COLAPSO DO CAPITALISMO
FORUM TRANSNACIONAL ANTIFETICHISTA
English Version – THE COLLAPSE OF CAPITALISM
Version Française – L’EFFONDREMENT DU CAPITALISME
Versión Española – EL CAPITALISMO FRACASÓ
Um colapso ameaça o mundo – o colapso do
capitalismo.
A causa desse fracasso foi captada, e sua crise
anunciada pela crítica radical.
Hoje, uma teoria crítica radical renovada
reclama um ambiente favorável para o pensar e o agir emancipatórios.
Para pensar, debater e enfrentar este desafio,
você está convidado(a) para um fórum transnacional. Um fórum que pretende
encarar o fundamento lógico do sistema, seu desenrolar no tempo histórico e sua
barreira mundialmente apresentada pela crise atual - o fórum transnacional antifetichista.
Um fórum que tem como fundamento a revolução
teórica da crítica radical do valor-dissociação. Um fórum que vai desencadear o
processo de construção de um movimento social emancipatório que transcenda o
sistema produtor de mercadorias e inaugure uma nova relação social. Um fórum
que possibilite o encontro do impensável com o impossível para ultrapassarmos a
história das relações fetichistas. Um fórum que tem como objetivo a conquista
da sociedade da emancipação humana.
Mas há um obstáculo quase intransponível a
este projeto emancipatório - a abstração real do valor- dissociação que se
constitui como uma matrix apriórica
sob a qual o ser humano submetido não sabe, mas faz.
O quase intransponível reside no fato de que a
forma social da abstração real do valor é comum às classes sociais e a causa do
conflito de seus interesses. Tal forma é fetichista porque constitui uma
estrutura sem sujeito por trás das costas dos envolvidos. Nesta estrutura, as
pessoas humanas são submetidas ao eterno processo automático da transformação
da energia humana abstrata em dinheiro.
O quase intransponível também reside no fato
de que a forma social da abstração real do valor vem da sua determinação
essencial lógica junto com a dissociação sexualmente determinada. Essa
dissociação dos momentos de reprodução social material, sócio-psíquica e
cultural-simbólica não se vincula diretamente à valorização do valor. No
entanto, essa dissociação surge como aspecto essencial abrangente, transversal
a todas as esferas, porque está sediada no plano da lógica básica ou da própria
matrix.
A manutenção dessa irracionalidade atravessou
o tempo e se transformou numa ameaça à humanidade e à natureza. Por quê? Porque
o valor-dissociação, que sucedeu outras relações sociais fetichistas e que
constitui o fundamento da sociedade capitalista, atingiu o seu limite com a
terceira revolução industrial. Nela, o capitalismo, mediante a microeletrônica,
tornou obsoleto, pela primeira vez, o trabalho. Ao tornar obsoleto o trabalho,
tornou obsoleta a sociedade capitalista com todos os seus fundamentos. Com
isso, o sonho de acabar com o masoquismo histórico já pode ser anunciado.
Na época da implantação e expansão da
sociedade do trabalho, essa abstração real do valor-dissociação instalou uma
dinâmica de valorização do dinheiro sem precedentes na história da humanidade.
Dissociou homens e mulheres. Tornou visível sua aparência. Ocultou sua
essência. Superou todos os limites. Provocou uma inversão da realidade. Fez da
disputa entre a economia e a política uma das fontes principais das guerras,
lutas e antagonismos ideológicos na modernidade. Criou uma situação e uma
oposição políticas que se candidataram para administrar crises passageiras e
cíclicas do sistema. Originou uma esquerda que, fundamentada na luta de
classes, insistia em modernizar essa sociedade de horror e, após sua revolução,
constituiu um horror de sociedade.
Uma sociedade que, em conseqüência do
fetichismo desta abstração real do valor-dissociação, não tem
consciência de si mesma, não decide livremente, não utiliza suas
potencialidades, não consegue organizar diretamente sua própria forma de
socialização.
Uma sociedade que através da política, Estado,
mercado, dinheiro, mercadoria, trabalho, economia, direito, etc. submete-se ao
domínio desse fetichismo. Um fetichismo que representa o trabalho e se expressa
no dinheiro. Um fetichismo que tem poder sobre todos os membros dessa
sociedade. Um fetichismo que coloca as relações entre as pessoas como relações
entre as mercadorias e das mercadorias.
Uma sociedade que canta as mercadorias e suas paixões
e para a qual essa abstração real é uma obviedade axiomática, um pano de fundo
tácito, uma lei natural, ontológica e eterna da existência humana e que é
terminantemente proibido questionar.
Hoje, essa abstração real do valor-dissociação
fez morada em todas as bases dessa sociedade. Impregnou todos os seus aspectos.
Apossou-se da mente, do corpo e da alma do ser humano. Transformou tudo em
mercadoria. Vive da inconsciência humana e a envolve em um irracionalismo de
crenças. Reina através da servidão voluntária. Acentua a mutilação da
humanidade. Amesquinha a criatividade e dissemina a esquizofrenia. Amplia o patriarcalismo, o machismo, o racismo, o preconceito, a
discriminação, o anti-semitismo. Reproduz o nacionalismo, a xenofobia, a
homofobia, o fundamentalismo, o terrorismo. Alimenta o estupro, o prostiturismo, a censura, a tortura, a exploração.
Dissemina o desemprego, a exclusão, a perseguição, a opressão, a morte.
Incentiva as guerras. Propaga a violência. Destrói a natureza. Instala a
barbárie. Agora, a situação e a oposição políticas se colocam como
administradoras da crise da fronteira histórica do sistema produtor de
mercadorias. Com isso, transformam suas administrações em atos de barbárie.
Afinal, quando o capitalismo se depara com sua barreira histórica, a
conseqüência é o assassinato da humanidade e do planeta.
Imaginar a
superação deste assassinato é refletir sobre a superação não só da nossa época,
mas da história das relações de fetiche em geral. O fetichismo nos acompanha
desde os primórdios da humanidade. Por causa disso, a nossa história é a
história das relações fetichistas. Vale dizer, não só a história
contemporânea. Por mais diferentes que as relações sociais tenham sido na
história das sociedades até aqui existentes, uma conclusão se impõe: todas elas
foram dirigidas por meios fetichistas. Nunca existiram, portanto, sociedades
autoconscientes que pudessem decidir livremente sobre o emprego de suas
possibilidades. O moderno sistema de produção de mercadorias representa,
apenas, a última forma social da dinâmica cega do fetichismo.
O mundo capitalista passa, a partir de agora,
a ser dimensionado como uma etapa passageira na história da humanidade. E a consangüinidade, o totemismo, a propriedade do solo e o valor
passam a ser considerados como etapas mais longas do processo através do qual o
ser humano se despregou da natureza, tornando-se um ser relativamente
consciente em relação à primeira natureza, mas não ainda em relação à segunda
natureza, que é a sua própria conexão social criada por ele mesmo.
Com isso, evidencia-se a resposta para a
verdadeira dimensão da crise mundial no século XXI. Trata-se da superação não
só da história capitalista, mas da história existente até agora. Não só a era
da Guerra Fria chegou ao fim. Chegou ao fim também a história mundial da
modernização. Não apenas essa história especificamente moderna, mas a história
mundial das relações de fetiche em geral. Agora , o
moderno sistema de produção de mercadorias atinge sua barreira histórica e
expõe seu fracasso. Um colapso histórico do sistema com todas as suas relações
sociais correspondentes que se manifesta como colapso financeiro, colapso
ecológico, colapso da sociedade do trabalho, colapso da política e Estado
nacional, colapso das relações entre os sexos, colapso...
Será possível superarmos essa abstração real
do valor-dissociação? Será possível irmos para além do sistema produtor de
mercadorias? Será possível construirmos uma sociedade desfetichizada,
a sociedade da emancipação humana?
Esta possibilidade está diretamente
relacionada à descoberta da essência ou substância categorial da formação
histórica das sociedades capitalista e socialista. Anteriormente, esse enigma
permaneceu e hoje ainda permanece por ser refletido e também criticado. Por
causa disso, a emancipação só pode ser consciente. A crise e o colapso, muito
pelo contrário, acontecem num processo inconsciente de desenvolvimento
objetivado.
Daí que os seres humanos poderiam emancipar-se
sem que o capitalismo entrasse em colapso. A convocação para esta gigantesca
realização histórica, no entanto, não mereceu uma chamada transnacional à
altura de seus desafios. Hoje, o capitalismo entra em colapso e os seres
humanos ainda não se emanciparam. O resultado disso é que estamos caminhando
para o autoaniquilamento da humanidade ou a barbárie.
Esta situação vai se desenhando frente aos nossos olhos. Até agora também não
havia nenhuma convocação transnacional para superarmos essa catástrofe. Mas,
encarar e responder a estes desafios tornou-se incontornável. Nesse sentido,
urge construirmos um ambiente favorável para o pensar
e o agir emancipatórios.
Esse é o objetivo do Fórum Transnacional Antifetichista. A idéia de sua realização, apresentada num
debate acerca da natureza da crise atual, no Fórum Social Mundial/2009, em
Belém, contou com a adesão de um expressivo contingente de pessoas que
participavam de uma acalorada discussão sobre a superação da crise. Neste
espaço, foi debatida a urgente superação da paralisia do pensamento moderno e
pós-moderno e construção de um novo movimento de transformação de toda a
sociedade capaz de sair da imanência e ultrapassar o sistema produtor de
mercadorias. Todos(as) presentes assumiram, com base nesse compromisso, a
organização e realização do fórum para o mês de janeiro de 2010
em Fortaleza, Ceará.
Com base nesta decisão e em contato com
interessados(as) no Brasil e em outros países, estamos transmitindo a você a
convocação transnacional do fórum para que juntos possamos encarar o quarto
proibido, escancarar sua porta, devassar o seu interior e revelar os seus
segredos.
Afinal, quando o impensável descobre e o
impossível supera o invisível fundamento não só do capitalismo com suas
categorias fundantes e dissociação sexual, mas o
sujeito e suas aventuras, nasce a sociedade da
emancipação humana.
Um abraço!