PEQUENO
GLOSSÁRIO
Fetichismo
Conceito
que se origina na crítica da religião do século XVIII, sendo considerado uma
característica essencial das religiões "primitivas". Fundamentava-se
nas observações de colonizadores portugueses na África e servia para designar
uma crença que imagina em objetos mortos uma alma e forças sobrenaturais. Marx
referiu esse conceito ironicamente à moderna sociedade produtora de
mercadorias, que se sujeita a um fetichismo análogo na forma do dinheiro e de seu
movimento de exploração em empresas. Assim, o conceito tornou-se corriqueiro na
critica da lógica da mercadoria, apesar de ser, a rigor, demasiadamente geral.
Pois no fundo, Marx não quer ressaltar, apenas, o fato de que a objetos em
geral podem ser atribuídas forças sobrenaturais que nada tem a ver com sua
existência natural, mas sim caracterizar um estado social em que a sociedade
não tem consciência de si mesma, não penetra nem organiza diretamente na
prática sua própria forma de socialização, mas sim tem que
"representá-la" simbolicamente em um objeto externo. Esse objeto (que
também pode ser animado) assume então um significado sobrenatural que não é
idêntico a sua forma externa, mas que aparece através desta. Em virtude desse
significado adquire ele, apesar de sua banalidade material, poder sobre todos
os membros dessa sociedade.
Trabalho abstrato
À
primeira vista, o trabalho (concreto e abstrato) parece sempre ser concreto,
pensando-se em determinada atividade útil e no caso do substantivo abstrato, na
generalização dessa atividade. Mas o trabalho possibilita que uma abstração
real dirija a sociedade. O abstrato, nascido da mente, aparece frente a essa
mente, na forma de dinheiro, como fenômeno real externo. O dinheiro, a
encarnação do trabalho abstrato, não deixa transparecer nenhum conteúdo
concreto; apresenta sempre a mesma qualidade, sendo um fenômeno insensível com
forma sensível, um paradoxo. Ali onde o dinheiro, como imperativo social de
fazer mais dinheiro, passa a trazer em si sua própria finalidade, a abstração
real estende-se também ao próprio processo de trabalho material. Os homens,
antes de qualquer determinação concreta e substancial, transformam-se em
mônadas do dispêndio de força de trabalho abstrata. Em agregados altamente
diferenciados cooperam de forma diretamente social, porém no grau mais alto de
indiferença e alienação recíprocas. Podem satisfazer suas necessidades apenas
indireta e posteriormente, mediante o processo abstrato de automovimento do
dinheiro.
Valor
Tanto
etimologicamente quanto na prática, o conceito de valor parece designar o
"bom" como tal, o desejável. Apesar da acentuação diferente,
confundem-se como sinônimos o “valor econômico” e os "valores" éticos
e culturais. Não é à toa que o fundador da economia política clássica, Adam
Smith, atuava paralelamente como filósofo da moral. Mas na conceituação
totalmente inversa de Marx, o valor é, precisamente o contrário, o negativo
central da sociedade da mercadoria. Nela é objetivado o trabalho abstrato, a
forma social fetichista dos produtos. A expressão de um produto "ter"
um chamado valor, tem para ele um significado duplo. Primeiro, enquanto são
valores econômicos, extingue-se a qualidade sensível dos produtos, não passando
eles de representantes materiais de trabalho que apenas como tais podem ser
transformados na forma de encarnação do dinheiro. Em segundo lugar, porém,
revela-se na forma-valor abstrata dos produtos, que se expressa pelo preço em
dinheiro, o absurdo social de que o processo vivo da apropriação da natureza
pelo homem e das relações sociais por ela medidas assumem a forma de
propriedades de objetos mortos. A produção produz, portanto, não apenas o
objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto. A atividade viva
dos homens é absorvida, por assim dizer, por seus próprios produtos, que por
esse mecanismo absurdo são promovidas a quase-sujeitos da sociedade, enquanto
os homens, seus criadores, são degradados a meros acessórios. No automovimento
do dinheiro conclui-se essa inversão.
O
marxismo dos epígonos, na sucessão dos clássicos burgueses e em contraste a
Marx, não se referia de forma negativa, mas sim de forma positiva à qualidade
dos produtos de valores fetichistas, do "bom" resultado do trabalho,
enquanto o conceito de objetivação foi reduzido a um mero fenômeno da
consciência. A crítica passa a enfocar exclusivamente a mais-valia, isto é, a
quantia "não paga" do valor produtivo, da qual é privado o
trabalhador. Dessa maneira, não se crítica a qualidade destrutiva da
socialização na forma-valor, mas sim apenas o mecanismo quantitativo de
distribuição que se encontra sobre essa base cegamente pressuposta.