O REINO DA CONTEMPLAÇÃO PASSIVA
Anselm Jappe
Gostaria de começar precisando algumas idéias de
Guy Debord, autor do livro A Sociedade do
Espetáculo que dá, num certo sentido, o título a todo este ciclo de
conferências. Como foi justamente sublinhado nas contribuições dos
organizadores e de alguns dos conferencistas dos quais pude ler os resumos, a
crítica radical do espetáculo formulada por Debord
vai muito além de uma simples crítica à televisão e aos meios de comunicação de
massa. Ele mesmo disse: "O espetáculo não pode ser compreendido como um
abuso do mundo visível, produto das técnicas de difusão massiva das
imagens." Reconhecer, hoje, um valor "profético" no livro de Debord publicado em 1967 é portanto
fácil, mas também redutivo, se se vê a perspicácia de
Debord somente no fato de ele ter pressentido uma
sociedade dominada por uma dúzia ou uma centena de canais televisivos de
entretenimento ou notícias-espetáculo. Atualmente está na moda, nos ambientes
que se crêem mais inteligentes, torcer o nariz diante do
"espetáculo", e existem diretores de televisão e idealizadores de
programas televisivos na Itália e ministros franceses que amam citar Debord e elogiá-lo. Todavia, Debord
já diz em seu livro: "O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma
relação social entre indivíduos, mediada por imagens", e que o espetáculo
compreendido na sua totalidade é ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo
de produção existente. De fato, ele fala da sociedade do espetáculo, isto é, de
uma sociedade que funciona como um espetáculo. Como Debord
não é mais um autor "marginal" ou "maldito" penso que
conhecem o conceito de sociedade espetacular que ele desenvolveu: trata-se de
uma sociedade baseada na contemplação passiva, onde os indivíduos, em vez de
viverem em primeira pessoa, olham as ações dos outros. Isto acontece não
somente sob o plano televisivo, e não somente na publicidade, mas também sob
muitos outros planos: na sociedade do espetáculo, também a política – incluindo
uma boa parte daquela que se proclama revolucionária – a cultura, o urbanismo,
as ciências baseiam-se sempre na distinção entre espectador e ator. Não existe
relação direta entre o indivíduo e o seu mundo, apesar deste mundo ter sido
produto dele. De fato, a relação é sempre mediada pela imagem, imagem esta
escolhida propositadamente pelos outros, isto é, pelos proprietários da
sociedade.
Talvez recordem também que Debord
distinguia em 1967 dois principais tipos espetaculares: aquele chamado
"difuso" das sociedades ocidentais, onde a vida real se aliena na
abundância de mercadorias de consumo e na contemplação das mesmas, e o
espetacular "concentrado" dos países totalitários, fascistas ou
stalinistas, onde a suprema mercadoria é a contemplação da perfeição do chefe.
Em 1988 nos seus Comentários sobre a sociedade do espetáculo, Debord anunciou que estes dois tipos de sociedade
espetacular fundiram-se no mundo inteiro, em um único
tipo que se chama integrado, isto é, em uma democracia da mercadoria com
traços autoritários.
Não me demorarei mais nos resumos das idéias de Debord. Gostaria somente de lembrar que o espetáculo do
qual ele fala é uma categoria social total que pode ser seguramente útil para
compreender a televisão de hoje, mas somente se se
levar em conta o fato de que, na sua ótica, a televisão é apenas um caso
particular de uma lógica bem mais ampla. Em outras palavras, a
televisão-espetáculo pode ser compreendida somente como produto de uma
sociedade espetacular. Esta afirmação pode parecer banal, mas a maior parte das
considerações sobre a televisão não diz quase nada sobre esta conexão. Somente
poucos comentaristas vêem na televisão o resultado lógico de uma específica
forma de sociedade, ou seja, do capitalismo plenamente desenvolvido, fordista e
pós-fordista como veio a existir depois da Primeira Guerra Mundial. As outras
teorias sobre a televisão ou alargam o campo excessivamente, ou então os
restringem demasiadamente. Muitas considerações, sobretudo no âmbito
jornalístico, sociológico, político e em toda a chamada "ciência da
comunicação"( que pelo menos na Itália
transformou-se, há alguns anos atrás, em uma verdadeira e própria faculdade
universitária que produz, enfim, um número recorde de desocupados) não se
interrogam nem mesmo sobre a estrutura do meio, não se colocam a questão
"o que é" a televisão e tão pouco arriscam um juízo. Perguntam-se
somente quais são os conteúdos transmitidos, quais análises
semânticas lhe podemos dar, como satisfazer ainda melhor o público, etc.
Na política italiana discute-se muito a televisão, sobretudo porque , como
sabem, o primeiro ministro Silvio Berlusconi é também proprietário das três
principais redes privadas. O objeto daquele debate é, contudo, somente decidir
quem deve possuir a televisão e determinar-lhe, portanto, os conteúdos. Em
outros países, como a França e os Estados Unidos, discute-se ao contrário,
animadamente, sobre a taxa de violência e obscenidade na TV e sobre o efeito
que isso tem sobre as crianças. Nestes, e em tantos chamados debates públicos,
não existe, pois, obviamente, qualquer conceitualização
da relação entre sociedade e TV, porque a existência da TV, assim como a
existência da sociedade na qual vivemos, é de tal modo evidente e
"natural" para estas "opiniões públicas" e para seus
representantes, que não pode nem sequer ser percebida, como tudo ique é bastante óbvio. (Aqui falo sempre de televisão, no
entanto, naturalmente este discurso se aplica a todos os meios eletrônicos em
geral, ao cinema, à Internet, à realidade virtual, etc.) Mas deixando de lado a
inutilidade de repeti-lo todas as vezes, é verdade
que, ao nível de massa, a importância da TV como meio de acesso ao mundo supera
desde muito tempo aquela de todos os outros meios colocados juntos. Não falo,
porém, de "comunicação". Rádio e televisão são meios eficientíssimos
para impor unilateralmente as ordens a quem os escuta, mas como comunicação
entre indivíduos, os dois contam muito pouco.
Não me detenho mais sobre esse tipo de discussão –
muitas vezes, aparentemente, apaixonante – que gira somente em torno dos
detalhes, senão simplesmente em torno da repartição do espólio, isto é, do
acesso ao microfone. Neste ciclo de conferências, freqüentemente, há maior
andamento o tipo oposto de raciocínio: aquele que vê na televisão um caso
particular de uma lógica secular, senão milenar, do "ver" e da
"imagem". Dado que a televisão é uma transmissão de imagens, muitos
pensam que para compreender a televisão é necessário interrogar a própria
faculdade visual do homem e a estrutura da imagem enquanto tal, e a forma do
seu consumo. Nestes teóricos são abundantes, pois, as referências a isto que
eles chamam "metafísica ocidental", a Platão e a sua condenação das
imagens, às teorias medievais sobre o ver , à
fenomenologia da percepção, à relação entre a visão e os outros sentidos e à
particular configuração que esta relação assumiu na história européia. O
sucesso que a televisão obteve, a partir do seu início, no mundo inteiro, seria
o resultado de uma fome de imagens, uma fome congênita do homem; o mesmo Debord cita o sociólogo americano Daniel Boorstin que escreveu nos anos cinqüenta um dos primeiros
estudos críticos sobre a televisão e comenta: "Assim, o que acontece é que
Boorstin vê a causa dos resultados que ele descreve
no desgraçado encontro, quase fortuito, entre um excessivo aparato técnico de
difusão das imagens e uma excessiva atração dos homens da nossa época pelo
pseudo-sensacional. Deste modo o espetáculo dever-se-ia ao fato de que o homem
moderno é demasiado espectador." Muitas considerações similares poderíamos
fazer sobre autores mais recentes como Neil Postman e
o seu livro, que em alguns aspectos parece interessante, Amusing
Ourselves to Death (Divertir-se
até a morte), publicado em 1985 mas que, até onde eu
sei, não existe no Brasil, diferentemente de outros livros do mesmo
autor.
Neste tipo de teoria, o caso particular, a
televisão, apresenta-se, portanto, ligado a algo de
muito mais geral, quase a uma pressuposta "natureza humana" de tipo
antropológico ou ontológico. Estas considerações não são necessariamente
erradas. Mas não ajudam a compreender a especificidade do fenômeno. Tendem a
"afogar o peixe", como se diz em francês. É igualmente verdade que o
excesso de tráfego automobilístico tem muito a ver com a necessidade humana de
locomover-se, ou que toda produção material tem a ver com a necessidade de
comer. Mas a partir de pressupostos tão gerais não se consegue nunca
compreender porque o ver, o mover-se, o comer assumiram uma particular
afirmação em um dado momento, dizemos em 1500 ou em 2000 e não uma outra qualquer. Afogar o conceito de sociedade do
espetáculo num mar de considerações sobre a imagem enquanto tal, e sobre as
críticas ligadas à imagem enquanto tal, como o faz o francês Régis Debray, inventor de uma suposta "midiologia",
ou procurar as supostas raízes metafísicas da – na verdade rara – desconfiança
nos meios eletrônicos serve, freqüentemente, em intenções polêmicas, a
esquivar-se de qualquer debate sobre a TV e a sua sociedade hoje, e para
afirmar, ao invés, que os críticos da TV e do espetáculo são somente a reedição
de uma atitude que existe desde dois mil anos: aquela de condenar o fascínio
superficial e fútil pelas imagens, as formas visíveis e as cópias, porque
distraem da compreensão intelectual, noética das
verdadeiras essências. Os fustigadores da crítica ao
espetáculo não deixam de sublinhar, por outro lado, que esta crítica às imagens
é, ao menos hoje, mas talvez desde sempre anticientífica, antidemocrática, religiosa, antiprogressista. Criticar a televisão hoje eqüivale ,
aos seus olhos, à condenação do livro publicado por Platão que em seguida
escreveu muitos livros: uma atitude, portanto, ainda mais hipócrita e
impraticável na realidade. Platão parece em geral o alvo dos defensores
modernos da TV que fazem dele uma espécie de precursor dos talibãs ( e não mais de Stálin, Hitler , como fez Popper). Melhor
vale portanto , segundo eles, utilizar bem um novo
meio, quando aparece. (Faço com que notem, incidentalmente, que esta
equiparação de críticas, na verdade pertencente a contextos muito diversos,
isto é, os da condenação platônica da arte com as críticas
modernas à sociedade espetacular, corresponde ao sofismo de quem
responde aos críticos do uso da energia nuclear que também os primeiros trens
foram recebidos às vezes por medos apocalípticos e pela demonstração da sua
extrema periculosidade, e que se trata, portanto, em ambos os casos, de simples
capricho frente ao novo).
Convém então sublinhar, desde já, que a estrutura
essencial da televisão não é somente ligada à imagem. A TV não é essencialmente
uma transmissão de imagens. Os meios eletrônicos podem também dirigir-se a
sentidos diversos da vista sem que mudem muito. O demonstra um simples fato:
algumas das críticas talvez mais pertinentes da televisão, como aquelas de
Theodor Adorno e de Günther Anders – sobre as quais
retornarei – foram desenvolvidas nos anos trinta e quarenta e se aplicavam,
então, somente ao rádio porque a televisão ainda não existia. No livro O
homem é antiquado de Anders, publicado em 1956, vê-se que ele começou a sua
análise dos meios de comunicação falando do rádio acrescentando pouco a pouco
observações sobre a TV sem que mudasse nada de essencial na sua argumentação.
As famosas considerações de Adorno e Horkeimer sobre
a "indústria cultural", publicada em 1947, foram desenvolvidas
analisando o cinema e o rádio. A televisão apresenta muito menos analogias com
o cinema – apesar de se tratar sempre de imagens e que o mesmo filme possa ser
transmitido seja no cinema seja na TV – do que com o rádio, embora as
transmissões radiofônicas e televisivas não sejam interpermutáveis.
Mas nos traços essenciais, TV e rádio são semelhantes entre si e não foram
modificados desde o início: cada ouvinte e espectador está isolado no seu
cubículo doméstico , onde o mundo lhe vem fornecido em
casa de forma escolhida pelos outros. A questão essencial não é se se transmite imagens, imagens e sons juntos ou somente
sons. Essencial é a relação social entre indivíduos e a relação entre o
indivíduo e o mundo. Além disso, hoje a televisão freqüentemente não é nem
mesmo assistida, mas serve somente para proporcionar um fundo de barulho;
outras vezes, com o zapping, com as telas divididas
em mais telas, com os spots publicitários ou com os vídeo-clipes,
não se vêem nem mesmo mais imagens em sentido normal ,
mas somente um amontoado de cores em movimento no qual não se presta nenhuma
atenção.
Alguns críticos da televisão, como o já citado Postman, associam a sua crítica da TV a uma crítica geral
do predomínio moderno da imagem sobre a palavra falada e escrita, sustentando por exemplo que a imagem suporta tanto mais contradições
ocultas quanto suporta o discurso escrito, e que no fundo somente a escritura,
isto é, o texto isolado e impessoal educa para o pensamento coerente, lógico,
analítico, objetivo, destacado e racional, e ensina a classificar e a deduzir;
enquanto a imagem, a partir da fotografia, é uma violenta exposição de fatos
desordenados de fora do contexto que freqüentemente contém juízos dissimulados.
Este tipo de consideração é sem dúvida interessante, mas diferente do que se
afirma muitas vezes, a crítica aos meios eletrônicos não é a simples
continuação de uma longa tradição, sobretudo francesa, de desconfiança no
olhar, a favor do corpo ou de outros sentidos, ou a favor de uma noção fetichizada de imediatismo (penso por
exemplo no histórico americano da filosofia de Martin Jay e de seu livro com um título significativo Downcast eyes. The Denigration of Vision in Twentieth-Century
French Thought, isto é,
a "Difamação da vista no pensamento francês do século vinte", onde
ele fala também de Debord). Em cada caso esta
filiação da crítica do espetáculo com uma pressuposta desconfiança geral na
imagem, não é com certeza reencontrável em Debord, que não somente realizou cinco filmes,
diversas obras de colagem e uma revista, Internacional Situacionista,
que estava entre as primeiras revistas intelectuais a conter imagens. Mas ele
também escreveu no prefácio do Panegírico II, composto quase exclusivamente por
fotos com legendas e publicado postumamente: "As mentiras dominantes da
época estão em condições de fazer esquecer que a verdade pode ser vista também
nas imagens. A imagem, que não foi intencionalmente separada de sua
significação, acrescenta muita precisão e certeza ao saber. Ninguém disto
duvidou antes dos recentes últimos anos. Eu me proponho a lembrá-lo agora. A
ilustração autêntica esclarece o discurso verdadeiro, como uma proposição
subordinada que não é nem incompatível nem pleonástica".
Não quero todavia aqui
repetir as diversas análises críticas sobre a televisão enquanto produto da
sociedade capitalista tardia, dado que seguramente vocês as conhecem. Sem
pretender necessariamente exigir que se trate das melhores críticas, ou das
únicas críticas, utilizo como pressuposto aqui os textos sobre os meios de
comunicação de massa escritos por Debord, por Theodor
Adorno e por Günter Anders. Vi que a crítica que Adorno e Max Horkheimer dirigiram à "indústria cultural" é
objeto de uma outra palestra que terá lugar aqui, e
que os seus livros estão traduzidos no Brasil e bem conhecidos por um certo
público. Por isso, não me deterei nisto. Não parece, ao invés, existir uma
tradução em língua portuguesa de O homem é antiquado, a obra maior de Günther Anders, um filósofo alemão nascido em 1902 e morto
em 1992 (acrescento porém que vi que este livro foi
discutido recentemente na USP e que pelo menos um texto de Anders, sobre Kafka,
foi publicado no Brasil em 1969, e que Sérgio Buarque de Holanda, em ensaio de
1952, menciona este livro sobre Kafka, que foi publicado apenas na Alemanha).
Anders era na origem fenomenólogo e discípulo de
Husserl e de Heidegger, mas a experiência do nazismo e do exílio na América,
onde teve que trabalhar em uma fábrica, conduziu-o a uma crítica fundamental da
sociedade industrial. Particularmente famosas são as suas considerações sobre a
bomba atômica. Encontra-se em seu pensamento algumas referências ao marxismo,
mas o seu pensamento consiste essencialmente em uma consideração sobre a
relação entre homem e mundo com categorias fenomenológicas às vezes similares
àquelas de Husserl ou de Heidegger. Falam porém de
fenômenos atuais e levam a conseqüências políticas radicais. O próprio Anders
indica então as suas três teses fundamentais: nós homens não estamos à altura
da perfeição dos nossos produtos; aquilo que produzimos excede a nossa
capacidade de imaginar e a nossa responsabilidade; acreditamos que nos é lícito
ou absolutamente obrigatório fazer tudo aquilo que podemos fazer. O tema
principal de Anders é a discrepância que existe entre os novos meios técnicos
criados pelo homem, do qual o caso mais visível é a bomba atômica, de um lado,
e do outro as suas capacidades de imaginar, sentir, pensar que ainda são as
mesmas – portanto antigas, antiquadas. No primeiro
volume de O homem é antiquado, Anders dedica os dois capítulos
principais à bomba atômica, ao rádio e à televisão. Falarei disso novamente
mais tarde. Evidentemente não posso aqui fazer um resumo detalhado da obra de
Anders, mas seria bastante desejável que um editor brasileiro se lançasse na
tarefa não fácil de uma tradução dos seus textos, cuja atualidade é ainda mais
ampliada com a invasão da biotecnologia.
Porém é digno de nota que muitas observações sobre
a televisão que ainda hoje parecem muito pertinentes – como aquelas de Adorno,
Anders ou Debord – foram feitas em uma época na qual
a televisão estava ainda no seu início, ou se aplicavam até então ao rádio,
como eu já disse. Era a época das transmissões somente em preto e branco, em um
só canal, transformando-se em seguida em dois ou no máximo três, todos
estatais, muito educativos e pouco divertidos, quase sem publicidade, e que em
cada caso transmitia somente da metade da tarde até à
meia-noite no máximo, quando terminavam com o hino nacional: os mais jovens
entre vocês acreditariam nisto a muito custo. Todavia, foi
precisamente naquela época, que hoje pode parecer bucólica ou arcaica, que
foram lançadas as análises mais apocalípticas no que concerne ao impacto da TV
sobre a sociedade e sobre a vida cultural, social, política e familiar. Naquela
época, personagens notórios – se me recordo bem, até o chanceler alemão da
época - propunham instituir um dia semanal sem a televisão porque esta era
considerada bastante invasora. Hoje, com um valor centuplicado da televisão
sobre a vida social, quase todas as críticas desapareceram. Propor um dia
semanal sem a TV suscitaria algo de hilário comparável àquilo que suscitaria
talvez a proposta de nós todos caminharmos de quatro patas. Por um lado, isto
tem a ver com o fato de que freqüentemente é mais fácil reconhecer, e portanto criticar, os traços distintivos de um fenômeno
quando este está no seu início, apesar de que os seus contornos possam ser
ainda disformes. Mas o que conta é sobretudo isto:
somente quem cresceu em uma sociedade sem televisão foi capaz de notar a
passagem e de observar as mudanças. Para quem ao invés a conhece desde o seu
nascimento, pode parecer divertido discutir se a TV deve existir ou não, do
mesmo modo em que se poderia fantasiar um mundo sem gravidade. Vejo isto nos
estudantes do curso de "Arte-mídia" na Academia das Belas Artes onde
eu dou aulas: as críticas à TV lhes interessam, não lhes faltam espírito
crítico, sobretudo no que diz respeito aos conteúdos das transmissões. Mas a
existência da TV é para eles tão evidente e natural como a do ar que
respiramos. Vem logo em mente a afirmação contida nos Comentários de Debord de 1988: o sucesso maior do espetáculo é ter feito
crescer uma geração que jamais conheceu outra coisa senão o espetáculo, uma
geração para a qual o espetáculo é todo o mundo e por isso falta qualquer termo
de comparação.
Partamos, pois, do pressuposto de que seja a
sociedade contemporânea a criadora da televisão e que a televisão não obedeça a
uma lógica autônoma. Não é a relação entre o raio de luz e a retina que nos
explica a televisão, mesmo porque esta relação não foi muito diferente para os
antigos egípcios ou no tempo de Platão. Isto não significa, todavia, que a
televisão e os outros meios eletrônicos caíram do céu: eles foram implantados
sob antigos males. Uma sociedade que pôde inventar a televisão e fazer dela o
supremo feitiço estava já evidentemente podre e isto aconteceu porque era a continuação de outras sociedades inconscientes de si mesmas.
Este é o ponto capital freqüentemente esquecido por aqueles críticos que
apresentam a televisão como uma espécie de gênio maligno, uma caixa de Pandora
vindo inexplicavelmente perturbar uma vida que antes era harmoniosa e feliz. Na
verdade o ardor com o qual a televisão é aceita praticamente em todos os
lugares e sempre, não se explicaria se ela não encontrasse já uma situação de
forte tédio que faz parecer preferível olhar uma tela. A solidão que comporta a
televisão não seria suportada por quem vive em um mínimo de comunidade
verdadeira. É particularmente difundido lamentar o impacto negativo da TV sobre
a vida familiar. Fez-se notar que a tradicional mesa de jantar, em torno da
qual a família se reunia olhando-se no rosto e falando, desapareceu em proveito
da televisão em frente à qual os membros da família se alienam olhando para um
ponto de fuga comum em vez de olharem um para o outro, isto se os membros da
família não dispõem de uma TV em cada quarto. Mas esta forma demente de vida
familiar não seria difundida assim tão rapidamente se as pessoas não estivessem
fartas de ouvir pela milésima vez os relatos do avô sobre a guerra e dos pais
sobre o trabalho, ou as queixas sobre o tempo, ou sobre o preço dos tomates,
discursos que são eles mesmos fruto de uma vida tornada esvaziada pela razão
econômica. A mesa familiar era também um instrumento de controle onde ninguém
escapava do olhar vigilante do chefe da família que queria ver se a filha
envergonhava-se ouvindo um determinado nome. Tudo isto não significa porém, como querem muitos, que a TV foi um instrumento de
emancipação ou de liberação dos costumes, mas significa que a específica forma
de alienação que representa a TV é a continuação de outras formas de alienação
social, e não o resultado mecânico de uma invenção técnica.
Esta última evidência deveria ser suficiente para
contrariar as bastante conhecidas teorias de Marshall McLuhan
que apresentou, com tom entusiasta, "a aldeia global" criada pelos
meios eletrônicos como o resultado de uma revolução tecnológica comparável às
revoluções produzidas pela invenção da roda, ou do estribo, ou da imprensa:
invenções que segundo McLuhan, teriam todas as vezes criado um novo tipo de sociedade, de mentalidade,
de cultura, de economia. Para reduzir à justas
proporções esta teoria, basta recordar que as invenções, enquanto feito
técnico, não se difundem nunca antes de que exista já uma sociedade que
necessite delas. De fato muitas invenções foram feitas mais vezes na história,
mas inicialmente sem conseqüências, permanecendo um mero brinquedo, até que não
existisse o contexto apropriado. A máquina a vapor foi já inventada na
antigüidade, em Alexandria. Mas em uma sociedade onde o trabalho era
desenvolvido pelos escravos, não existia necessidade de máquinas que
mecanizassem o trabalho, porque, segundo a mentalidade então dominante, os
escravos seriam os únicos beneficiários. Somente uma sociedade como aquela
inglesa do final do século dezoito na qual existia uma larga disponibilidade de
mão-de-obra "livre" e que foi ela mesma o resultado de uma longa
história de expropriação, (somente uma tal sociedade)
sabia utilizar-se de uma máquina a vapor que permite a um operário produzir
vinte camisas no lugar de uma. Nos séculos antecedentes, máquinas capazes de
incrementar a produtividade – e portanto de diminuir o
número de operários necessários para a produção – foram inventadas, mas
propriamente por este motivo – isto é, teriam tirado o trabalho dos pobres e
perturbado a ordem social – foram algumas vezes queimadas junto com os seus
inventores, em vez de serem colocadas na produção. Existem também os exemplos
de canhões e espingardas, dos submergíveis e aparelhos voadores inventados na
Idade média pelos chineses, mas não utilizados, ou das rodas conhecidas pelos
maias, mas utilizadas somente para brinquedos. Em suma, a tecnologia depende da
sociedade e não é um fator autônomo. Não foi a invenção do tubo catódico que
criou a sociedade do espetáculo.
Mas quem criou então esta sociedade? Teóricos,
mesmo divergentes como McLuhan e Anders concordam
sobre um ponto: a televisão não é um simples meio que pode ser indiferentemente
colocada a serviço de diversos objetivos. A sua estrutura, a
sua forma prejudicam fortemente o seu uso. Como disse McLuhan, "o meio é a mensagem". Ele o diz com
intenção apologética, quando os críticos da TV apresentam a mesma afirmação
como uma crítica. Mas qual é finalmente esta estrutura, senão é nem meramente
tecnológica, nem é um simples caso particular da lógica da visão e da imagem?
As análises mais críticas sobre a relação entre a
televisão e a sociedade colocam sobretudo em evidência
a contemplação passiva e isolada a que conduzem os meios eletrônicos. Para além
dos conteúdos, o espectador está sempre condenado a olhar o que fazem os
outros, sem ter nenhum poder sobre a própria vida. O que caracteriza a
televisão não é o fato de simplesmente olhar, mas de somente olhar, o olhar
imóvel, a contemplação inerte: é isto que caracteriza a televisão e faz dela a
expressão de uma sociedade na qual tudo é espetáculo, como disse Debord: não porque tudo é espetacular no sentido de
sensacional, colorido, emocionante, vistoso – de fato como Anders observa com
razão, a televisão nem sempre sensacionaliza os
eventos, mas outras vezes banaliza e apresenta certos eventos, por conta do
formato pequeno de sua tela, do acompanhamento musical, etc,
em uma roupa mais inocente do que eles têm na realidade. Se Debord
disse que tudo é espetáculo, é pelo fato de que tudo, da política ao tráfico,
das cidades à cultura tende a produzir e reproduzir o indivíduo isolado,
portanto massificado que se encontra em um estado de completa impotência frente
ao mundo que na verdade é o resultado de suas ações. Ele não faz outra coisa
senão olhar este mundo, portanto ser um espectador do espetáculo.
Mas esta contemplação não é fruto de uma preguiça
ontológica, mas o resultado de uma ordem social que vive graças à passividade.
E é este fato que liga a temática da televisão àquela da mercadoria. Esta
conexão é freqüentemente afirmada, mas raramente desenvolvida(
Debord a desenvolve, porém, mais do que outros).
Porque a televisão é uma mercadoria? Não somente porque os aparelhos são
mercadorias e porque em geral se paga para receber as transmissões – um fato
que é quase insignificante. E não somente porque, como todos sabem, as
emissoras televisivas jogam um papel de primeiro plano ao promover as vendas de
cada gênero de mercadorias. E não só porque propõem incessantemente os estilos
de vida baseados propriamente sobre um incessante consumo de mercadorias.
Um motivo, que é o mais fundamental, está na
estrutura da mercadoria, e particularmente no fetichismo da mercadoria. Este
conceito foi desenvolvido por Karl Marx e se apresenta a uma atenta observação
como uma espécie de núcleo secreto de toda a sua análise da sociedade capitalista.
Mas poucos dos seus presumíveis discípulos, isto é, os marxistas, retomaram
este conceito. Entre estes poucos encontramos, porém, Debord,
assim como G. Lukács ou Adorno, mesmo que o tenham
feito de modos diversos. Nos últimos tempos foi sobretudo
o grupo alemão Krisis – conhecido também no Brasil
através de diversas traduções e de artigos regulares de Robert Kurz na Folha de São Paulo – que desenvolveu as análises do
fetichismo da mercadoria.
O "fetichismo da mercadoria" não
significa somente uma adoração dos bens de consumo, um excessivo investimento
afetivo sobre eles, como o termo poderia fazer pensar à primeira vista. Não
indica, nem mesmo, somente uma forma de consciência mistificada, que vela o
verdadeiro funcionamento da exploração capitalista, como quer a vulgata
marxista. O conceito de fetichismo indica sobretudo
isto: na sociedade capitalista da mercadoria, a produção não acontece para o
seu conteúdo, para o seu valor de uso. Acontece para incrementar o valor, o
valor de troca das mercadorias, e este valor é determinado pela quantidade de
trabalho que foi necessária para produzir a mercadoria – quer seja material ou
imaterial não tem importância. Não é determinado pela quantidade de trabalho
concreto e real, mas de trabalho simplesmente, de trabalho indiferenciado, de
trabalho abstrato, como disse Marx. Na ótica da produção capitalista de
mercadorias, a produção de objetos concretos é somente um aspecto secundário; o
que conta é transformar o trabalho vivo em trabalho morto, objetivado, passado,
e esta transformação deve acontecer segundo os parâmetros de produtividade
vigentes naquele momento. O destino de um produto, e de toda a produção, não
depende da sua real utilidade para alguém, nem da sua beleza, nem do seu valor
simbólico, mas da sua capacidade de ser vendido, de modo que o valor de troca
contido nele volte a alimentar um ciclo sempre ampliado de produção e consumo.
A questão de, por exemplo, se produzir caças bombardeiro ou pães não depende de uma decisão consciente e coletiva que leva em
conta as necessidades sociais, mas depende do proveito que se pode obter com
uma ou outra coisa. Isto, todos nós sabemos. Não se trata, contudo, somente de
uma aberração moral, ou de um defeito imputável exclusivamente à avidez de
certos indivíduos ou classes sociais. A sociedade baseada na produção de
mercadorias se apresenta a cada um como um sistema já dado. Embora esta
sociedade seja incontestavelmente um produto da ação humana ,
ela é opaca e impõe a cada um as suas regras. Na sociedade da mercadoria o
sujeito não é o homem, o sujeito é o valor e a mercadoria, o dinheiro e o
capital, o mercado e a concorrência. São estas criações do homem a governar a
sociedade humana sem que nela exista sequer a consciência deste fato, porque
este processo se apresenta como "natural" aos sujeitos envolvidos.
Nem toda sociedade é porém uma sociedade da
mercadoria, porque a mercadoria não é uma categoria suprahistórica
como o "bem" ou o "produto", mas é uma determinada forma
histórica deles.
A sociedade da mercadoria criou forças muito
maiores do que aquelas de que dispunham outras sociedades, chegando ao ponto de
poder devastar o mundo inteiro. Mas ao mesmo tempo, o homem moderno tem ainda
menos poder sobre estas forças do que seus predecessores. Não pode fazer outra
coisa senão contemplá-las e fazer-se governar por elas. ( Eu
renuncio aqui às considerações sobre outras formas de alienação e fetichismo
que reinavam em sociedades precedentes que naturalmente não constituíam um
Éden. "Não se pode fazer outra coisa" não significa que se trata de
um destino invencível em absoluto, mas que esta é uma conseqüência lógica
enquanto se vive em uma sociedade da mercadoria.
Compreende-se, então, que o conceito de
"sociedade do espetáculo", onde o homem é reduzido a um papel de
espectador, imerso em uma contemplação passiva, indica uma sociedade
historicamente bem determinada, isto é, a sociedade da mercadoria plenamente
desenvolvida, assim como veio a existir, a grosso modo,
dos anos vinte em diante. De fato, a primeira frase do livro A sociedade do
espetáculo soa: "Toda a vida das sociedades modernas nas quais
predominam as condições modernas de produção se apresenta como uma imensa
acumulação de espetáculos"; esta frase é idêntica à primeira d’O
Capital de Marx, que começa precisamente com uma análise fundamental da
mercadoria. Debord somente substituiu a palavra
"mercadorias" pela palavra "espetáculos", com a técnica
situacionista do desvio. Compreende-se logo, isto: que o espetáculo do qual
fala Debord é um estágio no desenvolvimento da
mercadoria. O segundo capítulo do seu livro se chama "A mercadoria como
espetáculo", e os primeiros dois capítulos juntos constituem uma retomada
extremamente importante da análise marxiana do
fetichismo da mercadoria.
Como dissemos, na produção das mercadorias
desaparece o conteúdo concreto do objeto e do trabalho que o produz, conta
somente o trabalho como mera quantidade de tempo empregado ,
que Marx chama "trabalho abstrato". Toda a produção de mercadoria se
baseia num processo de "abstratificação",
de "tornar-se-abstrato", porque prevalece a mera quantidade sem qualidade. Isto é a abstração de cada
conteúdo. O espetáculo com a sua redução do mundo a um mero parecer, à imagem,
não é portanto outra coisa senão, como disse o próprio
Debord, uma posterior etapa no processo secular do
"tornar-se-abstrato" do mundo, iniciado no
Renascimento e continuado com maior força desde o final do século dezoito. Um
processo que não é fruto de uma misteriosa "metafísica ocidental",
como gostaria talvez um Heidegger, mas que é o resultado de um processo
material e social bem determinado, e por isto, no limite, também modificável. A
televisão é, portanto, uma espécie de apogeu da sociedade da mercadoria, não
somente porque faz vender, mas porque potencializa a estrutura fundamental da
sociedade moderna: a contemplação inerte, isto que o homem criou sem sabê-lo e
igualmente sem querê-lo. Eu aqui não desenvolvo esta análise, porque eu já a
fiz de um modo mais detalhado na primeira parte do meu livro sobre Guy Debord, publicado no Brasil pela Editora
Vozes.
Devo, porém, acenar com um outro
elemento de importância capital: o espetáculo assim como o entende Debord, não chega absolutamente a ocupar a realidade
inteira – muito diferentemente do que acontece segundo Jean Baudrillard, cujas
elucubrações são, para os observadores mais superficiais, com a teoria de Debord. Para Baudrillard, cópia e realidade são enfim indistinguíveis,
não existe mais uma realidade, um original, um significado e talvez nunca
tenham existido. A resignação satisfeita é a conseqüência lógica desta
perspectiva. A análise de Debord, muito pelo
contrário, considera a invasão das cópias em detrimento do original, da
aparência em detrimento da realidade como um escândalo. Não porque poderia
realmente alguma vez ter êxito no final das contas .
Mas porque são danos bastante reais que infligem a
realidade. O predomínio da mercadoria e do espetáculo significa igualmente um
grande empobrecimento da vida vivida. A mercadoria e o espetáculo são abstratificação e glacialização
da vida, são "uma negação da vida que veio a ser visível". Estes
constituem um reverso negativo, uma forma pervertida da vida, mas não podemos
nunca substituí-la por tudo.
Também Anders observou já nos anos cinqüenta uma
inversão operada pela televisão: "Quando o fantasma se torna real, a
realidade se torna fantasmagórica", escreveu, precisando que o fantasma
não é nem uma realidade, nem uma simples imagem, mas um ser do meio, com um
estatuto ontológico diferente. Assim, os contatos entre os homens reais e os
fantasmas assumem os contornos das clássicas histórias de fantasmas.
Seguramente, aqui, levantaremos questões para afirmar que o aspecto fraco desta
teoria, o seu lado "envelhecido" , superado,
seria propriamente o seu apego a noções como "original" e
"real", "cópia" e "aparência" categorias de forma
essencialística e pertencentes a uma procura
impossível do autêntico e do verdadeiro do qual o pensamento contemporâneo nos
últimos decênios estaria felizmente liberado. É evidente que nós assumimos,
aqui, um outro ponto de vista: somente quando
finalmente cresceu uma geração – já mencionada – que desde o seu nascimento não
conheceu outra coisa senão a cópia e a aparência, uma geração para a qual,
desde pequena, a realidade era aquela que transmitia a televisão, e não aquela
da qual eventualmente se podia fazer uma experiência direta, somente quando
esta geração chegou às cátedras pôde difundir-se a tese pós-moderna de que a
realidade não existe, e não por acaso isto aconteceu antes nos países onde a
desrealização da vida cotidiana estava já mais avançada.
Em última análise a televisão contribui para criar
o homem-mercadoria: um ser humano que não é simplesmente forçado pela
necessidade de entrar no ciclo de trabalho alienado e consumo de mercadorias,
como acontecia nos primeiros tempos da dominação capitalista na qual existia
ainda um real conflito entre uma esfera capitalista da vida e uma outra esfera – a família, a aldeia, o bairro, a
corporação – não dominada pela lógica da mercadoria, ou não completamente. O
triunfo dos meios eletrônicos iniciado entre as duas guerras mundiais coincide
com uma penetração capilar da mercadoria em cada esfera da vida, com uma
"colonização da vida cotidiana", como a chamou Debord.
Com a televisão desaparece o "fora" e o "dentro", não
existe mais uma esfera separada da mercadoria. Exceto para pequenas minorias,
não existe mais o desejo de beber que não seja o desejo de beber Coca-Cola ou um outro produto publicizado na
TV, não existem mais brinquedos feitos pela própria criança, mas somente
aqueles vistos sobre o plano televisivo, não existem comportamentos amorosos
diferentes daqueles das telenovelas, etc. Não quero aqui repetir análises já
feitas por outros sobre como a realidade vem, enfim, percebida somente por
intermédio dos esquemas mentais e perceptivos impostos pela TV. Anders disse,
há meio século, que agora os homens já não criam a sua própria linguagem, assim
como não cozinham mais o próprio pão em casa. Gostaria, porém, de sublinhar que
isto confirma a nossa análise da mercadoria como "forma social
total": um sujeito em forma de mercadoria, para o qual cada objeto de
percepção, desejo, sentimento ou pensamento é representado sob forma de
mercadoria. Também a função de "democratização" que muitos querem
atribuir à televisão consiste justamente no fato de todos tornarem-se iguais em frente a ela. A televisão repete nos confrontos
dos sujeitos o mesmo processo universal induzido pela lógica da mercadoria:
reduzir tudo a diferentes expressões quantitativas da mesma substância
indeterminada sem qualidade.
Podemos também falar de uma
verdadeira e própria "antropogênese
negativa" ou "regressiva". Os esforços milenares do homem para
aperfeiçoar a própria existência e enriquecer a sua relação com o mundo correm
o risco ainda de anular-se e o homem de cair em um estado de pobreza
existencial que na verdade jamais existiu no passado. Günther
Anders insiste no empobrecimento, ou melhor, na quase abolição da experiência
individual quando todo o mundo se encontra abastecido em casa como acontece com
o gás ou com a eletricidade. Todas as categorias tradicionais do ser-no-mundo, da relação dos homens com o seu mundo vêm
sendo postas em discussão pela existência do rádio e da TV, e não somente
quando existem 100 canais, mas já quando aparece a sua estrutura embrionária. O
fora e o dentro, a distância e a proximidade, o particular e o universal,
substituídos pela sucessão, a simultaneidade e a presença verdadeira
, o ser e o aparecer: todas estas distinções desaparecem. A televisão,
disse Anders, faz desaparecer o mundo sob a imagem do mundo. O mundo como mundo
se apresenta substituído por um modelo de mundo a uma escala reduzida que serve
para aprender e interiorizar os comportamentos que se deve
ter depois nos confrontos do mundo real.
No fundo, toda a sociedade da mercadoria é uma tal antropogênese negativa, um
passo atrás da humanidade. Em frente aos ídolos do mercado e da rentabilidade,
da mercadoria e do capital, o homem moderno não demonstra absolutamente uma
maior autonomia tanto quanto tinha o assim dito homem primitivo em frente ao
seu ídolo de madeira ao qual atribuía aqueles poderes que na verdade eram os da
comunidade humana.
O entusiasmo com o qual recebemos esta regressão é
grande merecedor de uma explicação. Provavelmente nada é tão comum a todos os
habitantes do globo quanto a vontade de assistir à TV.
Sobre alguns conteúdos podem pesar as diferenças culturais, as bailarinas
seminuas suscitam talvez um escândalo na Arábia Saudita. Mas se se trata de assistir aos desenhos animados, podemos estar
seguros de que pelo menos isto aproximaria palestinos e israelenses, chechênios
e russos, habitantes das favelas e milionários americanos, aiatolás e atrizes
pornográficas. Anders afirmou já no ano de 1956 que muitos dos seus
contemporâneos prefeririam encontrar-se na prisão com uma televisão(
ou melhor, ele diz com um rádio) em vez de ser livre sem um tal aparelho. O que
devemos dizer hoje?
A primeira coisa que foi feita no Afeganistão
depois da derrota dos talibãs foi recomeçar as transmissões televisivas. Este
universalismo da TV se explica, por um lado, pelo fato de que ela é a vanguarda
da mercadoria, também em lugares onde a mercadoria não existe, ou quase não
existe. Aquela maioria da humanidade que não tem acesso a quase nenhuma das
mercadorias promovidas na TV não se cansa, porém, de olhar a promessa destas, o
espetáculo do espetáculo. No país mais pobre e retrógrado da Europa, a Albânia
em frente à Itália, os habitantes assistiam à televisão italiana durante a
longa ditadura stalinista, e depois da derrocada do regime em 1990 uma boa
parte deles se colocou em movimento para alcançar a Itália e ver a terra prometida , de modo que, finalmente, o ainda primeiro
ministro italiano Andreotti, conhecido pelo seu
cinismo, exclamou: " Mas essa gente pensava realmente que toda a Itália
fosse como nos espetáculos televisivos?" e mandou depois o exército
reenviar os iludidos para casa.
Em uma perspectiva ainda mais ampla, também
necessariamente vaga, poderia dar-se que o triunfo da televisão é, assim,
universal porque ela vem ao encontro de um profundo infantilismo da humanidade
e a um desejo de regressão. Assim como o indivíduo, também a humanidade poderia
sentir cansaço e resistência diante do processo de tornar-se adulto. A cultura
da epopéia ou do romance burguês é claramente uma cultura dos adultos. De fato,
as crianças não entendem um romance, uma epopéia ou uma poesia. A televisão ao
invés, como notava Adorno nos anos sessenta, dirige-se a um espectador da idade
de onze anos. Desde então, esta idade target
foi ainda notavelmente diminuída. Os desenhos animados dos quais falava antes
como o produto mais universalmente amado pelos telespectadores são
perfeitamente desfrutáveis por um menino de três anos. Vi recentemente durante
uma breve viagem ao mar que um ângulo do navio com brinquedos e desenhos
animados foi proposto às crianças para evitar a vista do mar e da costa. Mas a
maior parte dos espectadores eram pessoas ditas adultas. "Em nenhuma parte
existe acesso para a idade adulta" dizia Debord
em um de seus filmes, e nem sequer à infância verdadeira, podemos acrescentar,
mas somente à "infantilização". Porque nisto tem razão Neil Postman com o seu livro O desaparecimento da infância,
publicado também no Brasil: os espetáculos televisivos, indistintamente
propostos aos espectadores de todas as idades, têm de fato abolido
aquela infância que a cultura do livro impresso ajudou a criar, enquanto a
televisão trata de novo as crianças como pequenos adultos – mas adultos por ela
tornados infantis, devemos acrescentar.
Mas a antropogênese
negativa da qual a televisão é um fator poderoso é verdadeiramente fatal, como
afirmam com resignação Postman, Baudrillard e tantos
outros? É bastante cedo para dizê-lo. Posso dizer que no povoado italiano onde
vivo – que seguramente não constitui uma exceção – os mesmos idosos que não
querem permanecer uma noite em casa sem a TV exprimem freqüentemente nostalgia
para com o tempo passado no qual à noite eles se reuniam para cantar, ou no
qual as mulheres lavavam as roupas juntas à fonte, trocando bisbilhotices do
país, em vez de assistirem cada qual sozinha às telenovelas. Outra observação: quando
há alguns anos na Itália propôs-se um plebiscito para pedir a abolição dos spots
publicitários nos filmes, os adversários desta iniciativa – que visava
limitar o grande poder de Berlusconi – procuravam difundir a impressão de que
se tratava de um plebiscito pró ou contra a televisão enquanto tal. Mas, apesar
disso uma minoria consistente apoiou o plebiscito!
Não é impossível o fato que talvez muita gente, se
fosse deixada sem televisão, depois de um momento de perturbação esfregariam os
olhos perguntando-se de que coisa despertou. É inacreditável
, mas uma semelhante experiência parece nunca ter sido feita em nenhum
país dito civilizado. Qualquer gênero de experimentação sobre a vida das
populações é considerado lícito, do amianto aos campos transgênicos. Mas,
deixar uma pequena cidade um mês sem televisão com o objetivo experimental,
disto nunca se ouviu falar.
Talvez se verá um dia,
contudo, ações mais fortes. Segundo uma tradição citada por Walter Benjamin nas
"Teses sobre o conceito de história", durante a revolução de 1830 em
Paris, ou segundo uma outra versão durante A Comuna de
Paris de 1871 ou ainda durante a revolução espanhola de 1936, os
revolucionários disparavam sobre os relógios públicos. Quem sabe não veremos
rapidamente ou tardiamente outros disparos sobre as televisões?
Uma utopia? Conheci pessoalmente, há vinte anos, na
Califórnia algumas pessoas , que não eram
revolucionárias, mas que tinham decidido tirar o televisor da casa na qual
viviam juntas e fechá-lo em uma despensa. Mas acontece que um dia um deles, e
num outro dia um outro, queria ver "somente uma
determinada transmissão" e cada vez o aparelho foi recolocado em
funcionamento.
Até que um dia se cansaram, colocaram-no em um
jardim sobre um pequeno muro, posicionaram-se a uma certa
distância, tomaram cada um, como bons americanos, o próprio revólver e atiraram
todos contra o televisor. Desde então, não se viu mais televisão naquela casa.
Tradução do Italiano de Juliana Zanetti de Paiva
Intervenções do Público:
Público – Daniel Boorstin
fala da sociedade bidimensional e da produção de imagens que ocorre hoje em dia
como originada principalmente da revolução gráfica do século passado. Queria
que você colocasse a questão da revolução gráfica nesse contexto das imagens.
Anselm Jappe – É justamente
esse tipo de abordagem que eu critiquei, que concebe
que há um aumento histórico e ontológico do fascínio pela imagem. Eu queria
sublinhar que a televisão não é conseqüência direta da evolução histórica da
imagem. Em outros tempos, no passado, conviveu-se mais com imagens do que hoje,
por exemplo quando os pobres não conseguiam ler a
Bíblia e somente aproveitavam a imagem. Não estou totalmente convencido de que
a imagem no decorrer da história tenha tido uma importância cada vez
maior.
P – A tese de A Sociedade do Espetáculo de
no. 9 afirma que "num mundo realmente
invertido, a verdade é um momento do falso". Dito isto e convicta da
correção de Debord quanto à inversão desse mundo do
capital, ocorre-me a seguinte questão: se o verdadeiro apresenta-se e é o
falso, qual é o referencial para a mudança do mundo, para a negação das
falsidades criadas pelo capital, porque vi sucessivamente o senhor fazer
referências a Adorno? Lukács, na sua polêmica com
Adorno, justamente acusava-o de enfim passar uma imagem da inviabilidade da
mudança, o "hotel abismo". A partir das lições deixadas por Debord – que não me parece partilhar com Adorno dessa idéia
do "hotel abismo" –; a partir de que referenciais e de que agentes
reais a alternativa para a mudança desse mundo falso e falsificador pode vir a
surgir?
A.J. – Esse aforismo de A sociedade do espetáculo é
apenas uma retomada invertida de uma frase de Hegel de que o falso é apenas um
momento do verdadeiro. Com isso Debord não quer dizer
que não vivemos num mundo em que não há nada de verdadeiro ou num mundo em que
o falso remete apenas a outro falso. Essa é a apenas a aparente radicalização
da teoria situacionista que podemos encontrar em teóricos pós-modernos como
Baudrillard. De modo que dizer que nesse mundo invertido em que o verdadeiro é
um momento do falso, significa simplesmente dizer que a sociedade espetacular
utiliza tudo que é verdadeiro e coloca-o a seu serviço.
Tem uma página da revista Internacional
Situacionista que reproduz uma imagem que passou numa televisão holandesa
de protestantes em 1967. Nela, de modo muito escandaloso para a época,
mostrou-se uma imagem de uma mulher de seios nus. O diretor da televisão
explicou que eles queriam mostrar apenas que mulheres nuas podem ser muito
bonitas. A revista aponta que no mundo espetacular mesmo as verdades mais
elementares correm o risco de se perderem ou serem críveis apenas quando
afirmadas pelo próprio espetáculo. Essa imagem saiu na televisão em 67, mas um
número da revista que foi publicado em 69, que continuava comentando essa
imagem, dizia que nos meses subsequentes, ou seja, em
maio de 68, o mundo real começou a atacar esse mundo invertido. Debord mantinha plenamente esse conceito de inversão do
real e do abstrato, um conceito que tem raízes na análise marxiana
da mercadoria e em que se aponta uma relação em que o abstrato domina o
concreto, isto é, uma relação falsa, pervertida. Isso se contrapõe às teorias
pós-modernas, para as quais não existe sequer a possibilidade de um verdadeiro
e um falso. Portanto a teoria de Debord não é uma
teoria que pode levar a uma espécie de fatalismo ou pessimismo necessário. A
discussão entre Adorno e Lukács na verdade diz
respeito a outras questões também. Com relação a Adorno, quem tenta camuflá-lo
como pós-moderno, deve-se lembrar que ele certamente não era um pós-moderno.
P – Eu tenho aqui uma tradução de um texto seu, em
que fala do Passado e do presente da teoria de Debord.
Num determinado ponto você fala que Debord e os
situacionistas não haviam conseguido apontar os remédios possíveis. Eu conheço
amplamente a crítica do Grupo Krisis à sociedade do
espetáculo, mas queria saber – penso numa crítica positiva – o que fazer – e
nisso estou me lembrando do Lênin. Então, o que fazer para apontar um caminho
de saída? (risos do público). Pelo menos apontar um caminho...
A. J. – Nesta viagem ao Brasil eu participei de
outra discussão sobre a crítica do valor do Grupo Krisis e essa questão da saída
sempre surge. Essa questão não poderá ser resolvida com um livro, é
claro. O que podemos dizer desde já é que não se trata de desenvolver projetos
utópicos para um futuro melhor, porque a sociedade capitalista em muitos
lugares do mundo, mesmo nas sociedades mais ricas, já não funciona mais, e de um certo modo isso obriga os homens a inventarem
alternativas. Alternativas essas que, evidentemente, serão diversas de acordo
com as circunstâncias. Quer seja na Argentina, quer seja na experiência de
camponeses do Terceiro Mundo, coloca-se sempre essa necessidade de encontrar
formas de produção que não se voltem para o mercado.
P. – Eu tenho uma dúvida pontual, gostaria que o
senhor retornasse a tese de Postman do
desaparecimento da infância. Não ficou muito claro se seria uma unificação
etária mediada por um ideal de eficiência.
A. J. – Eu citei o livro do Postam que inclusive
tem tradução em português. Em poucas palavras, segundo ele, o livro impresso é
um meio voltado de maneira diferenciada para as diversas faixas etárias. As
crianças lêem livros escritos especialmente para crianças, onde por exemplo não aparecem àquelas coisas que se pretende
esconder das crianças. Segundo Postman, o livro para
a infância espelha uma fase especialmente protegida da vida. Enquanto na
televisão, que veicula programas que podemos dizer que são para todas as faixas
etárias, essa infância desaparece. Uma criança de cinco anos já é exposta, com
a televisão, a situações de criminalidade, drogas, sexo, todos
assuntos que no passado ficavam de fora para garantir um crescimento dito
"saudável" da criança. Isso é apenas um breve resumo, seria
interessante lê-lo porque sobre alguns aspectos eu não concordo.
P. – Já que a sociedade do espetáculo leva a uma
contemplação passiva, como é que você vê hoje a ação política?
A. J. – De uma certa forma
não existe mais uma ação política porque em todos os países do mundo faz-se uma
certa política dirigida ao governo. Desapareceu a idéia de que os eleitores
podem mudar drasticamente uma determinada direção política. O Brasil de hoje é
um exemplo melhor disso (risos do público). É praticamente inútil ter
uma participação política nesse tipo de política já que as coisas acontecem
segundo uma lógica de mercado que não podemos mais mudar, que somente podemos
contemplar passivamente. De qualquer modo não é uma perversão, pelo contrário,
é bastante lógico que é o sorriso mais bonito decide uma eleição. É errado
também lamentar a espetacularização da política com a
idéia de voltar a uma política séria, porque essa espetacularização
da política, essa transformação da política num circo midiático revela a real
impotência moderna da política diante do mercado mundial.
P. – Quando você falou da apresentação da mulher de
seios nus na televisão de modo invertido e que serve para nos lembrar de que
isso é uma beleza possível, desejável... Eu queria que você comentasse, do
ponto de vista do que você colocou, isto é, do espetáculo se utilizando dessas
inversões de uma maneira pervertida, as campanhas da Bennetton
na Itália em outdoor, não necessariamente na TV, talvez trazendo o que
eu entendo por uma comodização de mercadoria humana,
privação, sofrimento. Eu sei que isso foi um debate dentro da comunidade
européia e queria que você trouxesse um pouco disso.
A. J. – É interessante você ter citado esse exemplo
porque mostra de modo bastante óbvio como que a miséria é aceita através da
estetização da vida. O próprio Debord cita o Bennetton como um dos capitalistas que é influenciado pela
sua própria teoria, a teoria do espetáculo. Num certo sentido é, porque pode-se ler o livro de Debord para
compreender melhor o mundo do espetáculo e dele participar, embora não seja
absolutamente esse o seu objetivo. Mas pode-se de fato pensar que daqui a pouco
haverá gente que só acredita que existe miséria no mundo porque a viram num
anúncio da Bennetton.
Conferência
apresentada no ciclo Muito Além do Espetáculo, Teatro Maison de France,
Rio de Janeiro, 09 de setembro de 2003.