações...
AJ: No pensamento do Krisis ela teve menos
modificações do que outros aspectos da teoria. Kurz,
num dos primeiros números, formulou uma teoria da crise atual do capitalismo em
termos mais tradicionais, mais próximo das análises marxistas, como crise de superacumulação. Esta análise permanece válida, mas o Krisis ampliou os campos de sua reflexão. A reflexão se
abriu muito mais com outros aspectos, como a crise da política, do Estado
Nacional, da forma-sujeito, do trabalho, etc. A teoria da crise sofreu
redirecionamentos menores do que outros campos da teoria.
A: Qual a relação entre a teoria da
crise e a crítica do sujeito?
AJ: A relação se estabelece na medida em que o valor não é somente uma forma
econômica, uma forma de produção material. O valor é uma "forma social
total", é uma forma de convivência entre as pessoas. Na sociedade
fetichista, não pode existir um verdadeiro sujeito criador da lógica da
mercadoria, pois o sujeito, na sociedade fetichista, não adquire consciência. O
próprio Marx fala de um "sujeito automático". Mas, diferentemente do
estruturalismo, nós dizemos que pode existir um sujeito, que ele não é somente
uma ilusão das estruturas, que ele não está ausente para sempre. Não há um dado
ontológico informando, para sempre, a inexistência do sujeito e a
impessoalidade de todas as estruturas. O fetichismo é uma forma histórica, uma
forma muito longa e importante, mas não é a única forma de convivência humana.
Na sociedade fetichista não pode existir verdadeiramente um sujeito, porque o
sujeito, na sociedade da mercadoria, é a própria mercadoria, o valor. Os
sujeitos existem, mais ou menos, como portadores da lógica da mercadoria.
Também essa distinção entre mundo interno e externo, objetivo e subjetivo, é
uma estrutura tipicamente moderna. Essa é a mesma estrutura do valor, que tem
sempre necessidade de dividir o mundo em fatores objetivos e subjetivos.
A: A principal crítica dirigida ao Krisis, oriunda, sobretudo, dos "movimentos de
agitação" (Kurz) ,
afirma que a crítica do sujeito, relacionada à teoria da crise, acaba
desembocando em uma forma de imobilismo, de contemplação. O que você diria
sobre isso?
AJ: Absolutamente não, porque a crítica do sujeito significa primeiramente que
os sujeitos sociais que são construídos pelo mesmo desenvolvimento capitalista,
como a "classe burguesa" ou a "classe proletária", não
podem ser os agentes da emancipação. Eles são os sujeitos capitalistas. Também
as outras formas que se acham disponíveis hoje são construídas pela
socialização capitalista. Não são formas que existem para além da formação
capitalista, como se ela exercesse um domínio exterior; não são formas as quais
se podem mobilizar contra um capitalismo que somente ocuparia uma parte da
sociedade. Tampouco serve o conceito de Lukács,
presente na obra História e consciência de classe, em que o proletariado é
concebido como uma forma não colonizada pelo capitalismo, como alguma coisa que
fica "fora" da sociedade, que é somente dominado ou submetido, mas
não propriamente constituído pela lógica capitalista. O proletariado existe na
lógica capitalista como vendedor da força de trabalho. Isso é a coisa mais capitalista
que pode existir. Tudo isso significa que não se pode mobilizar uma força
social já existente, enquanto força social, para atribuir-lhe uma capacidade emancipatória. Isso vale para o proletariado, os
imigrantes, os estudantes, etc. Nenhuma categoria existente é, enquanto
categoria, a portadora da emancipação. Mas isso não significa absolutamente uma
forma de fatalismo, porque a análise da crise demonstra justamente que o
capitalismo não pode continuar a existir para sempre, ou mesmo que ele já deixou
de existir em muitas partes do mundo. Então, os homens serão forçados a
inventar outras formas de existência, que também estão para além da forma
tradicional do sujeito. É verdade que o Grupo Krisis
não é "movimentista"; não achamos que é
necessário, a todo custo, participar em todos os movimentos sociais. Até porque
muitos desses movimentos são completamente interiores à socialização
capitalista e, por isso, não oferecem perspectivas emancipatórias.
O que nós fazemos é um pouco como dar "um passo atrás" para analisar,
através da reflexão teórica, quais as necessidades da prática. Mas nem a
crítica da política, nem a crítica do sujeito significam uma renuncia do agir
coletivo e individual. Ao contrário, são justamente a política e o sujeito que
portam a contemplação; eles são o contrário da ação.
A: Qual a relação de vocês com os
"movimentos antiglobalização"?
AJ: Alguns integrantes do Krisis participam ou
são convidados para conferências organizadas por "movimentos
antiglobalização", como o Attack na Europa.
Também no penúltimo número da Krisis (número 25)
foram publicados artigos sobre esses movimentos. É importante sublinhar que,
atualmente, parecem existir muito mais pessoas do que há alguns anos atrás, que
criticam a realidade social e econômica e querem alguma mudança. No geral, isso
é muito positivo e, provavelmente, existem mais grupos coerentes e mais
radicais no interior do movimento antiglobalização que poderiam ser
interessados em desenvolver uma crítica teórica mais elaborada. A nossa crítica
principal é que esses movimentos se apresentam como contrários ao
neoliberalismo e não como um movimento realmente anticapitalista. Mas,
sobretudo, o problema é que normalmente não existe nenhuma reflexão teórica
sobre as bases dessa sociedade, isto é, sobre o trabalho abstrato, o dinheiro e
a mercadoria. Essas categorias são mais ou menos aceitas como pressupostos
naturais. Em geral, a crítica dos movimentos antiglobalização se volta contra
as bolsas financeiras, a especulação ou as multinacionais. Isso acaba
facilmente se transformando numa reação voltada unicamente contra os
"parasitas", os especuladores, os pequenos grupos que são acusados de
roubar os "trabalhadores honestos", de roubar os frutos do seu
trabalho. Normalmente, não há uma crítica do movimento do capital e do
trabalho. Isso é um tipo de polêmica falsamente anticapitalista, que foi também
clássica no fascismo, ou seja, defender o capitalismo atacando somente a
redistribuição parasitária promovida por grupos financeiros. Evidentemente, isso
não quer dizer que os movimentos antiglobalização contenham elementos
fascistas, mas que eles têm uma quase total falta de reflexão teórica. Fazer da
reflexão teórica algo secundário é correr o risco de levar o
movimento para uma direção oposta a qual ele pretende ir. Outro problema
é transformar os protestos anticapitalistas em uma mistura de social-democracia
keynesiana retomada e populismo de direita.
Atualmente, por exemplo, pessoas como o presidente francês Jacques Chirac
tentam apresentar a si mesmas como representantes dos críticos da globalização.
Do ponto de vista de uma crítica anticapitalista, também é importante criticar
países como o Brasil e a França, entre outros, por esse discurso nacionalista,
associado à crítica da globalização, porque a resposta para os nossos problemas
não é nos reportarmos ao Estado Nacional. Do mesmo modo, o problema não é
somente o "imperialismo" dos EUA ou das grandes multinacionais: o
problema está na lógica do mercado e do trabalho que não funciona mais. Ao
mesmo tempo, existem pequenos grupos, à margem do movimento antiglobalização,
que fazem essas reflexões. O aspecto mais positivo é que se trata de um
movimento verdadeiramente global, que tanto existe na Tailândia como nos EUA,
na Bolívia como na Itália, etc. Isso é realmente muito positivo.
A: Uma das referências teóricas
reivindicadas pelos movimentos antiglobalização é a nova teoria do
"Império" formulada por Hardt e Negri. Você faz, juntamente com Robert Kurz,
uma crítica dessa obra. Quais são os principais aspectos da sua crítica?
AJ: A crítica essencial é que a teoria do "Império" não é nada além
de uma nova versão do marxismo mais tradicional e mais senil. É uma teoria que
faz o elogio do desenvolvimento das forças produtivas, tal como o velho
marxismo, com a diferença de que, agora, se trata de "forças produtivas
imateriais", e essa nova teoria quer se apresentar como representante dos
novos "trabalhadores imateriais", sem uma crítica do que se produz
hoje com o tal "trabalho imaterial". Tudo isso somente para convocar,
outra vez, os trabalhadores a se apropriarem dos meios de produção. Essa
"multidão" de que nos falam Negri e Hardt é somente um outro nome,
mais "pós-moderno", para o proletariado, que é a classe que produz
tudo e que, portanto, deve tomar o controle político da sociedade em suas mãos.
Esse é o velho programa da II Internacional, não há absolutamente nada de novo
neste livro. Ao mesmo tempo, não existe nenhuma reflexão sobre o trabalho
abstrato, sobre o valor, sobre a mercadoria. Também existem equívocos
terminológicos, por exemplo, em relação ao trabalho abstrato que os autores
confundem com trabalho imaterial. Aparentemente, Negri
não compreendeu o essencial de Marx. Ao mesmo tempo, o fato do trabalhador
produzir o valor é exatamente o problema, porque, para a crítica do valor, ele
é uma categoria negativa e destrutiva. O valor é uma camisa-de-força para a
realidade viva. Para Negri e Hardt,
esse fato, de que os proletários – ou a "multidão" – produzem o
valor, é, ao contrário, um fato positivo. É esse fato que funda a sua
reivindicação de poder governar o mundo. E tudo isso somente parece
"pós-moderno" porque é mesclado a mil outros teóricos, um menos
interessante que os outros, como Deleuze e Guattari.
Como Império é um livro extremamente eclético, existe até uma referência ao
livro de Kurz. Os seus autores pretendem utilizar
todas as teorias atuais para fazer uma grande construção que não explica nada.
Enfim, os fundamentos teóricos de Império são muito fracos.
A: Qual é a relação do Grupo Krisis, e a sua relação particular, com a Teoria Crítica
desenvolvida por Adorno e Horkheimer, e em relação
àqueles que hoje reivindicam a Escola de Frankfurt?
AJ: Talvez se possa dizer que o nexo entre a Teoria Crítica e o Grupo Krisis não é tão forte como se poderia pensar a partir de
uma perspectiva acadêmica. Eu não acho que essa relação tenha sido muito
importante nos primeiros anos do grupo. Nesse período foram publicados apenas 1 ou 2 artigos sobre a Escola de Frankfurt na revista Krisis. Eram críticas escritas por Norbert Trenkle, mas que, em seguida, foram reconhecidas como
insuficientes. Provavelmente, quando comecei a colaborar com o grupo, eu era a
pessoa mais próxima da Teoria Crítica. O meu primeiro artigo na revista era
sobre o "fim da arte" em Adorno e Debord.
Depois, nos últimos anos, foram publicados artigos mais diferenciados sobre
Adorno e o resto da Escola de Frankfurt e também sobre a temática do
Esclarecimento. Não sei se este artigo de Norbert Trenkle
foi publicado no Brasil...
A: Sim, ele existe em português;
chama-se Negatividade Interrompida.
AJ: É incrível a quantidade de coisas traduzidas para o português...
Provavelmente, neste momento, o papel da Teoria Crítica é mais importante do
que no período anterior, sobretudo por causa da discussão sobre o
Esclarecimento. Mas é preciso dizer que nas teorias de Adorno, e em menor
medida em Horkheimer, Marcuse
e Benjamin, se acham referências à teoria crítica do valor. Além disso, vale
lembrar que naquela época, isto é, dos anos 30 aos anos 60 ou 70, não existia
quase ninguém entre os marxistas que se referisse à teoria do fetichismo, do
valor e do trabalho abstrato. Estas observações de Adorno e também dos outros
integrantes da Escola de Frankfurt não foram apenas importantes, mas foram
quase as únicas naquela época. Mas não se trata absolutamente de uma teoria
propriamente dita, pois as observações de Adorno sobre o valor e sobre o
fetichismo provavelmente cabem em algumas poucas páginas. São, em geral, coisas
muito pequenas e, ao mesmo tempo, muito mescladas com o marxismo tradicional.
Esse marxismo é mais forte na Teoria Crítica do que se pode imaginar à primeira
vista; especialmente em Horkheimer ou na teoria do
capitalismo monopolista. Essa idéia desenvolvida pela Teoria Crítica nos anos
30 dizia que o capitalismo conseguiu acabar com as suas contradições e que o
Estado tinha o controle direto da produção, garantindo, desse modo, a
sobrevivência do capitalismo sem as suas crises. Essa teoria do capitalismo
monopolista é o pano de fundo de todo o pessimismo da Teoria crítica, porque
ele traz a idéia de que o capitalismo ganhou para sempre a batalha. Todos esses
aspectos da teoria do capitalismo monopolista são exatamente o contrário da
teoria do valor.
A: E quanto aos discípulos atuais de
Adorno e da Teoria Crítica?
AJ: Hoje, na Alemanha, existe, de um lado, uma recepção acadêmica da obra de
Adorno que não é muito interessante. Além disso, ela quase nunca se refere aos
aspectos da crítica radical, mas somente fala dos aspectos estéticos, musicais
ou literários. Existem também pequenos grupos que pretendem radicalizar as
considerações de Adorno sobre a Alemanha e sobre o anti-semitismo, etc. São
conhecidos como "anti-alemães". Eles
utilizam uma defesa bizarra da burguesia, pois também existe esse outro lado em
Adorno, o da defesa da sociedade burguesa contra as ideologias reacionárias do
"povo" e da "comunidade" que desembocaram no
anti-semitismo. Mas eu acho que para um pensador como Adorno, mais do que para
qualquer outro, não pode haver "sucessores"; não podem existir "adornianos".
A: Existe outro tema polêmico, que é a
crítica da tecnologia e do industrialismo. Você pode
comentar sobre essa posição? Parece que a maior parte do Grupo Krisis não compartilha exatamente das mesmas idéias que
você quanto a esse ponto, apesar de também realizarem uma crítica do
desenvolvimento capitalista. Por exemplo, no artigo Antieconomia
e antipolítica de Robert Kurz
existe, simultaneamente, uma crítica de determinadas
tecnologias criadas pelo capitalismo e uma expectativa favorável quanto à
utilização dos potenciais tecnológicos desenvolvidos por esse sistema.
AJ: Essa tendência de criticar todo o desenvolvimento capitalista, inclusive
nos seus aspectos materiais, tem se fortalecido nos últimos anos. No início,
sobretudo nos escritos de Kurz, existia um conceito
muito positivo do desenvolvimento da forças produtivas e uma idéia
essencialmente negativa das sociedades pré-industriais. Nos últimos anos houve
muita evolução nas idéias do Krisis. Mesmo Kurz, no Livro Negro do Capitalismo, descreve esse sistema
como algo quase completamente destrutivo. Ele também conta a história de
destruição de todos os tipos de comunidades e de formas de vida que existiram
antes da sociedade de mercado. Do mesmo modo, o Manifesto contra o trabalho
contém uma discussão dentro do grupo sobre a possibilidade de questionar o
desenvolvimento capitalista. Nesse texto existe um pouco dessas duas posições:
a opção de dizer - "as máquinas são boas, elas permitem criar uma sociedade
tecnológica que libera as pessoas do trabalho, permitem a criação de uma
sociedade do ócio, que só precisa se libertar da forma social atual e da
limitação capitalista da utilização das tecnologias". Ao mesmo tempo,
também existe no Manifesto, que é um trabalho coletivo e, por isso, um pouco
contraditório, uma tendência a afirmar que quase nada que o capitalismo tem
desenvolvido pode ser utilizado por uma sociedade emancipada. Naturalmente,
existem tecnologias apocalípticas, como a nuclear ou como a biotecnologia, que
são inaceitáveis porque comprometem para sempre a possibilidade de uma
sociedade humana. Mas existem muitas outras, criadas, sobretudo após a Segunda
Guerra Mundial, que também não contribuem em nada para melhorar a vida, e
existem somente para contribuir com a valorização do capital. É importante
lembrar que o Krisis não é um grupo fechado, com uma
"linha", e que existem opiniões divergentes no seu interior. Cada um
tem a sua própria linha de pesquisa. Existem pessoas, como Franz Schandl em Viena, que se interessam muito pela obra do
filósofo alemão Gunter Anders, que faz uma crítica
radical da tecnologia.
A: O aprofundamento da reflexão em torno
do conceito de Esclarecimento, que você nos relatou, contribuiu para essa
releitura da tecnologia ou para a crítica da noção iluminista de progresso?
AJ: Não exatamente, porque essa crítica já existia antes que Kurz introduzisse a temática da crítica do Esclarecimento.
Além disso, para ele, a leitura do Esclarecimento se desenvolve menos na direção
de uma crítica do progresso e da tecnologia, do que uma crítica do
Esclarecimento como o período de difusão e imposição da lógica do valor nas
consciências. Mas essa crítica também é muito discutida dentro do grupo. Sobre
alguns aspectos há acordo, mas sobre outros não. Por exemplo, na crítica do
Esclarecimento de Kurz existe uma tendência em fazer
"tábula rasa", de achar que todas as
sociedades que existiram até agora foram ruins e de achar que precisamos
recomeçar tudo do zero. Eu, ao contrário, sou muito mais aberto à idéia de que
as sociedades pré-capitalistas, que evidentemente não eram perfeitas, tinham
elementos que podiam se desenvolver positivamente. Essa é mais ou menos a mesma
perspectiva de Walter Benjamin, uma perspectiva que Michael Löwy
chamou de "crítica romântica" do capitalismo.
A: No livro sobre Guy Debord, você comenta o conceito de espetáculo e, ao mesmo
tempo, faz referencia à crise da política na sociedade atual. Como a política
se articula com esse conceito?
AJ: O que disse nesse livro, e também em outros artigos, é que a crítica do
espetáculo de Debord pode ser combinada à crítica da
política desenvolvida pelo Grupo Krisis. Ambas
afirmam que, na sociedade da mercadoria, não existem decisões conscientes, mas
somente a lógica tautológica da mercadoria. Não existe política no sentido de
decisão coletiva e comum. Existe somente a política como uma maneira de
garantir a infraestrutura e o funcionamento da
valorização do valor. A política não tem fonte de financiamento própria, ela
vive taxando a produção de mercadorias ou através da dívida pública. Nos
períodos de crise, a política perde toda a capacidade de autonomia, até porque
ela só existe como uma função subordinada à lógica da mercadoria; ela perde as
suas últimas margens de autonomia, voltando-se completamente para o espetáculo.
A política faz com que as pessoas acreditem que podem decidir. Agora, em quase
todos os países, existem governos democraticamente eleitos, mas nada mudou. O
importante não é dizer, como faz a esquerda, que as
eleições são sempre manipuladas, porque existe o poder da televisão, das
multinacionais, etc. O problema é que hoje a decisão política não tem nenhuma
possibilidade de se opor à realidade do mercado. Mesmo se todos os eleitores
pudessem "escolher livremente" o governo, este governo teria a mesma
impotência frente às multinacionais e praticamente todas as outras instituições
econômicas. A política tem cada vez menos possibilidade de ação.
A: Você acabou de lançar na França As
aventuras da mercadoria. Por uma nova crítica do valor. Quais são as teses
principais desse livro?
AJ: O livro faz, sobretudo, uma análise de Marx, que inicia com um estudo
quase filológico do primeiro capítulo de O Capital e de outros trabalhos de
Marx sobre a mercadoria. Eu retomo detalhadamente essas questões, que quase
nunca são estudadas, como a dupla natureza da mercadoria, o trabalho concreto e
o trabalho abstrato, trabalho social e individual, etc. Depois, tento
demonstrar como, a partir dessas categorias de base, que são o que nós chamamos
de conteúdo "esotérico" da teoria de Marx, é possível desenvolver
diversas idéias, chegando aos temas mais atuais. Este livro se concentra muito
nos textos de Marx; ao mesmo tempo, tenta resumir algumas das idéias do Krisis. Somente nos últimos capítulos eu faço uma discussão
voltada para a antropologia e comento algumas obras contemporâneas, como o
Império.
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