Uma
subversão radical ronda o mundo – a subversão pra superar o capitalismo.
Mas,
todos os poderes do mundo - Bush e Hu Jintao; Fidel e Bin Laden; Sharon e
Abbas; igrejas e o Papa; Lula e FHC; religiosos e empresários; banqueiros e
latifundiários; partidos políticos e meios de comunicação; CUT e CONLUTAS; MST
e UDR; cientistas e ecologistas; comunistas e socialistas; trotskistas e
anarquistas; traficantes e corruptos; rentistas e artistas; patrões e
trabalhadores - estão unidos na defesa do fundamento da produção burguesa
(valor). Pois todos os seus questionamentos giram em torno da distribuição do
dinheiro, sem questioná-lo como tal. Por causa disso, todos eles têm um só lema:
dinheiro, dinheiro, dinheiro.
No entanto,
a crise atual, ao evidenciar o esgotamento da lógica do processo de acumulação
capitalista, ou seja, o limite interno absoluto da acumulação, expõe os limites
do capitalismo. Conseqüentemente, os limites do dinheiro. Com isso, o sistema
perde sua dinâmica, fica sem perspectiva e só produz horrores que continuarão a
existir se persistir a sociedade que os produz. Afinal, eles provêm de sua
própria lógica. Como decorrência disso, o sistema capitalista não responde mais
às conseqüências da crise para a vida humana, o planeta e para si próprio. Se
você duvida, verifique:
1º-
a economia submeteu a vida humana às suas próprias leis. Isto provocou uma
catástrofe dos fundamentos naturais da vida, a destruição do planeta. Como
conseqüência, a continuidade da sociedade ficou ameaçada;
2º - a
enorme acumulação dos meios de que a sociedade dispõe não torna a vida mais
rica, mais bela e mais humana. A cega utilização destes meios materiais não
pode ir mais longe sem comprometer a vida humana;
3° - a crise atual atinge todos os países
centrais capitalistas e vai tornando evidente, nos demais, que a maior parte de
sua população já não consegue viver dentro de suas formas sociais;
4° - o nosso
dia a dia é dominado pelo horror, terror, violência, guerra, narcotráfico,
desemprego, etc. A barbárie ronda todas as cidades do Brasil e do Mundo. A
desesperança e a miséria se alastram. O serviço público virou calamidade. O
Estado democrático transformou-se num mero administrador de crises. Crescem a
exclusão, discriminação e racismo.Presenciamos um asselvajamento do
patriarcado. A sociedade mal funciona.
A vida começa a se transformar numa vida animalesca.
Nenhum
partido, nem governante, nem candidato, nem eleição, nem fórum social científico,
cultural, artístico, de imprensa ou de juventude respondem a essas questões
decisivas. De vez em quando armam um enorme aparato, mas apenas para a
perfumaria política. E o resultado fica sempre equivalente a zero.
Conclusão: a crise atual demonstra
que, diante dos limites do capitalismo, a história das relações fetichistas
está chegando ao fim. A razão iluminista não consegue mais iluminar a
modernidade. Como fazer,então, para que os diversos acontecimentos atuais não
permaneçam sob o abrigo da decadência do capitalismo mas apontem para além
deles? E quando começou toda essa história? Quais são suas implicações para a
nossa vida e a vida do planeta? O que é o valor e qual a sua relação com a
crise atual? Se as luzes do moderno sistema produtor de mercadorias se apagam,
haverá vida depois dele? Será possível superar o capitalismo? Será possível
transformar radicalmente esta sociedade?
As
sociedades pré-modernas não existiam em todo o planeta. Não possuíam
consciência histórica. Não dispunham da história como uma explicitação de seus
processos de evolução e formação sócio-econômicas.
Além do mais, não estavam em conflito consigo mesmas, ou seja, com sua
própria forma. Uma dinastia podia suceder a outra, mas a forma social como tal
não era colocada em dúvida. A sociedade, sob tais pressupostos, aparecia sempre
como “sociedade em geral”, não como forma específica que também poderia ser
totalmente diversa.
As sociedades pré-modernas eram capazes de reproduzir-se por períodos
incrivelmente longos (no caso do Egito, por séculos) sem ruírem a partir de
dentro; seu declínio, pois, era condicionado antes de tudo por causas externas.
As culturas agrárias pré-modernas possuíam uma reflexão que não fazia a
“crítica da sociedade”. Antes era uma reflexão “imediata sobre Deus”, ou sobre
o universo, sobre a posição do homem no cosmos, sobre o enigma da morte. Era
necessariamente, portanto, uma reflexão religiosa e com conteúdo religioso que
permaneceu vinculada à estrutura sócio-econômica pressuposta sem crítica.
Nas sociedades pré-modernas havia, desde épocas distantes, a troca local
e do mesmo modo o comércio exterior (especiarias, seda, minérios, armas, etc).
Mas nelas nunca se formou a partir daí, abrangendo toda a sociedade, um sistema
produtor de mercadorias como é o capitalismo. E o trabalho não constituía uma
esfera separada. Nem tampouco era encarado como um princípio ontológico da
sociedade humana. Ao contrário, possuía um significado de inferioridade social
e dependência.
O advento da modernidade alterou completamente essa situação, não através
de uma força produtiva, mas, pelo contrário, destrutiva. O que abriu o caminho
para a modernização foi a invenção das armas de fogo. Foi através delas que se
destruíram as formas pré-capitalistas de domínio. A cavalaria feudal tornou-se
militarmente ridícula. Estava selado o destino dos exércitos trajados de
armaduras. Mas a arma de fogo não estava nas mãos de uma oposição “de baixo”
que fazia frente ao domínio feudal, mas conduziu antes a uma “revolução de
cima”.
Isto fica evidenciado na medida em que as armas de fogo não podiam mais
ser produzidas em pequenas oficinas. Ao contrário, elas exigiam uma indústria
de armamentos em grandes fábricas. Indústrias armamentistas, corridas
armamentistas e manutenção de exércitos permanentes organizados, divorciados da
sociedade civil e ao mesmo tempo com forte crescimento, conduziram
necessariamente à dependência do dinheiro.
A produção de mercadorias e a economia monetária (elementos fundamentais
do capitalismo) passaram a existir porque contaram com a economia militar e de
armamento. Através delas, as pessoas foram assim forçadas a ganhar dinheiro
vendendo sua força de trabalho. Evidentemente, as pessoas não se deixaram levar
de livre e espontânea vontade pelas exigências da nova economia armamentista e
financeira. Só podiam ser forçadas a isto por meio de uma repressão sangrenta.
Eis aqui a origem das “guerras camponesas”, no início da modernidade, até as
agitações dos “ludistas” (chamados “quebradores de máquinas”), no período da
industrialização.
AS SOCIEDADES
MODERNAS DERAM ORIGEM A DUAS CRÍTICAS
Esse
novo período nasce carregando consigo uma dinâmica sem precedentes. Essa dinâmica,
que tem por base a moderna revolução industrial, submete a vida social ao
movimento de valorização do dinheiro. Esse movimento se torna insaciável e se
reproduz com formas sempre novas, em estágios evolutivos cada vez mais
elevados. Para dar resposta a tudo isso, a nova sociedade inaugura seus novos
conceitos de revolução, processo, movimento, espaço, tempo, cultura, educação,
arte, etc.
A partir daí, o novo pensamento de crítica social inventa a história
linear e o progresso, o olhar voltado para o futuro e a crítica de cada
situação alcançada como mero estágio transitório para uma respectiva situação
nova e supostamente superior.
Porém,
a crítica social inaugurada pela modernidade dá origem a duas críticas sociais
antagônicas. Uma, que ensaiava a crítica radical das formas básicas desta
sociedade. Outra, que criticava a insuficiência e subdesenvolvimento da mesma
sociedade. A primeira, que no início permaneceu oculta e durante um bom tempo
reprimida, só recentemente foi (re) descoberta e por isso só agora dá os seus primeiros passos. Passos que nos
conduzem ao quarto onde estão guardados os segredos mais importantes da
humanidade. A segunda sobreviveu e se desenvolveu até agora como uma reflexão
imanente ao capitalismo. Sua fundamentação está baseada na teoria da
modernização capitalista, ou seja, no socialismo com suas variantes (marxista,
socialista, bolchevista, trotsquista, maoísta, etc.) e seus discordantes
anarquistas.
As duas teorias se voltam para uma mesma base de estudos que é o
capitalismo. Porém, o capitalismo não ingressou na história em estado puro, mas
sim através de uma miscelânea de momentos capitalistas, pré-capitalistas,
modernos e pré-modernos. Isso ocasionou uma disparidade entre os vários países
continentais da Europa que eram subdesenvolvidos em relação à Inglaterra e
também nos demais países do mundo que eram ainda mais atrasados do que os
subdesenvolvidos europeus. Nessa não simultaneidade interna e externa do
capitalismo reside a gênese dessas teorias. Daqui advém suas distintas abordagens, com duas teorias diferentes:
uma, a teoria da superação do capitalismo. Outra, a teoria de sua modernização.
Essa
contradição ainda persiste. Mas até aqui vinha prevalecendo a reflexão teórica
interna das formas capitalistas. Conseqüentemente, a crítica ao capitalismo
acabou não se referindo ao todo lógico e histórico desse modo de produção, mas
sim sempre apenas a determinados estágios de subdesenvolvimento já percorridos
ou a serem superados. Com isso, a vida do capitalismo se prolongou. Como
entender isto?
O objetivo
da produção moderna foi transformar dinheiro em mais dinheiro. Isto só foi
possível porque, no capitalismo, o dinheiro é a encarnação do trabalho. O
fundamento do sistema é a valorização do dinheiro que surge como uma forma de
riqueza constituída pelo dispêndio do trabalho humano direto, tendo por base o
tempo de trabalho. Nisto reside o coração do sistema capitalista, a produção do
valor, a valorização do dinheiro.
No entanto, para obter o lucro, a venda dos bens produzidos
deve render mais dinheiro do que o custo de sua produção. Alcança este
objetivo a empresa que faz ofertas mais baratas de mercadorias. Quem decide,
face à concorrência, é a produtividade. Para produzir grande quantidade de produtos
com pouco dispêndio de trabalho vivo, ou seja, poucos trabalhadores e muitas
mercadorias baratas, torna-se indispensável o uso cada vez maior de máquinas.
Portanto, a diminuição dos custos exige que menos trabalhadores produzam mais
produtos.
Porém, o sistema se
expandiu. E se expandiu porque a capacidade de racionalização era, neste
momento, menor que a expansão do mercado. Com isso a indústria absorveu antigos
ramos de produção artesanal, criou novos setores produtivos, inventou produtos
jamais imaginados e infundiu a sede de comprar nos consumidores. O processo de
aumento de produtividade, expansão e saturação dos mercados, criação de novas
necessidades e nova expansão parecia não ter limites.
Em 1886, o engenheiro alemão Carl Benz construiu o primeiro carro. Em
1900, o engenheiro norte-americano Frederic Taylor criou um sistema que
separava as áreas de trabalhos específicos, o que resultou no
aumento da produção. Em seguida, o empresário Henry Ford introduziu a esteira
rolante, originando um novo método de produção, o fordismo. Os
resultados foram surpreendentes. De l0 mil carros por ano a indústria fordista
pulou para 248 mil carros , em l914. Os novos métodos deflagraram uma nova
revolução industrial. O aumento de produtividade criou um número espantoso de
novos empregos e barateou uma enorme quantidade de produtos. O capitalismo
viveu sua época de ouro e os trabalhadores obtiveram suas maiores conquistas.
O INÍCIO DO LIMITE
Nos anos 80 aconteceu a terceira
revolução industrial com base na microeletrônica. A nova fase de produção levou
as indústrias fordistas a atingirem seu nível histórico de saturação. Novos e
sofisticados produtos tiveram seus preços barateados. Computador
vai se transformando em consumo de massas. Mas, o surto econômico
não trouxe o correspondente aumento de empregos. A produção passou a depender
menos do tempo de trabalho e do montante de trabalho empregado e muito mais das
sofisticadas máquinas na produção, criadas pela ciência e tecnologia.
Perante o imenso acúmulo de trabalho morto, o trabalho vivo ficou reduzido à
mera supervisão e manutenção do sistema mecânico. O aumento incessante da
produtividade do trabalho chegou numa situação em que o valor novo adicionado
por unidade de produto é insignificante e mesquinho. Com isso, a
medição pelo critério de valor se tornou insustentável. Assim, nem o
trabalho e nem o tempo de trabalho são mais as condições principais da
produção. O trabalho começa a deixar de ser a fonte principal de riqueza e o
tempo de trabalho deixa de ser a sua medida. Aqui se inicia o extermínio da
galinha dos ovos de ouro do capital, o trabalho.
A produção moderna, cujo objetivo é originar o lucro,
está diante de um impasse. Reduzir o tempo de trabalho a um mínimo
ou continuar com o tempo de trabalho como medida de produção, eis a questão.
Pela primeira vez na história da humanidade, a nova tecnologia economiza
mais trabalho de que o necessário para a expansão dos mercados de novos
produtos. A capacidade de racionalização é maior que a capacidade de expansão.
Uma nova fase criadora de empregos deixou de existir. O desemprego se espalha
por todas as indústrias, por todo o planeta. A troca de trabalho vivo pelo
trabalho objetivado se apresenta como o último desenvolvimento atual da relação
do valor, da produção baseada no valor. Muda o significado de
riqueza, tempo e trabalho. A barreira histórica do capitalismo se
apresenta, o seu limite vislumbrado. Os seres humanos, que foram capazes de
construir um maquinário técnico-científico para substituir o trabalho, estão
sendo chamados agora para, na maior demonstração de sua capacidade e
genialidade, construírem a sociedade da emancipação humana.
A crise do trabalho tem como conseqüência a crise do Estado e, portanto,
da política. O Estado moderno constituía uma instância superior que garantia,
no quadro da concorrência, os fundamentos jurídicos normais e os pressupostos
da valorização dos sistemas produtores de mercadorias. Para garantir isso era
indispensável a existência de um aparelho de repressão para a
possibilidade do material humano insubordinar-se contra os sistemas
capitalista e socialista de Estado. No capitalismo sem limites, o Estado
assumiu, de forma crescente, tarefas sócio-econômicas como, por exemplo, saúde,
educação, rede de transportes e comunicação, infra-estruturas de todos os
tipos que eram indispensáveis ao funcionamento da sociedade do trabalho.
Mas, o Estado não transforma trabalho
em dinheiro, ou seja, o Estado não constitui uma unidade de valorização
autônoma e por isso precisa retirar dinheiro do processo real de valorização,
fruto da produção e contradição entre o capital e o trabalho. Mas, como vai se
esgotando o trabalho, esgota-se a valorização. Esgotada a valorização,
esgotam-se também as finanças do Estado. O Estado apresenta-se desnudado e
exibe a sua dependência, diante da economia cega e fetichizada da sociedade do
trabalho. Na crise da sociedade do trabalho, tanto a propriedade privada
quanto a propriedade estatal ficam obsoletas porque as duas formas de
propriedade pressupõem , do mesmo modo, o processo de valorização.
A propriedade estatal é apenas uma forma derivada da propriedade privada, tanto
faz se com ou sem o adjetivo socialista.
OS DESASTRES
DO CAPITALISMO
Com o crescente desemprego estrutural de massas, esgota-se a
renda estatal proveniente dos impostos sobre os rendimentos do trabalho. Com a
crise caem fora também as rendas estatais provenientes dos impostos sobre
lucros das empresas. Por outro lado, os trustes transnacionais obrigam os
Estados que concorrem por investimentos a praticarem todo tipo de
bandidagem. E aí o neoliberalismo se destaca pela sua enorme contribuição ao
desastre. Os limites da economia nacional são dinamitados. Regiões mundiais
inteiras são cortadas dos fluxos globais de capital e mercadorias. Numa
onda de fusões sem precedentes históricos, os trustes se preparam para a última
batalha da economia empresarial. Estados e nações são desorganizados e
implodem. Populações são empurradas para a loucura da concorrência. Na luta
pela sobrevivência assaltam-se em guerras étnicas de bandos. Com novas
roupagens ressurgem o racismo, homofobia, xenofobia, genocídio, patriarcalismo,
nazismo, fascismo, etc. O “lixo humano” fica sob a competência da
polícia, das seitas religiosas de salvação, da máfia, dos esquadrões da morte.
Aumenta enormemente o número de pessoas nas prisões. Diariamente, crianças
e pobres são assassinados. Três quartos da humanidade afundam-se em
estado de miséria e calamidade porque o sistema social de trabalho não precisa
mais do seu trabalho e são declarados como lixo social. O patriarcado não
é eliminado, mas fica mais selvagem ainda diante da crise da
sociedade do trabalho e da política. O resultado das democracias
fordistas para as mulheres já foi a carga dupla, a dupla jornada de
trabalho com salários diferenciados, subalternidade, discriminação,
humilhação e violência sexual. Agora vem a terceira, que além de acentuar a
cisão entre o público e o privado, pretende tornar as mulheres responsáveis
pela sobrevivência impossível da sociedade atual que o mundo
masculino, irracionalmente, quer prolongar.
ESTADO É
ADMINISTRADOR DE CRISES
O Estado democrático transforma-se, com
isso, em mero administrador de crises. A educação vira privilégio para
incluídos e enganação para excluídos. A cultura intelectual, artística e
teórica é remetida aos critérios do mercado, vai padecendo e se desqualificando
e destilando o tédio cotidiano. A saúde não é mais financiável. Descaradamente
vale a lei da eutanásia social: porque você é pobre e “supérfluo” não tem
direito a nada e tem que morrer bem antes. Desempregados, moradores e meninos
de rua, sem-teto, sem-terra, sem nada, doentes, idosos e excluídos são atirados
no aterro sanitário social. O Estado virou um sistema de apartheid que
não tem mais nada a oferecer aos seus ex-cidadãos.
Diante da barreira histórica do modo de produção de mercadorias, os
seus atuais integrantes e postulantes resolveram cometer suicídio ao lado
do capitalismo. Pois, o Estado se converteu num aparelho para a barbárie,
terror, loucura, corrupção, assassinato, tráfico, demagogia, violência,
escárnio, cinismo, etc., e por isso só pessoas que reúnem aptidão e qualidades
para tais atividades podem integrar um tal aparelho e executar sobre o povo e
sobre si mesmas, com o avanço da crise, o veredicto do sistema. Qualquer
semelhança com a simulação, característica importante do capitalismo
atual em crise, não é mera coincidência. Pois, a terceira revolução industrial
mudou a aplicação do capital dinheiro. Na medida em que ele não pode ser
reinvestido de forma rentável na economia real, porque não pode mais absorver mais
trabalho, ele se desvia. O seu caminho é o mercado
financeiro.
Esse deslocamento especulativo é prova concreta dos limites do sistema.
O dinheiro, que aparentemente circula em quantidades infinitas, já não é
, mesmo no sentido capitalista, um “bom dinheiro”, mas apenas “ar
quente”, com o qual a bolha especulativa foi levantada e simula a solidez
do sistema financeiro. A possibilidade de esta bolha estourar avança
diariamente e suas conseqüências serão muito mais graves do que a crise de
l929. Não tem simulação que possa dar jeito nisto.
A MISÉRIA
DA POLÍTICA, A POLÍTICA DA MISÉRIA
Esta crise não pode ser revertida através da política. Pois, política é
em sua essência uma ação relacionada ao Estado que se tornou, na situação
atual, completamente sem sentido. Num mundo fundamentalmente mentiroso, a
política, como portadora da mentira, tem seu papel relevado para enganar
as pessoas. A finalidade da política só pode ser a conquista do aparelho
de estado para dar continuidade à sociedade da política. A política
fala de realismo quando devasta o mundo e ameaça a vida. Fala do que é
melhor para a cidade e a torna cada vez mais feia e animalesca. Fala em
humanismo e deixa a pessoa humana empobrecida e miserável no meio da
riqueza. Evidentemente, fica impossível, nessas condições, haver
alguma regulação política democrática para a crise do trabalho e da
política. O fim do trabalho torna-se o fim da política.
Com isso, a política ficou reduzida a mero espetáculo. Um espetáculo que
leva você a obedecê-lo, que coloca você a seu serviço, que o apaixona para
servi-lo e que o conduz para a passividade, resignação e mediocridade.
Todos concordam que não fica bem vender um político, como se vende um
detergente. Mas vendem e expectadores continuam comprando. Por
isso, a atuação política virou tarefa de demagogo. Por mais chocados que fiquem
os adoradores da deusa-política, a política acabou.
Portanto, a impotência da política evidencia que a crise atual se
apresenta como a crise final do capitalismo, a crise da própria forma-valor e
não apenas de seus aspectos secundários. Fazem parte dela: a crise ecológica; a
impossibilidade, na época da globalização, para a política e para os Estados
nacionais de continuarem a funcionar como instâncias reguladoras; a crise do
sujeito constituído pelo valor-dissociação, particularmente visível na crise da
relação entre os sexos e o esgotamento da sociedade do trabalho e de seus
fundamentos.
Sendo assim, o aspecto central da práxis emancipatória
deve ser a superação do capitalismo e não a administração da sua crise.
O pensamento pré-moderno acrítico só era possível sob a
condição de que a sociedade repousasse estaticamente sobre si mesma e o
pensamento reflexivo se reportasse, não ao vazio, mas a uma ordem divina. Não
há mais volta a esta situação.
O
pensamento moderno, tendo por base a filosofia iluminista burguesa e a teoria
econômica a ela vinculada e praticada, realizou uma grande façanha, ao vender o
contexto da forma social capitalista, antes totalmente inexistente, como uma
lei natural da convivência humana. Este êxito contou com uma destacada
contribuição da crítica imanente ao capitalismo. Enquanto o capitalismo tinha
horizontes pela frente ficou fácil projetar para toda a história da humanidade
a necessidade das relações sociais capitalistas. Mas, agora, a crise mundial
atual escancara os limites do sistema. E a teoria imanente ao capitalismo
esvai-se junto com ele. Daqui só pode vir uma razão, a razão que quer
desesperadamente justificar a administração da crise.
O
pensamento pós-moderno constitui a crítica social fragmentada no estado
terminal do sistema e se coloca contra toda teoria que examina o conjunto da
sociedade. Trata-se de uma reflexão teórica que cada vez mais se fragmenta
porque a dinâmica social a ela subjacente
extinguiu-se. As gerações pós-modernas, portanto, já
não compreendem os conceitos de reflexão. Elas são o que são e mais nada. São
perfeitamente idênticas a seus atos banais, quanto mais absurdos forem estes
atos.
O pensamento
da crítica radical entende a teoria como crítica categorial ao capitalismo,
como crítica à irracionalidade do moderno sistema de produção de mercadorias,
ou seja, ela repudia as classificações ontológicas básicas do capitalismo (trabalho,
valor, dissociação, mercadoria, dinheiro, mercado, Estado, nação, política,
democracia etc.). Ela examina o modo de produção capitalista fundamentalmente
em suas formas político-econômicas elementares, que abrangem todos os grupos,
classes e camadas sociais que formam o sistema coletivo de referência dos
conflitos sociais intercapitalistas.
Agora
poderemos adentrar no labirinto atual guiando-nos com o fio de Ariadne da
crítica radical para superar de vez este sistema de horror e construirmos a nossa
emancipação do capitalismo. Por isso venceremos as forças da barbárie, do
terror e da loucura, pois só elas são capazes de executar sobre si mesmas, no
decorrer da crise, o veredicto do colapso do capitalismo. Portanto, nada de
governar espetáculo, mas acabar com ele!
O
colapso da modernização deixa claro
que é impossível viver nesta sociedade sem uma transformação emancipatória. O
Brasil pode vir a ser o país do futuro se caminhar para além do sistema
produtor de mercadorias. A crítica radical encara, portanto, o obstáculo que
tem de ultrapassar. Portanto, uma subversão inédita ronda o mundo – a subversão
da crítica radical.
A crise da sociedade atual é resultado de uma longa história patriarcal e
cristã – ocidental da socialização pelo valor. O homem branco e ocidental
contribuiu decisivamente para este objetivo. Mas agora essa sociedade apresenta
um tipo de crise que põe em cheque sua identidade sexual. A superação da
socialização pelo valor exige também a superação da sua identidade masculina.
Em razão disso, toda tentativa de estender o véu da neutralidade sexual sobre a
crise do valor está condenada ao fracasso.
Pela primeira vez na história da humanidade a problemática global da
sociedade em crise encontra sua expressão na questão feminina. Superar o
patriarcado, hoje, é superar a forma fetichista da mercadoria. Pois aqui reside
o fundamento da cisão patriarcal e a convocação para uma construção histórica
para além do fetichismo da mercadoria e de suas atribuições sexuais.
A
origem deste homem branco e ocidental vem da economia política das armas de
fogo dos primórdios da modernidade e do potencial destrutivo destas; mas sua
constituição e forma de reflexão teórica consciente apenas podem ser encontradas
no iluminismo. Por causa disso a crítica radical do valor e da dissociação, a
crítica do sujeito e a crítica do iluminismo constituem um todo indivisível.
Afinal, a construção histórica do iluminismo concorreu para a constituição da
forma do sujeito moderno, capitalista, masculino e permeada pela ideologia do
valor e da lógica da dissociação – um sujeito destrutivo.
A forma do sujeito não é outra coisa senão esse modus geral da relação do
valor moderno e capitalista, a forma geral de pensar e agir da socialização do
valor. Trata-se aqui, por um lado, dessa forma que se apresenta aos indivíduos
como totalidade fetichista do
sujeito automático objetivado. Mas esta forma também é simultaneamente a dos
portadores (as) das ações individuais e institucionais; e, enquanto tal, ela
constitui, num sentido mais restrito, a forma do sujeito ou a “forma sujeito”.
A sociedade do valor e da dissociação representa em si um programa de
tábua rasa. Ela constitui a negação brutal de todo o mundo sensível e social.
Emancipação, portanto, significa a negação da negação do mundo contida na
própria forma sujeito. A subjetividade
negativa contra o próprio sujeito deve ser entendida como uma superação
transformadora do sujeito. Uma definição claramente negativa e transformadora
da formação do sujeito contra o sujeito. Sujeito, mas apenas para abolir o
sujeito. Portanto, um contra-sujeito ronda o mundo – o sujeito da
desfetichização!
É inegável que anteriormente não foi possível a formação de um movimento
que fosse capaz de eliminar o capitalismo e, conseqüentemente, o Estado, a
política, o mercado, o dinheiro, a mercadoria e suas conseqüências. Não
foi possível a formação de atores que forjassem a história da emancipação
humana. As experiências revolucionárias do século passado demonstram isto
cabalmente. A ausência desse movimento constitui, portanto, a maior vitória do
capitalismo.
Isso porque,
entre outras razões, a teoria que fundamentava a luta dos que tencionavam
acabar com o capitalismo, não dimensionou a compreensão crítica
radical de que os trabalhadores foram criados pelo valor. Por isso, foram
transformados em comparsas da política e do capital e não dirigentes das suas
próprias vidas, vividas e projetadas. Afinal, toda criatura tem dificuldade
para superar o seu criador, de substituir o amor da servidão pelo desejo
da liberdade. A crítica radical, hoje, elimina esta grave insuficiência
teórica. Nossa arma é a crítica radical do valor- dissociação que
restabelece a identidade, no pensamento e na ação, entre forma de existir e
forma de pensar o até aqui impensável.
Para esta subversão basta aproveitarmos esta única e
admirável conjunção histórica que passou a existir na trajetória da humanidade.
Trata-se de uma conjunção que, de um lado, faz com que a crise atual apresente
os limites do sistema capitalista num momento em que uma transformação social
profunda pode ser realizada. Do outro lado, passamos a contar com uma formulação
teórica que dá conta desta transformação emancipatória.
Portanto, não deveríamos perder esta rara oportunidade
histórica. Afinal, a cega utilização dos meios materiais existentes levou a
sociedade a um funcionamento absurdo, e, no entanto, nos possibilitou os meios
materiais para uma organização superior do mundo que alcance a emancipação
humana.
Com ela, deixaremos de viver sob o império da barbárie, do terror e da
ameaça de aniquilamento total da humanidade. Os acontecimentos de 11 de
setembro e seus desdobramentos são exemplares neste sentido. Tais
acontecimentos representam a guerra em nome da religião secularizada do valor e
para manutenção enlouquecida da imposição do valor e de seus valores, cujo
resultado é a destruição da sociedade em geral.
Analisando as experiências passadas e a nossa própria experiência
(afinal não foram poucas as lutas que fizemos) percebemos que a práxis
emancipatória está em gestação. Uma gestação da revolta que exige uma
prática coerente. Que recuse encontrar um lugar confortável na alienação
geral, na busca de migalhas num mundo degradante. Uma prática que
enfrente a crise da política, demonstrando que a sociedade que aí está
ameaça destruir o planeta, e portanto, ameaça a todos nós, ficando cada vez mais
afetados o solo, a água, a atmosfera e os alimentos que se tornam
transgênicos. Uma prática que adote formas de luta cuja compreensão,
organização e atuação sejam baseadas na ação direta das pessoas, para que
possamos nos forjar enquanto visão teórica e prática da totalidade. Uma prática
que não seja apenas de luta pela distribuição no interior do
sistema, mas iniciativas que visem a superação do capitalismo. Uma prática que
questione tudo, as nossas relações e os objetivos da transformação
da sociedade e da natureza. Uma prática em que nossa recusa da política afirme
a práxis transformadora para construir a felicidade humana, abolindo no nosso
meio
tudo o que tende a
reproduzir a alienação. Uma prática que seja uma declaração de guerra à
irracionalidade reinante. Uma prática da qual possa se originar um radical e
novo movimento social contestatório: o movimento da emancipação. Mas esse
movimento exige uma combinação quase que perfeita entre conscientização e sua
prática correspondente. Pois nosso tempo histórico indica que estamos
confrontados com a decadência do capitalismo e não ainda com o seu
desaparecimento.
Para alcançar a superação desse
sistema torna-se indispensável construirmos um movimento social totalmente novo
que contenha não só uma crítica teórica radical mas, também, uma atividade
prática radical. Um movimento que contribua para o deslanchar de um novo
processo histórico.
É evidente que não se trata
de um movimento de caráter local, regional ou nacional, mas de um movimento
social transnacional emancipatório.Um movimento, portanto, que enfrente e
supere o patriarcado, o racismo e a sociedade produtora de mercadorias com seu
fetichismo e sujeito. É hora de darmos esse passo à frente. Um passo para
pensar e construir o processo emancipatório mundial.
Mas, uma ofensiva de
transformação social dessa envergadura só poderá se realizar concentrando
esforços. Uma concentração de esforços para construir um poder de intervenção
capaz de superar o capitalismo e construir a sociedade da emancipação humana.
É
compreensível que os poderes da nossa cidade, estado, país e mundo nos
considerem loucos porque queremos pôr fim à pré-história da humanidade.
Mas, nada temos a perder senão a catástrofe para a qual eles nos conduzem.
Temos a ganhar a Terra da emancipação humana.
A subversão da crítica
radical decidiu fazer deste tempo o seu tempo: um tempo para além da sociedade
produtora de mercadorias.
Esse projeto radical é o único que pode abrir perspectivas nas
lutas das idéias e práticas sociais da atualidade. A razão disso reside no fato
de que a subversão da crítica radical é a expressão concentrada de uma
transformação histórica ansiada por cada vez mais gente.
O que tem nela de
radicalmente novo corresponde precisamente às novas tendências históricas que
configuram uma crise de novo tipo da sociedade moderna. Uma crise que expõe,
pela primeira vez, as fronteiras do sistema capitalista.
Captar
essas tendências foi o primeiro sinal
antecipado do triunfo da subversão da crítica radical. Seu segundo sinal
será a superação revolucionária desta sociedade espetacular e sua substituição
por uma sociedade humanamente diversa e desfetichizada, socialmente igual e
criativa, ecologicamente exuberante e bela, prazerosa no ócio produtivo e
completamente livre.
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CAPA: vazado preto/ papel couchê/T 16
(T8 dobrado)
FRENTE:
Logomarca do crítica radical
A TODOS OS POVOS DO MUNDO
Aos participantes da 57ª Reunião Anual
da SBPC e do Tribunal do Capitalismo
MIOLO: 1 cor, alinhado à esquerda, corpo
12 (de preferência), papel jornal.
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ilustrações
VERSO: Logomarca - “CAPITALISMO DA MORTE
MORTE DO CAPITALISMO”
Endereço:
Rua Padre Mororó, 952 – Centro – Fortaleza - Ceará – Brasil - CEP: 60.015 -
220.
Fones:
(85)30812956 – 32813468
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(Movimento Pela Emancipação Social) Nº 7926- X; Agência: 3253-0; Banco do
Brasil.