Sic Transit gloria artis
O "fim da arte" segundo Theodor W. Adorno e Guy Debord
Anselm
Jappe
É difícil,
atualmente, eludir a idéia de que o "fim da
arte", proclamado aos quatro ventos e, com não menos ardor, rechaçado
durante a década de 60, tenha finalmente ocorrido, embora com alguma
dissimulação: "Not with
a bang, but with a whimper" (T.S. Eliot). Durante mais de cem anos, a evolução da arte
foi identificada a uma sucessão ininterrupta de inovações formais e de
"vanguardas" que ampliavam cada vez mais as fronteiras da criação.
Porém, após um último período de esplendor - pelo menos aparente - que chega
até o início dos anos 70, não se impôs nenhuma nova tendência vanguardista e
apenas se observou a repetição de elementos fragmentários, isolados e
desvirtuados da arte do passado. A suspeita de que a arte moderna esteja
esgotada começa a propagar-se inclusive entre aqueles que, durante muito tempo,
a haviam firmemente recusado. O mínimo que se pode
dizer é que, há decênios, nada se viu de comparável às revoluções formais do
período de 1910 a 1930. Entretanto, se hoje se produzem ou não obras de valor
é, com certeza, uma questão discutível; mas dificilmente se encontrará quem
ainda veja na arte dos últimos anos a "manifestação sensível da
idéia" ou, pelo menos, uma expressão tão consciente e concentrada de sua
época como foram a literatura, as artes visuais e a
música das primeiras décadas do século.
Por outro lado, a
crise das vanguardas tampouco provocou aquele "retrocesso" que
desejavam seus detratores. Parece, pois, que a arte em seu conjunto é que está
em crise, seja quanto à inovação da forma, seja quanto à sua capacidade de
expressão consciente da evolução social. Torna-se cada vez mais evidente que
não se trata de uma estagnação transitória nem de uma simples crise de
inspiração e sim que, no mínimo, estamos diante do fim de um
certo tipo de relação - que durou mais de um século - entre a arte e a
sociedade. É claro que se continua a escrever e publicar textos, a pintar e
expor quadros e a fazer experiências com formas supostamente novas, como o
vídeo ou a performance; mas isso não nos autoriza a
considerar a existência da arte tão inquestionável quanto a do oxigênio, como
parece crer a estética contemporânea. A continuação atual da produção artística
não será um anacronismo superado pela evolução efetiva das condições sociais?
Entre 1850 e 1930, a
arte vanguardista e formalista, mais do que a elaboração de novas formas, foi
um processo de destruição das formas tradicionais: realizava uma função
eminentemente crítica. Tentaremos demonstrar que essa função crítica estava
vinculada à fase histórica em que a organização social baseada no valor de
troca vinha se impondo. O triunfo completo do valor de troca e sua crise atual
reduziram à ineficácia os sucessores das vanguardas: não lhes é concedida mais
nenhuma função crítica, quaisquer que sejam suas intenções subjetivas.
Concentrar-nos-emos
no exame comparativo dos aportes de Theodor W. Adorno e de Guy Debord, autor de A sociedade do espetáculo (1967) e
principal teórico dos situacionistas (1); isto é, dois dos mais destacados
expoentes de uma crítica social centralizada na análise da alienação, termo
pelo qual não se entende uma vaga insatisfação diante da "vida
moderna" mas, sim, o antagonismo entre o ser
humano e as forças por ele mesmo criadas e que se lhe opõem como seres
independentes. Trata-se da transformação da economia de meio em fim, baseada na
oposição entre o valor de troca e o valor de uso, do qual deriva a subordinação
da qualidade à quantidade, dos fins aos meios, dos seres humanos às coisas e,
finalmente, um processo histórico que obedece unicamente às leis da economia e escapa
a todo controle consciente (2). Tanto Adorno como Debord
aplicam à análise da arte moderna o conceito de contradição entre o uso
possível das forças produtivas e a lógica da autovalorização
do capital. Ambos vêem na arte moderna - e exatamente em seus aspectos formais
- uma oposição à alienação e à lógica da troca.
Apesar disso, Adorno
e Debord representavam, na década de 60, duas
posturas diametralmente opostas em relação ao "fim da arte". O
primeiro defendia a arte contra os que pretendiam "superá-la" em
favor de uma intervenção direta na realidade e contra os partidários de uma
arte "engajada", enquanto o segundo anunciava, no mesmo período, que
havia chegado o momento de realizar na própria vida o que até então só se havia
prometido na arte, concebendo, contudo, a negação da arte - mediante a
superação de sua separação dos demais aspectos da vida - como uma continuação
da função crítica da arte moderna. Para Adorno, ao contrário, exatamente o fato
de a arte estar separada do resto da vida é que garante tal função crítica.
Tentaremos explicar por que os dois autores, apesar do ponto de partida comum,
chegam a conclusões tão opostas: veremos que também Adorno, contra sua vontade,
se vê atraído pela tese do esgotamento da arte.
Comecemos por
considerar o lugar central que a "troca" ocupa na análise da
alienação desenvolvida por nossos autores. Debord
denomina "espetáculo" justamente "a economia que se desenvolve
para si mesma" e que "dominou totalmente" os seres humanos (Sde, § 16) (3), através do qual "as mesmas forças que
nos escaparam mostram-se a nós em todo o seu vigor"
(Sde, § 31 ). Nessa forma suprema da alienação, a
vida real encontra-se cada vez mais privada de qualidade e dividida em
atividades fragmentárias e separadas entre si, enquanto as imagens dessa vida
separam-se dela e formam um conjunto. Este conjunto - o espetáculo no sentido
mais estrito - adquire uma vida independente. Como na religião, as atividades e
as possibilidades dos indivíduos e da sociedade aparecem como separadas dos sujeitos,
apenas já não se situam em um além e, sim, na terra. O indivíduo acha-se
separado de tudo quanto lhe diz respeito e pode relacionar-se com ele somente
através da mediação de imagens escolhidas por outros e falseadas de modo
interessado. O fetichismo da mercadoria descrito por Marx era a transformação
das relações humanas em relações entre coisas; agora se transformam em relações
entre imagens. A degradação da vida social do ser para o ter
prolonga-se na redução ao parecer (Sde, § 17), com o
que o ser humano se converte num simples espectador que contempla passivamente,
sem poder intervir, a ação de forças que, na verdade, são suas. O espetáculo é
a manifestação mais recente do poder político que, embora sendo "a
especialização social mais antiga" (Sde, § 23),
somente nas últimas décadas adquiriu a independência que o coloca em condições
de dominar toda a atividade social. No espetáculo, onde a economia transforma o
mundo em mundo da economia (Sde, § 40),
"realiza-se de modo absoluto" "o princípio do fetichismo
da mercadoria" (Sde, § 36) e a mercadoria
"chega à total ocupação da vida social" (Sde,
§ 42). A generalização da mercadoria e da troca significa "a perda da
qualidade, tão evidente em todos os níveis da linguagem espetacular" (Sde, § 38): a abstração de toda qualidade específica, base
e conseqüência da troca, se traduz "de forma perfeita no espetáculo, cujo
modo de ser concreto é justamente a abstração" (Sde,
§ 29) (4).
Também Adorno
denuncia, de forma implacável, "a dominação universal do valor de troca
sobre os seres humanos, o que impede a príorí os
sujeitos de serem sujeitos e reduz a própria subjetividade a mero objeto"
(DN, 180). "Todos os momentos qualitativos são esmagados" (DN, 92)
pela troca que "mutila " tudo (5). A troca é
"o mau fundamento da sociedade em si" e "o caráter abstrato do
valor de troca se une, antes de qualquer estratificação social particular, à
dominação do universal sobre o particular e da sociedade sobre seus membros
[...]. Na redução dos seres humanos a agentes e portadores da troca de
mercadorias, esconde-se a dominação de alguns seres humanos sobre outros [...].
O sistema total assume esta forma: "todos devem submeter-se à lei da troca
se não quiserem perecer" (6). O caráter de fetiche adquirido pela mercadoria
"invade como uma paralisia todos os aspectos da vida social" (7).
Enquanto o valor de uso "se atrofia" (TE, 298), o que se consome é o
valor de troca como tal (TE, 37).
O espetáculo, ao
fazer um uso amplo de elementos como o cinema, o esporte ou a arte, assemelha-se
bastante à "ideologia cultural" que Adorno e Horkheimer
puderam descrever em sua fase de formação (8). Uma comparação detalhada desses
dois conceitos parece oportuna, pois evidenciará não só sua atualidade, como
também as afinidades entre duas concepções que foram elaboradas de modo
independente em lugares e épocas muito distintos (9). Segundo Debord, o espetáculo, enquanto "ideologia
materializada", substituiu todas as ideologias particulares (Sde, § 213) ; segundo a Dialética
do iluminismo, o poder social expressa-se muito mais eficazmente na indústria
cultural, aparentemente isenta de ideologia, do que nas "ideologias
defasadas" (DI, 164).
O conteúdo da
indústria cultural não é a apologia explícita deste ou daquele regime político
supostamente inatacável, mas a apresentação incessante do existente como único
horizonte possível. "Com a finalidade de demonstrar a divindade do real,
não se faz senão repeti-lo cinicamente e sem cessar. Tal prova foto lógica não
é concludente mas, sim, aniquiladora" (DI, 178).
Para Debord, o espetáculo "não diz nada além disto: o que aparece é bom, o que é bom aparece. A
atitude que exige, por princípio, é a da aceitação passiva que, de fato, já
obteve [...] por seu monopólio da aparência" (Sde,
§ 12); doze anos depois, constata que o espetáculo já não promete nem isso mas
se limita a dizer: "É assim" (10). A indústria cultural não é o
resultado "de uma lei evolutiva da tecnologia enquanto tal" (DI,
148), assim como "o espetáculo não é um produto necessário do desenvolvimento
técnico visto como um desenvolvimento natural" (Sde,
§ 24). Do mesmo modo que a indústria cultural "condena tudo à
semelhança" (DI, 146), o espetáculo constitui um processo de banalização e
homogeneização (Sde, § 165). Adorno e Horkheimer logo se deram conta de que "no capitalismo
avançado, o ócio é o prolongamento do trabalho" (DI, 165), que reproduz os
ritmos do trabalho industrial e que inculca "a obediência à hierarquia
social" (DI, 158). Segundo Debord,
o "pólo de desenvolvimento do sistema" desloca-se cada vez mais
"para o não-trabalho, a inatividade. Porém tal inatividade não está
absolutamente liberada da atividade produtora" (Sde,
§ 27). A indústria cultural é o lugar onde a mentira pode reproduzir-se à
vontade (DI, 163); o espetáculo, aquele em que "o
mentiroso mente para si mesmo" (Sde, § 2). No
espetáculo, inclusive, "o verdadeiro é um momento do falso" (Sde, § 9); na indústria cultural, as afirmações mais
evidentes, como a de que as árvores são verdes ou o céu é azul, convertem-se em
"criptogramas de chaminés de fábrica e de bombas de gasolina", isto
é, em figuras do falso (DI, 179). O espetáculo é uma
verdadeira "colonização" da vida cotidiana (IS, 6/22), de modo que
nenhuma necessidade pode ser satisfeita a não ser através de sua mediação (Sde, § 24); Horkheimer e Adorno
descrevem como, já na década de 40, os comportamentos mais corriqueiros e as
expressões mais vitais, como o tom de voz nas diversas circunstâncias ou o modo
de viver as relações sentimentais, procuram adaptar-se
aos modelos impostos pela indústria cultural e pela propaganda (DI, 200). A
indústria cultural, mais que a propaganda de alguns produtos em particular, é a
propaganda do conjunto das mercadorias e da sociedade enquanto tal: facilmente
pode passar da publicidade de detergentes à propaganda de algum líder (DI, 185-192). Por sua vez, o espetáculo é um "catálogo
apologético" da totalidade das mercadorias (Sde,
§ 65), o "canto épico" do combate que as mercadorias travam entre si
e no qual, ainda que a mercadoria particular se desgaste, a forma-mercadoria
sai fortalecida (Sde, § 66). A política converte-se
em mais uma mercadoria dentre outras, e "tanto Stalin como a mercadoria
que saiu de moda são denunciados pelos mesmos que os impuseram" (Sde, § 70).
Tanto a indústria
cultural como o espetáculo baseiam-se na identificação do espectador às imagens
que lhe são propostas, o que equivale à renúncia a viver em primeira pessoa.
Quem não ganha a viagem prometida como prêmio do
concurso, deve conformar-se com as fotografias dos países que poderia ter
visitado (DI, 178): o cliente sempre deve "contentar-se com a leitura do
cardápio" (DI, 168). As imagens invadem a vida real a ponto de confundirem
as duas esferas, fazendo acreditar "que o mundo exterior é o simples prolongamento
do que aparece no filme" (DI, 153). Isto
corresponde à observação de Debord de que "a
realidade vivida é materialmente invadida pela contemplação do espetáculo"
(Sde, § 8) e àquela que diz que, se "o mundo
real transforma-se em simples imagens" (por exemplo, um país em
fotografias), "as simples imagens tornam-se seres reais" (Sde, § 18): a realidade como prolongamento do cinema.
Adorno escreveu - em 1952 ! - que a televisão permite
"introduzir subrepticiamente na cópia do mundo
tudo aquilo que se considera oportuno para o mundo real", dado que
"mascara a alienação real entre os seres humanos e entre eles e as coisas.
A televisão converte-se em sucedâneo de uma imediatidade
social que é negada aos seres humanos (11) , o que
antecipa, quase literalmente, as análises de Debord.
Salta aos olhos em
quê ambos se distinguem dos inúmeros autores do período que refletiram, com
maior ou menor subtileza, sobre os mesmos fenômenos, batizando-os de
"sociedade de consumo" ou "cultura de massas". Debord e Adorno reconhecem no que descrevem uma falsa forma
de coesão social, uma ideologia tácita apta para criar um consenso acerca do
capitalismo ocidental, um método para governar uma sociedade e, finalmente, uma
técnica para impedir que os indivíduos, que estão tão maduros para a emancipação
como o estado das forças produtivas, tomem consciência
disso (12). A infantilização dos espectadores não é um efeito secundário do
espetáculo ou da indústria cultural e, sim, a realização de seus objetivos antiemancipatórios: segundo Adorno, o ideal da indústria
cultural é "rebaixar o nível mental dos adultos ao de crianças de onze
anos" (13); segundo Debord, no espetáculo,
"a necessidade de imitação que o consumidor sente é justamente a
necessidade infantil" (Sde, § 219).
Apesar desses
paralelismos, Debord e Adorno divergem completamente
quanto ao papel da arte. Desde o início da década de 50, Debord
afirmou que a arte já estava morta e que devia ser "superada" por uma
nova forma de vida e de atividade revolucionária, à qual caberia preservar e realizar
o conteúdo da arte moderna. A explicação do fato de que a arte já não pode
desempenhar o importante papel que lhe coube no passado encontra-se nos
parágrafos 180 a 191 de A sociedade do espetáculo, onde Debord expõe a contradição fundamental da arte: na
sociedade dominada pelas cisões, a arte tem a função de representar a unidade
perdida e a totalidade social. Mas como a idéia de que uma parte do todo pode
ocupar o lugar da totalidade é evidentemente contraditória, também é
contraditório converter a cultura numa esfera autônoma. Justamente enquanto
deve suprir o que falta à sociedade - o diálogo, a unidade dos momentos da vida
-, a arte deve recusar-se a realizar o papel de simples imagem disso. A
sociedade havia relegado a comunicação à cultura, mas a dissolução progressiva
das comunidades tradicionais - da ágora aos bairros populares - levou a arte a
constatar a impossibilidade da comunicação.
O processo de
destruição dos valores formais, de Baudelaire a Joyce e Malevitch,
expressava a recusa da arte em ser a linguagem fictícia de uma comunidade já
inexistente mas, também, a necessidade de reencontrar
uma linguagem comum de verdadeiro diálogo (Sde, §
187). A arte moderna chega ao apogeu e termina com Dada e os surrealistas,
contemporâneos da "última grande investida do movimento revolucionário
proletário" (Sde, § 191) que tentaram, ainda que
com procedimentos insuficientes, suprimir a arte e, ao mesmo tempo, realizá-la.
Com a dupla derrota das vanguardas políticas e estéticas entre as duas guerras
mundiais, conclui-se a fase "ativa" da decomposição (IS, 1/14 ). Assim, a arte chega ao ponto a que já havia chegado a
Filosofia com Hegel, Feuerbach e Marx: compreende-se
a si mesma como alienação, como projeção da atividade humana numa entidade
separada. Para quem quiser ser fiel ao sentido da cultura, não resta outro
remédio senão negá-la como cultura e realizá-la na teoria e na prática da
crítica social.
A decomposição da
arte continua após 1930, porém mudando de significado. A autodestruição da
linguagem antiga, uma vez separada da necessidade de encontrar uma nova
linguagem, é recuperada pela "defesa do poder de classe" (Sde, § 184). A impossibilidade de qualquer comunicação é,
então, reconhecida como um valor em si que deve ser recebido com júbilo e assumido
como um fato inalterável. A repetição da destruição formal no teatro do
absurdo, no novo romance, na nova pintura abstrata ou na pop-art,
não expressa mais a história que dissolve a ordem social: já não é outra
coisa senão a monótona réplica do existente, com um valor objetivamente
afirmativo, "simples proclamação da beleza suficiente da dissolução do
comunicável" (Sde, § 192).
Também Adorno admite
que a arte, ao tornar-se autônoma e desvincular-se das funções práticas, já não
é imediatamente um fato social e separa-se da "vida". Mas só desse
modo a arte pode, de fato, opor-se à sociedade. A sociedade burguesa criou uma
arte que é, necessariamente, seu adversário, inclusive além de seus conteúdos
específicos (TE, 15-18,24.293-296). A arte acaba questionando
sua própria autonomia que "começa a mostrar sintomas de cegueira " (TE, 10). Adorno reconhece que a arte encontra-se em
tais dificuldades, que já "nem sequer seu direito à existência" é
"evidente" (TE, 9), e conclui: "A
rebelião da arte [...] converteu-se em rebelião do mundo contra a arte"
(TE, 13 ). Ao escrever "fala-se que o tempo da arte passou e que o que
importa agora é realizar seu conteúdo
de verdade" (TE, 327), compartilha
Adorno as teses de Debord? De modo algum, dado que a
frase acaba com as palavras: "Tal veredicto é totalitário". Parece
que Adorno não teve oportunidade de conhecer as idéias dos situacionistas e
contestá-las, mas é provável que tivesse assimilado sua crítica da arte à dos contestatários de 1968, que acusava de se entusiasmarem com
"a beleza dos combates de rua" e de recomendarem "o jazz e
o rock em vez de Beethoven" (Adorno, Paralipomena,
in: Gesammelte Schriften, 7,
p. 473 12a). Embora a tomada de posição contra a arte seja muito menos original
do que se acredita (TE, 327s: Paralipomena,
op. cit., p. 474), Adorno vê nela um grande perigo e, ao mesmo tempo, uma
"incapacidade de sublimação", "fraqueza do eu" ou simples
"falta de talento": Não está "acima, mas abaixo da cultura"
(TE, 327). Entretanto, o que critica no protesto contra a arte não é o fato de
atacar a ordem social e estética existente e sim, ao contrário, sua
conformidade com o sistema e com suas piores tendências. Esse tipo de ocaso da
arte é "uma maneira de adaptar-se" (Paralipomena,
p. 473), porque "a abolição da arte numa sociedade semibárbara e que
avança para a completa barbárie converte-se em sua colaboradora" (TE,
328). Querer realizar diretamente, no plano social, o prazer ou a verdade
contidos na arte, corresponde à lógica da troca, que espera que a arte, como
todas as coisas, tenha alguma utilidade. Adorno sempre vê na arte uma crítica
social, mesmo quando se trata da poesia hermética ou da "arte pela
arte", justamente em virtude de sua autonomia e de seu "caráter associal". Afirma que "a arte é social sobretudo
por sua oposição à sociedade, oposição que só adquire quando se torna autônoma
[...]. Não há nada puro, nada formado segundo sua própria lei
imanente, que não exerça uma crítica tácita" (TE, 296). A obra de
arte deve sua função crítica ao fato de que não "serve" para nada:
nem para a ampliação dos conhecimentos, nem para o prazer imediato, nem para a
intervenção direta na práxis. Adorno recusa todas as tentativas de reduzir a
arte a um desses elementos. "Só quem não se submete ao princípio da troca
defende a ausência de dominação: apenas o inútil representa o valor de uso
atrofiado. As obras de arte representam o que seriam as
coisas uma vez que deixassem de ser deformadas pela troca" (TE,
298).
Debord e Adorno chegam, pois, a avaliações
opostas quanto ao fim da arte: isto exige uma explicação, considerando-se a
afinidade de seus respectivos pontos de partida. Ambos defendem que a
contradição entre forças produtivas e relações de produção se reproduz no
interior da esfera cultural; ambos adotam, quanto ao essencial, a mesma atitude diante do desenvolvimento do potencial
técnico e econômico, em que vêem, sem deificá-lo ou condená-lo simplesmente,
uma condição prévia - que se superará por si mesma - de uma sociedade
libertada: "O triunfo da economia autônoma deve ser ao mesmo tempo sua
perdição. As forças por ela desencadeadas suprimem a necessidade econômica que
foi a base imutável das sociedades antigas" (Sde,
§ 51).0 desenvolvimento das forças produtivas atingiu tal grau, que a
humanidade poderia deixar para trás o que Adorno chama de "a cega autoconservação" e que os situacionistas denominam
"sobrevivência", para passar, enfim, à verdadeira vida(14). Apenas as
relações de produção - a ordem social - o impedem: segundo Adorno, "pelo
estado das forças produtivas, a terra poderia ser aqui, agora e imediatamente o
paraíso" (TE, 51), enquanto que, na realidade, está-se transformando num
"cárcere ao ar livre"(15). As relações de
produção baseadas na troca condenam a sociedade a continuar submetendo-se aos
imperativos da sobrevivência, criando - como diz o situacionista Vaneigem -"um mundo onde a garantia de não morrer de
fome é obtida em troca do risco de morrer de tédio"(16).
A redução à pura "sobrevivência" deve ser entendida também num
sentido mais amplo, como uma subordinação do conteúdo da vida às supostas
necessidades externas: exemplo disso é a atitude dos urbanistas que rejeitam
qualquer proposta de uma arquitetura diferente, argumentando que "é
preciso ter um teto acima da cabeça" e que é necessário construir
rapidamente uma grande quantidade de moradias (IS, 6/7). Em 1963, os
situacionistas escrevem: "O velho esquema da contradição entre forças
produtivas e relações de produção não deve mais, com certeza, ser entendido
como uma condenação automática e de curto prazo da produção capitalista, no
sentido de uma estagnação e incapacidade de desenvolvimento posterior. Tal
contradição deve ser entendida muito mais como a condenação - cuja execução
ainda deve ser tentada com as armas que faltam - do desenvolvimento mesquinho,
e simultaneamente perigoso, a que leva a auto-regulação de tal produção, se
comparado com o grandioso desenvolvimento possível (IS, 8/7). A economia e seus
organizadores realizaram uma função útil ao libertar a sociedade da "pressão
natural", ao passo que, agora, se trata de libertar-se de tal libertador (Sde, § 40). São as atuais hierarquias sociais que garantem
a sobrevivência para perpetuar- se e, ao mesmo tempo, impedem que se viva.
Adorno, por sua vez,
escreve que "ao subordinar toda a vida às exigências de sua conservação, a
minoria que manda também garante, com sua própria segurança, a perpetuação do
conjunto" (DI, 47). Toda a Dialética do
iluminismo baseia- se no fato de que a ratio
não conseguiu demonstrar todo seu potencial de libertação porque se viu
ameaçada, desde o início, pelas forças irresistíveis da natureza, fixando-se
como único objetivo combatê-las e dominá-las até onde fosse possível. Esta luta
continua mesmo quando a sobrevivência física dos seres
humanos já não corre perigo e, então, lhes inflige novas mutilações que já não
são de índole natural mas social: "Porém, quanto mais se realiza o
processo de autoconservação através da divisão
burguesa do trabalho, mais este processo exige a auto-alienação dos indivíduos
que devem se amoldar de corpo e alma às exigências do aparato técnico"
(DI, 45).
A gigantesca
acumulação de meios não é suficiente, em si mesma, para que a vida seja mais
rica. "Uma humanidade que já não conhecesse a privação intuiria algo do
delirante e infrutuoso de todos os procedimentos utilizados até então para
escapar da privação e que reproduzem em escala ampliada, junto à riqueza, a
privação"(17) .Em sentido análogo, Debord escreve: "Se não há nada além da sobrevivência
ampliada, nada que possa frear seu crescimento, é porque tampouco esta
sobrevivência se situa além da privação, mas é a privação enriquecida" (Sde, § 44). A crítica do automatismo cego das leis
econômicas e a exigência de que a sociedade submeta o uso de seus recursos a
decisões conscientes levam ambos os autores a recorrer, inclusive, às mesmas
citações: "No momento em que a sociedade descobre que depende da economia,
a economia, de fato, depende da sociedade [...]. No lugar em que havia o isso
econômico, deve haver o eu" (Sde, §
52), escreve Debord, enquanto Adorno atribui
semelhante tomada de consciência exatamente à arte: "O que era Isso deve
chegar a ser Eu, diz a nova arte com Freud" (18).
Toda a estética de
Adorno baseia-se no fato de que, também na arte se encontra a contradição entre
o potencial das forças produtivas e seu uso atual. É possível falar de forças
produtivas estéticas, dado que também a arte é uma forma de dominação dos
objetos, da natureza. Não deixa os objetos como são mas
os submete a uma transformação, para a qual se serve de alguns procedimentos e
algumas técnicas que foram elaborados e aperfeiçoados pouco a pouco. Isso vale
ainda mais para a arte moderna que não se limita a copiar a realidade, mas a
reestrutura inteiramente segundo suas próprias regras; basta pensar na pintura
cubista ou abstrata, ou na suspensão das leis tradicionais da experiência na
literatura moderna. Na arte, o domínio sobre os objetos não serve para submeter
a natureza e, sim, ao contrário, para lhe restituir
seus direitos: " A arte realiza uma íntima revisão do domínio da natureza
ao dominar as formas que a dominam" (TE, 184). A arte, "antítese
social da sociedade" (TE, 18), propõe à sociedade exemplos de um uso
possível de seus meios numa relação com a realidade que não seja de dominação nem
de violência: "Só pelo fato de existirem, as obras de arte postulam a
existência de uma realidade inexistente e, por isso, entram em conflito com sua
inexistência real" (TE, 83). Enquanto a produção material se dirige apenas
para o crescimento quantitativo, a arte, em sua "irracionalidade",
deve representar os fins qualitativos - como a felicidade do indivíduo - que o
racionalismo das ciências considera "irracionais"
(TE, 64: Paralipomena, p. 430, 489).
Com sua "inutilidade" e sua vontade de ser apenas para si e de se
subtrair à troca universal, a obra de arte liberta a natureza de sua condição
de simples meio ou instrumento: "Não é por seu conteúdo particular, mas
somente pelo insubstituível de sua própria existência que a obra de arte deixa
em suspenso a realidade empírica enquanto complexo funcional abstrato e
universal" (TE, 180). Não se trata, necessariamente, de um processo
consciente. Basta que a arte siga suas próprias leis de desenvolvimento -
exatamente nisso consistia a radicalização das vanguardas - para que reproduza,
em seu interior, o grau de desenvolvimento das forças produtivas
extra-estéticas, sem que por isso se ache submetida às restrições derivadas das
relações de produção (TE, 71). Uma arte cujas técnicas estejam abaixo do estado
de desenvolvimento das forças produtivas artísticas alcançado
num dado momento é, portanto, "reacionária", já que não sabe dar
conta da complexidade dos problemas atuais. Este é um dos motivos pelos quais
Adorno condena o jazz, porém se aplica igualmente, por exemplo, ao
"realismo socialista". A arte formalista, em contrapartida, expressa,
além de qualquer conteúdo "político", a evolução da sociedade e de
suas contradições. " A campanha contra o
formalismo ignora que a forma que se dá ao conteúdo é, ela mesma, um conteúdo
sedimentado" (TE, 193). "No 'como' do modo de pintar podem
sedimentar-se algumas experiências incomparavelmente mais profundas e também
mais relevantes socialmente do que nos fiéis retratos de generais e heróis
revolucionários" (TE, 200).
Também Debord utiliza o conceito de "forças produtivas
estéticas", baseando-se no paralelismo com as forças produtivas
extra-estéticas da defesa da evolução formalista da arte até 1930, cujo
resultado histórico foi a "superação" da arte. Do mesmo modo que Adorno,
vê na arte uma representação das potencialidades da sociedade: "O que se
chama cultura reflete, mas também prefigura, numa sociedade dada, as
possibilidades de organização da vida"(19). E,
como Adorno, Debord afirma que há um vínculo entre a
libertação dessas potencialidades na arte e na sociedade: "Estamos
encerrados em algumas relações de produção que contradizem o desenvolvimento
necessário das forças produtivas também na esfera da cultura. Devemos combater
essas relações tradicionais"(20). No campo das
forças produtivas estéticas, produziu-se, de fato, um desenvolvimento rápido e
inexorável em que cada descoberta, uma vez realizada, torna inútil sua
repetição. Em Potlatch, o boletim do
grupo de Debord, afirma-se, por volta de 1955, que a
pintura abstrata depois de Malévitch só rompeu portas
que já estavam abertas (p. 187), que o cinema esgotou todas as suas
possibilidades de inovação (p. 124) e que a poesia onomatopéica, por um lado, e
a neoclássica, por outro, indicavam o fim da própria poesia (p. 182). Essa
"evolução vertiginosamente acelerada agora gira no vazio" (p. 155),
isto é, o desenvolvimento das forças produtivas estéticas chegou à sua
conclusão porque o desdobramento paralelo das forças produtivas extra-estéticas
transpôs um patamar decisivo, criando a possibilidade de uma sociedade já não
inteiramente dedicada ao trabalho produtivo, uma sociedade que teria tempo e
meios para "brincar" e entregar-se às "paixões". A arte,
enquanto simples representação de tal uso possível dos meios, a arte enquanto
sucedânea das paixões, estaria, portanto, superada.
Assim como o progresso das ciências tornou a religião supérflua, a arte
demonstra ser, em seu progresso posterior, uma forma limitada da existência
humana (21).
Debord não mostra muita desconfiança em face
do desenvolvimento das forças produtivas enquanto tal: para ele, o que é
decisivo não é o conteúdo das novas técnicas mas, sim,
quem as utiliza e como. Identifica a dominação da natureza à liberdade (22),
dado que permite ampliar a atividade do sujeito: sua crítica dirige-se contra o
atraso das supra-estruturas, da moral à arte, em relação àquele
desenvolvimento, considerando anacrônica não só a arte tradicional mas a própria arte como forma de organização dos desejos
humanos. A função que a arte teve no passado e que já não pode mais desempenhar
consiste, pois, em contribuir para a adaptação da vida ao estado das forças
produtivas.
Em Adorno, essas
considerações complicam-se devido ao duplo aspecto que atribui às forças
produtivas. Sua crítica não se limita à subordinação das forças produtivas às
relações de produção, como a crítica marxista tradicional, nem à autonomização
da produção material enquanto esfera separada, a economia, que é o tema central
de Debord. Para Adorno, toda produção material, ao
ser dominação da natureza, é uma forma particular da dominação em geral, e como
tal não pode ser portadora de liberdade. A dominação da natureza sempre foi uma
libertação do ser humano de sua dependência da natureza, ao mesmo tempo em que
introduzia novas formas de dependência. Adorno destaca às vezes um, às vezes
outro desses dois aspectos.
Em Dialética do
iluminismo, os procedimentos quantitativos da ciência e da técnica enquanto
tais são vistos como reificação, ao passo que, em
1966, escreve - aludindo talvez ao heideggeriano
"pensar a técnica", então em moda - que a tendência ao totalitarismo
"não pode ser atribuída à técnica enquanto tal, que não é mais do que uma
forma de força produtiva humana, um braço prolongado, inclusive nas máquinas
cibernéticas, e, portanto, um simples momento da dialética de forças produtivas
e relações de produção: não é uma terceira entidade dotada de uma independência
demoníaca (23). No mesmo ano escreve: "A reificação
e a consciência reificada produziram também, com o nascimento das ciências da
natureza, a possibilidade de um mundo sem privação" (DN, 193).
Quanto ao que diz
respeito a este século, segundo Adorno, não se pode
falar de oposição entre forças produtivas e relações de produção: sendo
substancialmente homogêneas enquanto formas de dominação, ambas acabaram
fundindo-se num só "bloco". A estatização da economia e a
"integração" do proletariado foram etapas decisivas de tal processo.
Nessa situação - voltando à problemática estética - a arte não deve limitar-se a
seguir as forças produtivas mas, também, criticar seus
aspectos "alienantes".
Se, para Adorno, a
arte continua sendo capaz de opor resistência à "alienação", enquanto
que, segundo Debord, perdeu tal capacidade, isso se
deve, em grande parte, ao fato de que Debord entende
por "alienação" o alheamento da subjetividade. Para Adorno, em
contrapartida, a própria subjetividade pode converter-se facilmente em
alienação e, em suas últimas obras, mostra-se céptico diante do conceito de
"alienação".
O conceito de
"alienação", como Debord o entende,
registra uma forte influência da noção de "reificação"
desenvolvida por G. Lukács em História e
consciência de classe. Para Lukács, a reificação é a forma fenomênica do fetichismo da mercadoria
que atribui à mercadoria, enquanto coisa sensível e trivial, as propriedades
das relações humanas que presidiram sua produção. A extensão da mercadoria e de
seu fetichismo à totalidade da vida social faz surgir a
atividade humana que, na verdade, é processo e fluir, como um conjunto de
coisas que, independentes de todo poder humano, seguem apenas suas próprias
leis. Não há nenhum problema moderno que não remeta, em última instância, ao
"enigma da estrutura da mercadoria. Da fragmentaçao
dos processos produtivos, que parecem desenvolver-se independentemente dos
trabalhadores, à estrutura fundamental do pensamento burguês, com sua oposição
entre sujeito e objeto, tudo leva os seres humanos a contemplarem passivamente
a realidade em forma de "coisas", "fatos" e "leis".
Quarenta anos antes de Debord, Lukács
caracterizou essa condição do ser humano como a do "espectador" (25).
Como se sabe, Lukács acabou distanciando-se dessas teorias, considerando
que repetiam o erro hegeliano de conceber toda objetualidade como alienação. Debord
não ignora o problema: repetidas vezes, distingue entre objetivação e
alienação, por exemplo quando opõe o tempo, que é
"a alienação necessária, como apontava Hegel, o meio em que o sujeito se
realiza em se perdendo", à "alienação dominante", que denomina
"espacial" e que "separa pela raiz o sujeito da atividade que o
subtrai" (Sde, § 161). Mesmo assim, em alguns
aspectos de sua crítica do espetáculo, parece ressuscitar a exigência do
sujeito-objeto, idêntico em forma, da "vida" interpretada como fluir
diante do espetáculo como "estado coagulado" (Sde,
§ 35) e "congelamento visível da vida" (Sde,
§ 170). Portanto, não surpreende que sua crítica da mercadoria se transforme,
às vezes, em crítica das "coisas" que dominam os seres humanos. Nem Debord nem o Lukács de História
e consciência de classe duvidam de que possa existir uma subjetividade
"sã", não-reificada, a
qual situam no proletariado e cuja definição oscila entre categorias
sociológicas e filosóficas. Por mais que a ideologia burguesa ou o espetáculo
ameacem do exterior essa subjetividade, esta é, em princípio, capaz de resistir
a seus ataques (26).
Para Adorno, ao
contrário, o que aliena o sujeito de seu mundo é justamente o
"subjetivismo", a propensão do sujeito a "devorar" o objeto
(DN, 31). Sujeito e objeto não formam uma dualidade última e insuperável nem
podem ser reduzidos a uma unidade como o "ser", mas constituem-se
reciprocamente (DN, 176). As mediações objetivas do sujeito são, contudo, mais
importantes que as mediações subjetivas do objeto (27), já que o sujeito
continua sendo sempre uma forma de ser do objeto; ou, em termos mais
concretos: a natureza pode existir sem o homem, mas o homem não pode existir
sem a natureza. O sujeito-objeto de Lukács é, para
Adorno, um caso extremo de "filosofia da identidade", cujas
categorias são meios com os quais o sujeito trata de se apoderar do mundo. O
objeto é identificado através das categorias estabelecias pelo objeto e, assim,
a identidade do objeto, sua qualidade de "individuum
ineffabile", se perde e o objeto fica
reduzido à identidade com o sujeito. O "pensamento identificante"
conhece uma coisa determinando-a como exemplar de uma espécie; porém, desse
modo, não encontra na coisa senão o que o próprio pensamento nela introduziu, e
nunca pode conhecer a verdadeira identidade do objeto. À "boa"
objetividade que devolve aos objetos sua autonomia opõe-se a objetividade
efetivamente "reificadora
" que transforma o ser humano em coisa e o produto do trabalho em
mercadoria-fetiche. A identidade posta pelo sujeito é que priva o homem moderno
de sua "identidade": "O princípio de identidade absoluta é
contraditório em si. Perpetua a não-identidade como oprimida e
prejudicada" (DN, 316). Num mundo em que todo objeto é igual ao sujeito, o
sujeito torna-se um mero objeto, uma coisa entre as coisas. A negação da
identidade dos objetos em benefício da identidade do sujeito que, em todas as
partes, pretende encontrar-se a si mesmo é relacionada por Adorno, ainda que de
modo um tanto vago, com o princípio de equivalência, o trabalho abstrato e o
valor de troca. A reificação realmente existente é
resultado da aversão ao objeto em geral, assim como a alienação decorre da
repressão ao diferente e ao estranho: "Se o diferente deixasse de ser
proscrito, haveria apenas alienação" (DN, 173 ou 175), enquanto que o
sujeito atual "sente-se ameaçado, de modo absoluto, pelo menor resíduo
de/do não-idêntico [...] porque sua aspiração é o todo" (DN, 185).
Não existiu, no
passado, a unidade entre sujeito e objeto - o ser humano não se afastou de sua
"essência" ou de um em-si (DN, 190-193) -,
nem se trata de aspirar ao objetivo de uma "unidade indiferenciada de
sujeito e objeto" mas, sim, a uma
"comunicação do diferenciado" (28). Não se deve esquecer, contudo,
que tais observações se referem a filosofias como o existencialismo.
Dificilmente poderiam ser aplicadas aos situacionistas que criticam o
espetáculo justamente porque nega aos sujeitos a possibilidade de se perderem
no fluir dos acontecimentos: " A alienação social
superável é precisamente aquela que proibiu e petrificou as possibilidades e os
riscos da alienação viva no tempo" (Sde, § 161).
Agora se compreende
melhor porque Adorno defende a arte: considera-a capaz de contribuir para a
superação do sujeito dominador. Somente na arte pode caber uma
"reconciliação" entre sujeito e objeto. Na arte, o sujeito é a força
produtiva principal (TE, 62. 253); e apenas na arte - por exemplo, na música
romântica - o sujeito pode desenvolver-se livremente e dominar seu material sem
violentá-lo, o que significa sempre, em última instância, violentar-se a si
mesmo. Assim, a arte é o "lugar-tenente" da "verdadeira vida"(29), de uma vida libertada "do fatigar-se, do
fazer projetos, do impor sua vontade, do subjugar", na qual o "não
fazer nada, como um animal, flutuar na água e olhar pacificamente o céu [...]
poderiam substituir o processo, o fazer, o realizar" (30). A verdadeira práxis da arte está nessa não-práxis, nessa recusa dos
usos instrumentais e da tão louvada" "comunicação", na
qual Adorno vê a simples confirmação recíproca dos sujeitos empíricos em seu ser-assim. O verdadeiro sujeito da arte não deve ser o
artista nem o receptor, mas a própria arte e aquilo que fala através dela:
" A comunicação é a adaptação do espírito ao útil, mediante a qual se soma
às mercadorias" (TE, 102). Rimbaud, o protótipo das vanguardas, foi para
Adorno "o primeiro artista exímio que recusava a comunicação" (Paralipomena, p. 469). "A arte já não chega aos
seres humanos senão através do choque que atinge o que a ideologia pseudocientífica chama de comunicação; por sua vez, a arte
conserva sua integridade apenas onde não se presta ao jogo da comunicação"
(Paralipomena, p. 476).
Para Debord, em contrapartida, a arte tinha a missão de
intensificar a atividade do sujeito e de servir como meio para sua comunicação.
Tal comunicação existia em condições como as da democracia grega, condições
cuja dissolução levou à "atual perda geral das condições de
comunicação" (Sde, § 189). A evolução da arte
moderna refletia essa dissolução. O espetáculo é definido como
"representação independente" (Sde, § 18) e
como "comunicação do incomunicável" (Sde, §
192). Em 1963, a revista lnternationale Situationniste afirma, peremptoriamente, que "onde
há comunicação não há Estado" (IS, s/30), e Debord
escreveu, já em 1958, que "é preciso submeter a uma destruição radical
todas as formas de pseudo- comunicação para poder chegar um dia a uma
comunicação real e direta" (IS, 1/21), tarefa que não cabe à arte mas a uma revolução que englobe os conteúdos da arte.
Vale a pena recordar que Adorno e Debord
não divergem tanto no que consideram de per se desejável como no que
consideram efetivamente possível nesse momento histórico. Ambos coincidem ao
criticar o fato de que a racionalidade da sociedade tenha sido relegada à
esfera separada da cultura. Adorno fala da "culpa em que (a cultura)
incorre ao isolar-se como esfera particular do espírito sem se realizar na
organização da sociedade" (31). Também Adorno admite, em termos muito
gerais, que "numa humanidade pacificada, a arte deixaria de existir"
(32) e que "não é impensável que a humanidade não necessitasse já da
cultura imanente e fechada em si uma vez que estivesse realizada" (Paralipomena, p. 474). Porém, trata-se apenas de uma
possibilidade remota; e ainda que reconheça que a arte não é mais do que a
representação de algo que falta (TE, 10), Adorno insiste no fato de que,
atualmente, tal carência não tem remédio: é preciso limitar-se, portanto, a
pô-la em evidência. "Quem quer abolir a arte sustenta a ilusão de que não
está fechada a porta para uma mudança decisiva" (TE, 328). E o que vale
para a arte vale também para a filosofia: "A filosofia, que outrora
pareceu superada, continua viva porque deixou passar o momento de sua
realização" (DN, 11). Nem sequer a revolução lhe parece de per se impossível,
mas unicamente privada de atualidade nas condições presentes: "O
proletariado a que ele (Marx) se dirigia ainda não estava integrado:
empobrecia-se de modo evidente, enquanto, por outro lado, o poder social ainda
não dispunha dos meios que lhe assegurassem, na hora da verdade, uma vitória
esmagadora" (33). Contudo, por volta de 1920, cabia certa esperança na
revolução; Adorno refere-se à "violência que há cinqüenta anos durante um
breve período ainda podia parecer justificada para os que abrigavam a esperança
ilusória e demasiado abstrata de uma transformação total" (34). Adorno não
pensa que a arte seja algo tão "elevado" a ponto de se propor como
objetivo a felicidade do indivíduo; como Debord, vê
na arte uma "promessa de felicidade" (35), porém, ao contrário dele,
não acredita que tal promessa possa realizar-se diretamente
mas que só é possível ser-lhe fiel rompendo-a para não traí-la (Paralipomena, p. 461).
Enquanto se trata da
arte do período de 1850 a 1930, Debord partilha das
afirmações de Adorno sobre o valor da pura negatividade; em contrapartida, no
período atual, considera possível passar à positividade, pois, ainda que não se
tenha produzido uma melhora efetiva da
situação social, estão dadas as condições para isso. Adorno, ao contrário,
parte da impossibilidade atual de semelhante reconciliação e da necessidade de
se contentar com sua evocação nas grandes obras de arte. Estamos, pois, diante
de duas interpretações opostas das possibilidades e dos limites da modernidade.
Em 1963, o editorial do número 8 de lnternationale
Situationniste refere-se, com otimismo, aos
"novos movimentos de protesto"; no mesmo ano, Adorno fala de "um
momento histórico em que a práxis parece inviável em todas as partes"
(36). Os situacionistas só podiam acreditar na possibilidade de uma
"superação da arte" porque anos antes de maio de 1968 já esperavam
uma revolução dessa natureza.
Essas divergências
são devidas não só a uma avaliação distinta dos acontecimentos dos anos 50 e
60, mas remetem a diferenças mais profundas na concepção do processo histórico.
Os respectivos conceitos de troca e de alienação determinam o ritmo que os dois
autores atribuem às mudanças históricas. Para Debord,
como para Lukács, a alienação reside no predomínio da
mercadoria na vida social; acha-se vinculada, portanto, ao capitalismo
industrial e suas origens não remontam muito além dos últimos duzentos anos
(37). No interior desse período, as eventuais mudanças de uma década para outra
têm, naturalmente, uma importância considerável.
As mudanças de um
século, inversamente, têm pouco peso aos olhos de Adorno que mede os
acontecimentos com a vara da "prioridade do objeto" e da
"identidade". Para ele, "troca" não significa, em primeiro
lugar, a troca de mercadorias que contêm trabalho abstrato - origem do
predomínio, em âmbito social, do valor de troca sobre o valor de uso - mas uma
supra-histórica "troca em geral" que coincide com toda a ratio ocidental e cujo precedente é o
sacrifício com o qual o homem tratava de congratular-se com os
deuses mediante oferendas que logo se tornaram puramente simbólicas:
esse elemento de engano no sacrifício prenuncia o engano da troca. A troca,
segundo Adorno, é "injusta" porque suprime a qualidade e a
individualidade, e isso muito antes de adquirir a forma de apropriação de
mais-trabalho na troca desigual entre força de trabalho e salário. A troca e a ratio ocidental coincidem na redução da
multiplicidade do mundo a meras quantidades distintas de uma substância
indiferenciada, seja o espírito, o trabalho abstrato, os números da matemática
ou a matéria sem qualidades da ciência.
Com freqüência, se
tem a impressão de que, em Adorno, os traços específicos das épocas históricas
desaparecem diante da ação de certos princípios invariáveis, como a dominação e
a troca que existem desde o começo da história. A Dialética do iluminismo situa
a origem dos conceitos identificadores num passado bastante remoto. Se "os
ritos do xamã se dirigiam ao vento, à chuva, à
serpente exterior ou ao demônio no inferno, e não a matérias ou espécimes"
(DI, 22), a divisão entre a coisa e seu conceito se introduz já no período
animista com a distinção entre a árvore em sua presença física e o espírito que
a habita (DI, 29). A lógica nasce das primeiras relações
de subordinação hierárquica (DI, 36), e com o "eu" idêntico através
do tempo principia a identificação das coisas mediante sua classificação em
espécies. "Unidade é a palavra de ordem, de Parmênides a Russell.
Continua-se exigindo a destruição dos deuses e das qualidades" (DI, 20): e isto significa que hoje continua atuando a mesma
"ilustração" dos tempos dos pré-socráticos. Deveria parecer a Adorno
pouco menos que impossível libertar-se da reificação,
se esta se enraíza nas estruturas mais profundas da sociedade e, contudo, se
nega a tomá-la como uma constante antropológica ou ontológica: "Só à custa
de faltar com a verdade é que se pode relegar a reificação
ao ser e à história do ser, para lamentar e consagrar como destino aquilo que a
auto-reflexão e a práxis por ela desencadeada puderam, eventualmente,
mudar" (DN, 95). O muro que separa o sujeito do objeto não é um muro
ontológico, mas produto da história e pode ser superado no plano histórico:
"Se nenhum ser humano fosse privado de uma parte
de seu trabalho vivo, ter-se-ia alcançado a identidade racional e a sociedade
deixaria para trás o pensamento identificador" (DN, 150). Porém, apesar de
tais afirmações, fica pouco claro como é possível libertar-se da reificação se esta, segundo
Adorno, se acha inclusive nas estruturas da linguagem: na cópula "é"
já se oculta o princípio de identidade sob a forma de identificação de uma
coisa mediante sua identificação com outra coisa que aquela não é (DN, 104-108,
151). Na proposição predicativa, o objeto em questão é determinado mediante a
redução a "simples exemplo de sua espécie ou gênero" (DN, 149). Se o
"eu idêntico" já contém a sociedade de classes (38), se o pensamento
em geral é "cúmplice" da ideologia (DN, 151), achar uma
"saída" parece, então, tarefa bastante trabalhosa. Consequentemente, Adorno situa fora da história concreta o
que cabe esperar para o futuro: um "estado de reconciliação" que ele
próprio compara ao "estado de salvação" religioso (TE, 16).
Às vezes, Adorno
parece insinuar que a revolução e a realização da filosofia foram,
efetivamente, possíveis por volta de 1848; depois, a fusão de
forças produtivas e relações de produção privou o desenvolvimento das
forças produtivas de todo potencial de progresso e impossibilitou toda
perspectiva revolucionária a ponto de desencadear uma espécie de antropogênese regressiva. Desde então, só houve progresso
na arte: "O fato da arte, segundo Hegel, ter sido alguma vez o grau
adequado do desenvolvimento do espírito e já não ser mais (e isto é o que pensa
também Debord), manifesta uma confiança no real
progresso da consciência da liberdade que se viu amargamente decepcionada. Se o
teorema de Hegel sobre a arte como consciência da miséria é válido, então
tampouco está antiquado" (TE, 274). A recaída na barbárie e a vitória
definitiva do totalitarismo são, para Adorno, perigos sempre presentes; a
função positiva da arte consiste em representar pelo menos a possibilidade de
um mundo diferente, de um livre desenvolvimento das forças produtivas. A arte
aparece, pois, como o mal menor: "hoje, a possibilidade abortada do outro
se reduziu à de impedir, apesar de tudo, a catástrofe" (DN, 321).
Adorno constata uma certa invariabilidade das vanguardas: para ele, Beckett
tem mais ou menos a mesma função de Baudelaire; isto se deve à persistência
inalterada da situação descrita, ou seja, da modernidade. Adorno concebe a arte
moderna não só como uma etapa histórica, mas também como uma espécie de
categoria do espírito: coisa que ele próprio admite quando declara que a arte
moderna tende a representar a indústria somente mediante sua colocação entre
parêntesis, e que, "neste aspecto do moderno, houve tão poucas mudanças
quanto no fato da industrialização enquanto decisiva para o processo de vida
dos seres humanos; e, até agora, é isto que dá espantosa invariabilidade ao
conceito estético do moderno" (TE, 53). Como conseqüência dessa "espantosa invariabilidade", "a arte
moderna aparece historicamente como algo qualitativo, como diferença em relação
aos modelos caducos; por isso não é puramente temporal: o que ajuda, ademais, a
explicar que, por um lado, tenha adquirido traços invariáveis que, amiúde, lhe
são criticados e que, por outro, não se possa liquidá-la como algo
superado" (Paralipomena, p. 404).
Os situacionistas
distinguem uma fase ativa e crítica da decomposição formalista da arte
tradicional de outra fase de repetição vazia do mesmo processo. Adorno deve
rejeitar semelhante distinção enquanto pressupõe uma mudança positiva da
sociedade que não se produziu. Contudo, também Adorno parece duvidar da
continuidade da arte moderna e, para sua defesa, recorre sempre aos mesmos
nomes: em primeiro lugar Kafka e Schönberg, depois
Joyce, Proust, Valéry, Wedekind,
Trakl, Borchardt, Klee, Kandinsky, Masson e Picasso; sua filosofia da música apoia-se quase que exclusivamente na Escola de Viena (Webern, Berg). Quando Adorno fala de
"modernidade", refere-se, de fato, à arte do período de 1910 a 1930 -
sobretudo ao expressionismo -, isto é, ao mesmo período que, para os
situacionistas, representa a culminância e o fim da arte. Aos artistas e às
tendências artísticas que se revelaram depois da Segunda Guerra Mundial, com
exceção de Beckett e poucos mais, não os tem em muito maior estima que os
situacionistas. Apesar de ter tido oportunidade, durante vinte e quatro anos,
de observar os artistas do pós-guerra, ou os omite - como Yves Klein, Pollock ou Fluxus - ou os condena
- como ao happening (TE, 140). O compositor Pierre Boulez
lembra que, na década de 50, sua geração de compositores via Adorno como
representante de um movimento estético do passado; Adorno, por sua vez, tinha
sérias dúvidas a respeito daquela nova geração e escrevia sobre "o
envelhecimento da nova música" (39). E também Adorno ataca o fenômeno que Debord chama a destruição "em fogo brando" de
algumas estruturas já decompostas "a fim, entretanto, de lhes retirar
algum proveito" (40): "Quando uma possibilidade de inovações se
esgotou e elas continuam sendo buscadas numa linha que as repete, então a
inovação deve mudar de rumo" (TE, 38).
Para Adorno, não há
nenhuma dúvida de que o desenvolvimento das forças produtivas sociais alcançou
um ponto em que se reduz a um fim em si. Dificilmente se compreende, portanto,
porque uma situação de semelhante imobilismo que se prolonga durante todo um
século não haveria de levar, finalmente, a uma imobilização análoga das forças
produtivas estéticas. Estas podem continuar sua evolução durante certo tempo
mesmo na ausência de um progresso paralelo da sociedade em seu conjunto, mas,
tarde ou cedo, esse processo há-de encontrar um
limite. De fato, Adorno estava muito consciente da grave crise da arte moderna
e punha em dúvida o sentido de muitas das experiências artísticas das décadas
de 50 e 60. Não há contradição entre isso e o fato de Adorno defender
apaixonadamente Beckett que os situacionistas citam, em sentido contrário, como
exemplo do artista que se instala com complacência no vazio, pois Adorno
descreve Beckett mais como uma fase final da arte do que como uma prova de sua
vitalidade. Vista a partir de hoje, a diferença de critério parece reduzir-se,
portanto, à questão de saber se os "últimos artistas" devem ser
situados na década de 30 ou na década de 50.
Em 1952, Debord apresenta, aos vinte anos, o filme Hurlements en faveur de Sade (41). Durante a
primeira meia hora, a tela permanece alternadamente em branco e em preto,
enquanto se ouve uma colagem de textos diversos: na seqüência, os últimos vinte
e quatro minutos submergem os espectadores na escuridão e no silêncio completos
(42). Não deixa de ser curioso que neste filme se encontre tudo aquilo que
Adorno elogia na arte moderna e, particularmente, em Beckett: a ausência de
comunicação, a decepção deliberada das expectativas do público, que espera que
a obra "atenue a alienação", para confrontá-lo, ao contrário, com um
máximo de reificação (TE, 225) e, finalmente, a
fidelidade à "proibição das imagens". O filme tinha, ademais, a cor
recomendada por Adorno: "Para subsistir em meio aos aspectos mais extremos
e mais sombrios da realidade, as obras de arte que não quiserem se vender como
consolo devem igualar-se a eles. Hoje, arte radical
quer dizer arte sombria, cuja cor fundamental é o negro" (TE, 60). E, no
entanto, é justamente aqui onde se evidencia toda a diferença entre Debord e Adorno. Para Debord, que
não pecava por modéstia excessiva, com seu filme se havia atingido o ponto
extremo da negação na arte, ao qual haveria de se seguir uma nova positividade,
coisa impossível para Adorno: " A negação pode
converter-se em prazer, mas não em positividade" (TE, 60). Em 1963, Internationale Situationniste
escreve, referindo-se ao filme de Debord, que
"a ação real da vanguarda negativa" não foi uma "vanguarda da
ausência pura, mas sempre uma encenação do escândalo da ausência com a
finalidade de convocar para uma presença desejada" (IS, 8/19). No mesmo
artigo, considera-se um êxito que o público da estréia se tivesse enfurecido e
interrompesse a projeção do filme antes do fim, recusando assim o papel de
consumidores e saindo da lógica da obra de arte. Os situacionistas rejeitam
como "neodadaísmo" quase toda a produção
artística de seus contemporâneos e acusam-na de "instalar-se na
nulidade" (43) e de ser "uma arte apologética da lata de lixo"
(IS, 9/41).
À pergunta sobre se,
entretanto, nas últimas décadas, produziram-se ou não obras de valor, tanto
Adorno quanto Debord respondem apenas com simples
afirmações que estão no limite da opinião pessoal. "O nascimento de cada
obra de arte autêntica contradiz a declaração de que já não poderia
nascer" (TE, 328 ), diz Adorno, enquanto Debord assegura, no prólogo à reedição de Potlatch, que "o julgamento de Potlatch sobre o fim da arte moderna podia parecer muito
exagerado para o pensamento de 1954. Hoje se sabe [...] que, desde 1954, não se
viu aparecer, em parte alguma, um único artista de verdadeiro interesse (44).
Mais frutífero parece
ser o confronto no plano teórico. Cabe, sem dúvida, um certo
ceticismo diante da afirmação de Debord de que a
realização direta das paixões é, em todo caso, preferível à sua transfiguração
artística; sua visão otimista, naquele momento, da possibilidade de passar à
"verdadeira vida" hoje convence muito menos do que na década de 60.
Porém, ao mesmo tempo, tampouco se pode negar a situação aporética,
assinalada por Debord, em que se encontra a arte e
cujo alcance Adorno parece haver subestimado. A lógica evolutiva da arte
moderna foi a de uma escalada implacável e conduziu rapidamente a extremos como
a página em branco de Mallarmé, o quadrado branco sobre fundo branco de Malévitch, a poesia onomatopéica e Finnegan's
Wake.
Adorno expressa isso
comentando que, depois de ter visto uma peça de Beckett, perde-se o interesse
por qualquer outra obra menos radical (TE, 35). Sendo assim, já não se pode
inventar nada de novo no mesmo sentido nem tampouco se pode voltar atrás. No
transcorrer deste século, o mundo certamente não recuperou o
"sentido" e a "representabilidade"
que constituíram o conteúdo da arte tradicional e cujo desaparecimento foi o
tema das vanguardas.
A relação da arte
moderna com o desdobrar da lógica do valor de troca foi ambígua em mais de um
aspecto. Por outro lado, a arte moderna registrou negativamente a dissolução
das formas de vida e das comunidades tradicionais e de seus modos de
comunicação que se produziu desde a segunda metade do século passado. O choque
da "incompreensibilidade" queria evidenciar esse desaparecimento.
Mesmo antes das vanguardas no sentido estrito, a nostalgia de uma
"autenticidade" perdida do vivido se convertera num tema central da
arte. Por outro lado, a arte viu em tal dissolução uma libertação de novas
possibilidades e um acesso a horizontes inexplorados da vida e da experiência;
celebrava um processo que, de fato, consistia na decomposição das formações
sociais pré-burguesas e na libertação da individualidade abstrata das
restrições pré-modernas. Diferentemente do movimento operário, a arte não
identificava essas restrições unicamente à exploração e à opressão política,
mas viu como incluídas nelas também a família, a moral, a vida cotidiana e
ainda as estruturas da percepção e do pensamento. Porém a arte, do mesmo modo
que o movimento operário, não sabia decifrar esse processo de dissolução como
vitória da mônada do dinheiro abstrato, mas acreditou
(45) reconhecer nele o princípio de uma dissolução geral da sociedade burguesa,
incluindo-se o Estado e o dinheiro, ao invés de ver que se tratava de uma
vitória das formas burguesas mais avançadas - como o Estado e o dinheiro -
sobre os resíduos pré-burgueses. Foi assim que a arte moderna preparou,
involuntariamente, o caminho para o triunfo completo da subjetividade
estruturada pelo valor de troca sobre as formas pré-burguesas, as quais confundia com a essência da sociedade capitalista.
A perturbação das supra-estruturas tradicionais - da moral sexual ao aspecto
das cidades - parecia à arte moderna uma conseqüência necessária da revolução
das formas de produção: conseqüência a que a burguesia, contudo, se opunha a
fim de conservar seu poder e que a arte, no entanto, erroneamente acreditou dever
reivindicar. O La destruction fut
ma Béatrice, de Mallarmé, tornou-se realidade de
um modo muito distinto do que pôde imaginar o poeta. A própria sociedade
capitalista encarregou-se da obra de dissolução exigida por seus críticos:
efetivamente, ocorreram a abertura de novos caminhos e o abandono das formas
tradicionais, não para libertar a vida dos indivíduos de coerções arcaicas e
asfixiantes mas para eliminar todos os obstáculos à
transformação total do mundo em mercadoria. A decomposição das formas artísticas
se faz, então, inteiramente isomorfa ao estado real do mundo e já não pode
produzir nenhum efeito de choque. A ausência de sentido e a afasia das obras de
Beckett, a incompreensibilidade e o irracionalismo já não representam senão uma
parte integrante e indistinta do meio circundante: seu efeito já não é crítico mas apologético. O "irracionalismo" das
vanguardas foi sobretudo um protesto contra uma
"racionalidade" falsa e mesquinha que aprisionava o potencial humano
prefigurado no imaginário e no inconsciente. Mas, que sentido poderia ter esse
irracionalismo artístico hoje, quando o irracionalismo da organização social se
exibe em toda a sua extensão e já nem sequer procura se ocultar? Adorno não
parece haver pensado até as últimas conseqüências sobre essa mudança das
condições sociais. Sua análise do trabalho negativo da arte formalista continua
sendo válido para as vanguardas históricas, mas não capta o que está em jogo
atualmente.
Lukács havia criticado injustamente as
vanguardas de seu tempo. Ainda que tenha observado a coincidência da dissolução
das formas artísticas e sociais, viu na dissolução artística uma simples
apologia do social e não compreendeu sua função crítica. Por uma ironia da
sorte, contudo, seu veredicto contra os originais se aplica bastante bem às
tendências que ao longo das últimas décadas se apresentaram como herdeiras
daquelas vanguardas. Os critérios necessários hoje não são, com certeza, os de Lukács, dado que não pode se tratar de um retorno às formas
pretensamente "corretas" da época pré-burguesa. Ao contrário, foram
os expoentes mais conscientes das vanguardas os primeiros a reconhecer que a
continuação de sua tarefa crítica exigia uma revisão. Quando se perguntou a
André Breton, numa entrevista de 1948, se os surrealistas de 1925, em seu
desejo de perturbar a paz burguesa, não teriam exaltado inclusive a bomba
atômica, contestou: "Em La lampe dans l'horloge [...] o senhor
verá que me expressei sem rodeios sobre esta mudança fundamental: a aspiração
lírica ao fim do mundo e sua retratação em relação às novas
circunstâncias" (46). Em 1951, em poucas e concisas palavras, Breton
expressa a mudança decisiva que ocorrera em menos de
trinta anos e que - poderíamos acrescentar - não deixou, desde então, de se
estender ao infinito: "Na França, por exemplo, o espírito estava, naquele
momento, ameaçado de paralisia, ao passo que, hoje, está ameaçado de
dissolução" (47). Os situacionistas foram os continuadores dessa
autocrítica das vanguardas. A crítica de Debord aos
surrealistas é, justamente, em relação ao seu irracionalismo que serve apenas à
sociedade existente, e insiste na necessidade de "tornar o mundo mais
racional, o que é a primeira condição para torná-lo mais apaixonante"
(48). Se os surrealistas, em 1932, haviam apresentado as "pesquisas
experimentais sobre certas possibilidades de embelezamento irracional de uma
cidade", o grupo letrista de Debord elaborou, em
1956, um divertido "projeto de embelezamento racional da cidade de
Paris" (49).
A estagnação e a
falta de perspectivas da arte moderna correspondem à estagnação e à falta de
perspectivas da sociedade da mercadoria, que esgotou todos os seus recursos. A
glória da primeira passou juntamente com a glória da segunda. Não será mais só
a arte que decidirá se a arte tem ou não um futuro e em que consiste este
futuro.
(Traduzido do
espanhol por Iraci D. Poleti. Publicado em alemão
in Krisis, nº 15, 1995 e em
espanhol in Mania, nº 1, 1995)
1 Nem sempre as idéias da Internacional
Situacionista são idênticas às de Debord; citamos, aqui, apenas os pontos
em que coincidem.
2 Por "economia" não se
entende aqui, é claro, a produção material enquanto tal mas, sim, sua organização
como esfera separada a que se subordina o resto da vida. Convém observar que
esse processo é, antes, a conseqüência e a forma fenomênica da vitória da
forma-valor, enquanto for pura vida social.
3 As referências aos textos mais citados
são feitas através de siglas: Sde = Debord, La société
du spectacle ( 1967),
Gallimard, 1992; IS = lnternationale Situationniste, revista do grupo homônimo (1958-1969), reimp. ed. G. Lebovici,
Paris, 1985; TE = Adorno, ÄsthetischeTheorie, Suhrkamp, Frankfurt, 1970; DI = Horkheimer/Adorno,
Dialektik der Aufklärung
(1947), S. Fischer Verlag, Frankfurt, 1979; DN =
Adorno, Negative Dialektik
(1966}, Suhrkamp, Frankfurt, 1988.
4 Nos últimos anos, um uso jornalístico
mais amplo difundiu a expressão "sociedade do espetáculo" para se
referir à tirania da televisão e a fenômenos similares, enquanto que o próprio Debord considera que a mídia é apenas a mais opressiva
manifestação superficial" do espetáculo (Sde & 24). Para Debord, a estrutura global de todas as sociedades
existentes é "espetacular", inclusive as do Leste (tese especialmente
ousada em 1967).
5 Adorno, Stichwörte (1969), Suhrkamp,
Frankfurt, 1989, p. 161.
6 Adorno,
Soziologische Schriften
(1972), Suhrkamp, Frankfurt, 1979, p. 13 sq.
7 Dialektik
der Aufklärung, ed. al.
cit., p. 29.
8 Adorno já havia chegado a essa
conclusão na década de 30; cf. Dissonanzen in Ges.Schr., 14, p. 24 e sq.
9 Nenhum livro de Adorno foi traduzido
para o francês antes de 1974, ano em que a teoria situacionista já estava
elaborada; em sentido inverso, parece que tampouco Adorno teve oportunidade de
conhecer os textos de Debord.
10 Debord, "Préface à la quatrieme
édition italienne" de
La société du spectacle, Champ Libre, Paris, 1979, p. 38.
11
Adorno, Eingriffe,
Suhrkamp, 1963, p. 69, 74 sq.
12
Adorno, Ohne
Leitbild, Suhrkamp,
1967, 1973, p. 70.
13 Ibid., p.
68.
14 Adorno, Primen (1955), Suhrkamp,
1976, p. 30.
15 Paralipomena: conjunto de anotações
preliminares para a Teoria Estética e que não foi incorporado à última
redação da obra que, como se sabe, ficou inacabada quando da morte do autor (o
texto não aparece na versão espanhola, embora esteja nas edições francesa - Klincksieck, Paris, 1989 - e italiana -Einaudi, Torino, 1977. Nota da tradução espanhola).
16 Raoul Vaneigen, Traité du savoir-vivre à l' usage