TEXTOS
O impensável e o impossível vão se encontrar!
Crítica
Radical
Ne courez plus ver ne
courez plus vers l’effondrement (Version
française)
Do not run any more for the collapse! (English
version)
No corra más hacia el colapso ! (Version española)
Um homem ficava perturbado ao ver sua sombra e
mal-humorado ao notar suas pegadas. Um dia
resolveu livrar-se de ambas. Levantou-se e
pôs-se a correr para fugir tanto de uma como
da outra.
Mas a sombra continuava acompanhando-o e, ao
colocar o pé no chão, aparecia a pegada. Atribuiu seu
erro ao fato de que não estava correndo
como devia. Então pôs-se a correr
velozmente e sem parar.
Um sábio soube da história do homem e
resolveu ajudá-lo. Pensou bastante e descobriu
uma maneira de acabar com o seu sofrimento.
Mas quando o sábio chegou para visitá-lo soube que o
homem tinha morrido, quando corria.
A crise ecológica mundial e sua
conexão com a agressão ao “Parque do Cocó” em Fortaleza
A cidade de Fortaleza se situa no
entorno do “Parque do Rio Cocó”, que ao chegar às proximidades de sua foz se
alastra e se constitui num complexo de mangues próprios à manutenção de um
ecossistema biológico importante para o equilíbrio natural da cidade. Trata-se
de um dos mais importantes sistemas ecológicos urbanos, e isso situado numa
cidade de cerca de 2,4 milhões de habitantes, figurante entre as maiores
capitais do país. Tal condição não ficaria imune às agressões ao meio ambiente
próprias a uma sociedade que considera a terra uma mercadoria e os cursos
d’água como escoadouro barato de dejetos humanos e industriais, e onde tudo é
mensurado por um quantitativo de valor e destinado a sua reprodução contínua.
Assim, além das já conhecidas agressões poluentes que tornam as águas do rio e
do mangue do Parque do Cocó impróprias para o consumo humano, e até mesmo para
a pesca e outras atividades extrativas da piscicultura, desde há muito, e agora
mais intensamente, avançam construções de imóveis sobre as suas margens, numa
corrida autofágica provocada pela especulação imobiliária e pela avidez de
lucros do setor da construção civil.
Anselm Jappe
Sabe-se que a descoberta de um Marx
"heterodoxo" nos anos sessenta casava bem com a evidenciação das suas
raízes hegelianas — em teóricos como Adorno e Marcuse, assim como em autores
mais engajados numa releitura filológica de Marx tais como Roman Rosdolsky,
Hans-Georg Backhaus ou Helmut Reichelt. Na França, Hegel era conhecido
sobretudo através da leitura para-existencialista que fizeram dele Alexandre
Kojève nos anos trinta. Pode-se, assim, dizer que A sociedade do espetáculo é uma das raras contribuições francesas
ao hegelo-marxismo, e convém mencionar que Debord, no fim da vida — quando ele
estava, segundo alguns, completamente desviado de todo pensamento marxista ou
filosófico — acreditava ainda que ter dado essa contribuição foi um de seus...
O ESPETÁCULO COMO ILUSÃO E REALIDADE
Gérard Briche
A noção de "espetáculo", da qual os
situacionistas fizeram seu conceito crítico mais conhecido, é uma noção
equívoca. Sua banalidade aparente se deve muito ao fato de que ele seja
empregado por numerosos cretinos, que se apóiam Debord com toda inconsciência e
com toda impostura.
O cúmulo dessas imposturas, no mais das vezes
conscientes, consiste em atribuir aos situacionistas e a Debord, ao contrário
da evidência (e de suas declarações explícitas!), uma raiva das imagens [1].

DE QUE AMANHÃ SE
TRATA?
Por causa disso, esta
edição apresenta novos desafios aos(às) leitores(as). Expõe descobertas
significativas. Mostra idéias e propostas em movimento. Idéias e práticas que
continuam buscando o quarto proibido. O quarto onde estão guardados os segredos
mais importantes da humanidade...
1. O domínio do trabalho morto
Um cadáver domina a sociedade – o
cadáver do trabalho. Todos os poderes ao redor do globo uniram-se para a defesa
deste domínio: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e
empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só
conhecem um lema: trabalho, trabalho, trabalho !
Os que ainda não desaprenderam a pensar
reconhecem facilmente que esta postura é infundada. Pois a sociedade dominada
pelo trabalho não passa por uma simples crise passageira, mas alcançou seu
limite absoluto. A produção de riqueza desvincula-se cada vez mais, na
seqüência da revolução microeletrônica, do uso de força de trabalho humano –
numa escala que há poucas décadas só poderia ser imaginada como ficção
científica. Ninguém poderá afirmar seriamente que este processo pode ser freado
ou, até mesmo, invertido. A venda da mercadoria força de trabalho será no
século XXI tão promissora quanto a venda de carruagens de correio no século XX.
Quem, nesta sociedade, não consegue vender sua força de trabalho é considerado
"supérfluo" e é jogado no aterro sanitário social.
Quem não trabalha,
não deve comer ! Este fundamento cínico vale ainda hoje – e agora mais do que
nunca, exatamente porque tornou-se desesperançosamente obsoleto. É um absurdo:
a sociedade nunca foi tanto sociedade do trabalho como nesta época em que o
trabalho se faz supérfluo. Exatamente na sua fase terminal, o trabalho revela,
claramente, seu poder totalitário, que não tolera outro deus ao seu lado. Até
nos poros do cotidiano e nos íntimos da psique, o trabalho determina o pensar e
o agir. Não se poupa nenhum esforço para prorrogar artificialmente a vida do
deus-trabalho. O grito paranóico por "emprego" justifica até mesmo
acelerar a destruição dos fundamentos naturais, já há muito tempo reconhecida.
Os últimos impedimentos para a comercialização generalizada de todas as
relações sociais podem ser eliminados sem crítica, quando é colocada em
perspectiva a criação de alguns poucos e miseráveis "postos de
trabalho". E a frase, seria melhor ter "qualquer" trabalho do
que nenhum, tornou-se a profissão de fé exigida de modo geral.
Economistas neoliberais e
críticos tradicionais do capitalismo têm uma coisa em comum: uns e outros
admiram a dinâmica capitalista que aparentemente não tem entraves. Mas a
acumulação do capital há muito que ocorre essencialmente nos mercados de capital-dinheiro,
sob a forma de bolhas financeiras sem substância. Uma parte crescente da
produção de mercadorias, real mas pobre em trabalho e nesse sentido
substancialmente "desvalorizada"...
Anselm
Jappe
"Nunca um candidato
especulou de modo mais monótono sobre a monotonia das massas", disse Marx
referindo-se a Napoleão III. Inúmeros habitantes da Itália ou do Brasil devem
ter tido a mesma sensação quando viram chegar ao poder um Berlusconi ou um
Collor de Mello. Poder-se-ia, então, ter a impressão de que a
"democracia", duramente conquistada, tivesse sido anulada de repente,
dado que o uso "despolitizante" da mídia e da indústria do
entretenimento permite aos poderosos fazerem eleger pelo povo,
"democraticamente", quem bem entenderem. A diferença entre Napoleão
III e seus êmulos modernos (1) é que estes construíram sua fortuna política
sobre o uso desabusado da mídia e da notoriedade que a televisão confere.
Fizeram-no com tal sucesso, que seus adversários passaram a reivindicar em alto
e bom som uma partilha equitativa de tais vantagens(2), ao mesmo tempo em que,
virtuosamente, declaram que não fica bem vender um homem político como se vende
um detergente. A redução da política a "mero espetáculo" é pois,
geralmente, criticada um pouco por toda parte e, sobretudo, por quem se vê,
momentaneamente, em desvantagem no terreno do confronto. Quem quer aparecer
como crítico sério e preocupado com os destinos da sociedade reclama que a
"política", a verdadeira, séria, com p maiúsculo, seja recolocada em
seu trono.
TESES SOBRE A SOCIALIZAÇÃO PELO VALOR E A RELAÇÃO ENTRE OS SEXOS
Roswitha Scholz
Este
artigo discute o problema da correlação entre capitalismo e patriarcado, que,
segundo a autora, ainda permanece sem solução, após vinte anos de pesquisa
feminista. A autora rejeita a tentativa que fazem alguns grupos feministas de -
ao tentar introduzir a problemática dos sexos como relação social constitutiva
na crítica marxista ao patriarcado - conferir ao trabalho doméstico o mesmo
estatuto do trabalho assalariado, o que levaria a uma reificação ainda maior
das relações sociais no plano teórico. E propõe a tese de que a contradição
básica da socialização através da forma-valor é determinada com especificação
sexual. Tratar-se-ia, portanto, de compreender o trabalho abstrato e o valor
como princípio masculino, caso contrário se recairia numa hierarquia
conceitual, em que a distribuição dos papéis sexuais é remetida a uma
correlação secundária....
UMA CRISE INÉDITA
Crítica Radical
Uma
crise inédita ronda o mundo – a crise do dinheiro!
Seus mais recentes impactos exibem um cenário
de terra arrasada sobre a humanidade e o planeta.
Para enfrentar esta crise, duas
propostas:
Uma quer que a civilização do dinheiro
continue.
A outra quer superá-la.
A primeira está impotente frente à
catástrofe que nos ameaça. Ao administrar a crise contribui para aprofundar a
barbárie.
A segunda entende a crise como
oportunidade rara para a emancipação humana. Daí o alerta pra recusar e superar
o dinheiro, sua crise, sua vida e sua sociedade.
Será possível?
Uma subversão
radical ronda o mundo – a subversão pra superar o capitalismo.

PUBLICAÇÃO DO GRUPO
Anselm Jappe
Ensaísta
escreve sobre Gênese e Estrutura de O capital de Karl Marx de Roman Rosdolsky,
livro cuja versão em português será lançada em Fortaleza. Trata-se de um guia
para a obra de Marx.
É
raro nestas épocas, que uma obra marxista seja traduzida, vendida, lida e
discutida 34 anos depois da sua primeira publicação. Mas, é exatamente isto que
acontece, atualmente no Brasil, com o livro Gênese e estrutura de O
capital de Karl Marx, de Roman Rosdolsky. E apesar de se tratar de um
livro muito erudito, ele não interessa somente como documento histórico, mas
também como um guia atualíssimo para compreender a obra de Marx.
As
raras informações biográficas disponíveis sobre o autor nos fazem pensar que a
sua vida não foi particularmente feliz: era sempre um homem errado, no lugar
errado. Nascido no ano de 1898 em Galizia (uma parte histórica da Polônia)
aderiu ao socialismo durante a primeira Guerra Mundial. Colaborava na edição
das obras completas de Marx e Engels em Moscou, quando Stalin decide, em 1931
acabar com este empreendimento. Estava na Polônia quando da invasão dos
nazistas, que o levaram preso para um campo de concentração, e depois,
finalmente emigrou para os EUA, onde naquela época a vida não era muito fácil
para um estudioso marxista. De fato, ele mesmo recorda a dificuldade para
encontrar textos para estudar.
Fetichismo
Conceito que se origina na crítica da religião
do século XVIII, sendo considerado uma característica essencial das religiões
"primitivas". Fundamentava-se nas observações de colonizadores
portugueses na África e servia para designar uma crença que imagina em objetos
mortos uma alma e forças sobrenaturais. Marx referiu esse conceito ironicamente
à moderna sociedade produtora de mercadorias, que se sujeita a um fetichismo
análogo na forma do dinheiro e de seu movimento de exploração em empresas.
Assim, o conceito tornou-se corriqueiro na critica da lógica da mercadoria,
apesar de ser, a rigor, demasiadamente geral. Pois no fundo, Marx não quer
ressaltar, apenas, o fato de que a objetos em geral podem ser atribuídas forças
sobrenaturais que nada tem a ver com sua existência natural...

PUBLICAÇÃO
DO GRUPO
AS LEITURAS DE MARX PARA O SÉCULO XXI(*)
Quem for tido por
morto vive mais. Na qualidade de teórico ativo e crítico, Karl Marx já foi dado
por morto mais de uma vez, mas sempre conseguiu escapar da morte histórica e
teórica. Tal feito se deve a um motivo: a teoria marxista só pode morrer em paz
juntamente com o seu objeto, ou seja, com o modo de produção capitalista. Esse
sistema social, que é "objetivamente" cínico, regurgita sobremodo de
exigências de comportamentos tão descaradas impostas aos seres humanos, produz
ao lado de uma riqueza obscena e insípida uma pobreza em massa de tal dimensão,
é marcado em sua dinâmica de cólera cega pelo potenciamento de catástrofes tão
incríveis que a simples sobrexistência desse sistema necessita...
CRÍTICA DO CAPITALISMO PARA O SÉCULO
XXI
Com
Marx para além de Marx: o Projecto Teórico do Grupo "EXIT!"
O
texto aqui apresentado procura sintetizar numa espécie de
"instantâneo" o processo de elaboração teórica desenvolvido até hoje
a partir da abordagem da crítica social defendida nesta página de Internet.
Poderá servir como primeira orientação para novos interessados. É um texto
programático, claro que não no sentido dum programa político, que estabeleça
uma "linha", mas no sentido de um programa teórico, em muitos
aspectos ainda a desenvolver.
Sic
Transit gloria artis
O "fim da arte" segundo Theodor W. Adorno e Guy Debord
Anselm Jappe
É difícil, atualmente, eludir a
idéia de que o "fim da arte", proclamado aos quatro ventos e, com não
menos ardor, rechaçado durante a década de 60, tenha finalmente ocorrido,
embora com alguma dissimulação: "Not with a bang, but with a whimper"
(T.S. Eliot). Durante mais de cem anos, a evolução da arte foi identificada a
uma sucessão ininterrupta de inovações formais e de "vanguardas" que
ampliavam cada vez mais as fronteiras da criação. Porém, após um último período
de esplendor - pelo menos aparente - que chega até o início dos anos 70, não se
impôs nenhuma nova tendência vanguardista e apenas se observou a repetição de
elementos fragmentários, isolados e desvirtuados da arte do passado. A suspeita
de que a arte moderna esteja esgotada começa a propagar-se inclusive entre
aqueles que, durante muito tempo, a haviam firmemente recusado. O mínimo que se
pode dizer é que, há decênios, nada se viu de comparável às revoluções formais
do período de 1910 a 1930. Entretanto, se hoje se produzem ou não obras de
valor é, com certeza, uma questão discutível; mas dificilmente se encontrará
quem ainda veja na arte dos últimos anos a "manifestação sensível da idéia"
ou, pelo menos, uma expressão tão consciente e concentrada de sua época como
foram a literatura, as artes visuais e a música das primeiras décadas do
século.
Até onde é
desejável, obrigatório ou lícito que vá a crítica ao Iluminismo?
A crítica radical tem que se debater
com a inércia aparentemente avassaladora do existente que se sedimentou na
consciência geral e, por conseguinte, também na esfera teórica da sociedade; e
não apenas no plano da reflexão enquanto tal, mas igualmente nos hábitos e
preconceitos intelectuais, nas imaginações e nos ideais, assim como nas
limitações institucionais, nos limites impostos por tabus etc. Tanto mais importa,
quando se trata de formular uma crítica radical da própria crítica radical,
revolucioná-la, dotá-la de um paradigma novo. Nesse contexto coloca-se o
problema da resistência de atrito em potência, porque nesse caso a sedimentação
de algo existente tem de ser superada em um sentido duplo: por um lado, na
consciência geral da sociedade oficial e, por outro, no seio da consciência
geral da crítica exercida até à data que se pretende transformar.
PENSAR NOVAS FORMAS DE PRODUÇÃO E DE CONSUMO
Anselm Jappe
A miséria e
o desemprego se espraiam pelo mundo afora e se difunde cada vez mais a sensação
de que vivemos numa época de crise contínua e aguda. Mas não sempre se tem em
conta um fato tão fundamental quão elementar: não são as capacidades produtivas
que estão em crise. Pelo contrário, se produz muito mais do que se usa, e se
joga, literalmente, no mar os “excedentes” alimentares. O que efetivamente está
em crise é o mecanismo de mediação, representado pelo dinheiro: no capitalismo,
se produz somente aquilo que pode ser transformado em dinheiro, o que é vendido
no mercado, caso contrário se abandona a produção, por mais útil que ela possa
ser; e somente quem consegue transformar a sua força-trabalho em dinheiro pode
aceder aos produtos disponíveis, caso contrário permanecem inutilizados.
O REINO DA CONTEMPLAÇÃO PASSIVA
Anselm Jappe
Gostaria de começar precisando
algumas idéias de Guy Debord, autor do livro A Sociedade do Espetáculo que
dá, num certo sentido, o título a todo este ciclo de conferências. Como foi
justamente sublinhado nas contribuições dos organizadores e de alguns dos
conferencistas dos quais pude ler os resumos, a crítica radical do espetáculo
formulada por Debord vai muito além de uma simples crítica à televisão e aos
meios de comunicação de massa. Ele mesmo disse: "O espetáculo não pode ser
compreendido como um abuso do mundo visível, produto das técnicas de difusão
massiva das imagens." Reconhecer, hoje, um valor "profético" no
livro de Debord publicado em 1967 é portanto fácil, mas também redutivo, se se
vê a perspicácia de Debord somente no fato de ele ter pressentido uma sociedade
dominada por uma dúzia ou uma centena de canais televisivos de entretenimento
ou notícias-espetáculo. Atualmente está na moda, nos ambientes que se crêem
mais inteligentes, torcer o nariz diante do "espetáculo", e existem
diretores de televisão e idealizadores de programas televisivos na Itália e
ministros franceses que amam citar Debord e elogiá-lo.
As
Aventuras da Mercadoria – Apresentação
Le avventure della merce, As
aventuras da mercadoria quer ser, sobretudo um livro introdutório, um texto
didático. Desde o início dos anos noventa, a “crítica do valor” saiu do
estreito círculo dos iniciados para atingir um público mais amplo, sobretudo
graças aos livros de Robert Kurz . Isso vale particularmente para o Brasil.
Mas, faltava um texto que reassumisse os temas essenciais da crítica do valor.
Procurei, por isso, escrever um livro que não pressupõe nenhum conhecimento
prévio do leitor, nem uma adesão sua a alguma idéia. Começando com a análise
das relações mais elementares, que intercorrem entre aqueles que vivem numa
sociedade na qual a satisfação das necessidades toma a forma de uma troca de
mercadorias, conduzi, depois, lentamente a análise a níveis mais complexos. Se
o leitor admitir os resultados, muito evidentes, das análises de base – que se
referem à troca de poucas mercadorias -, deve depois, conseqüentemente,
reconhecer também a verdade de tudo o que segue.
A
ciência e a emancipação humana
Resumo da conferência apresentada
em Fortaleza em 2005
Anselm Jappe
Qual é a posição na história da relação entre
o que pode ser chamado, em sentido amplo, "pensamento
emancipacionista" (isto é, a liberação dos indivíduos da coerção
heterônima, da forma de vida não sujeita à discussão livre, portanto de
diversas formas de fetichismo social) de um lado, e a confiança na ciência e
nas suas aplicações tecnológicas do outro lado ?
Durante muito tempo - desde as primeiras
manifestações do Iluminismo em diante - a crítica social via a ciência como sua
aliada, concebida como o oposto da religião e da tradição, isto é, dos reinos
estabelecidos sem discussão e sem justificativa.
O advento de uma sociedade melhor era muitas
vezes considerado como a conseqüência inevitável do progresso da ciência e da
sua aplicação à vida e às forças produtivas. Progresso social e progresso
científico pareciam marchar no mesmo passo. Antes, o socialismo parecia a condição
social necessária para que a ciência pudesse verdadeiramente desenvolver o seu
potencial de melhorar da vida humana.
O PASSADO E O PRESENTE DA
TEORIA (De Debord)*
Anselm Jappe
A crítica situacionista no contexto da sua
época
É interessante examinar o lugar da crítica situacionista no
interior do pensamento francês moderno, marxista ou não. Ver-se-á o quanto a
posição situacionista ia "contra a corrente" na década de 60 mas, também,
o quanto estava objectivamente próxima de outras correntes de pensamento.
O marxismo francês sempre
apresentou características muito particulares. Antes de tudo, é necessário
lembrar que, na França, o pensamento socialista foi menos marxista que em outros
lugares, em proveito de autores como Proudhon e Fourier. E mesmo nos aspectos
em que se prevalecia do marxismo, houve duas tendências que, de facto, nunca se
encontraram: de um lado, um "marxismo" de uso "popular",
reduzido ao mínimo e abundantemente "pedagogizado", que o PCF
oferecia como um catecismo aos seus adeptos.
ENTREVISTA CONCEDIDA POR ANSELM JAPPE EM
2003 NO RIO DE JANEIRO
Antivalor: No Brasil existe um certo desconhecimento
em relação ao Grupo Krisis. A obra de Robert Kurz é relativamente bem
conhecida, mas o mesmo não ocorre com a obra do Krisis em geral. Como, então,
surgiu o Grupo, quais foram os seus desdobramentos ao longo do tempo e qual a
relação que você estabelece com ele?
Anselm Jappe: O Grupo Krisis nasceu em 1986, através de pessoas que estavam
insatisfeitas com o marxismo tradicional e formaram inicialmente uma revista intitulada
Crítica Marxista. Essa revista era formada por um núcleo de pessoas que
permaneceram juntas por muitos anos e por uma série de outros colaboradores que
freqüentemente mudavam, com cada etapa de desenvolvimento. O primeiro número da
Crítica Marxista ainda chamava-se "a crise do valor de troca", pois
era uma das primeiras tentativas de retomar a questão do valor. Depois, ocorreu
uma radicalização no desenvolvimento da Crítica Marxista que, primeiramente,
conduziu à discussão sobre o conceito de luta de classes, depois ao de
trabalho, sujeito, etc. Foi uma radicalização progressiva que, conforme
avançava, provocava cisões dentro do grupo, saída de alguns integrantes e
também incorporava novas pessoas. Esse período, podemos dizer, "heróico"
do Krisis, quando as contribuições mais importantes e mais sacrílegas foram
realizadas, durou mais ou menos de 1986 a 1993. O nome mudou quando o número
8/9 foi publicado, marcando, assim, o afastamento em relação à tradição
marxista e, sobretudo, a importância da análise da crise da sociedade da
mercadoria para o pensamento do grupo. Pessoalmente, conheci o Krisis em
1992-3.
Anotações a
propósito da crítica do Iluminismo
Anselm Jappe
Seria de uma
banalidade considerável acusar-se a crítica do Iluminismo de, ela própria,
estar ainda apegada ao pensamento iluminista. As diversas variantes desta
acusação foram rechaçadas, de um modo assaz convincente, pelo próprio Robert
Kurz. Mas existe um ponto em que a crítica do Iluminismo realmente parece
permanecer profundamente iluminista, e até mais iluminista que o próprio
Iluminismo: estamos a falar do desejo de fazer tábua rasa, do iconoclasmo, da
ruptura com todas as tradições. Se apenas podemos "virar as costas, com
raiva e nojo, a todo o lixo intelectual do Ocidente" (Robert Kurz, Razão
Sangrenta, in: Krisis 25 [2002]), p. 66 [nº 1, 2º §, N.T.]; no que
se segue, será citado como RS), o que nos resta é realmente começarmos do zero
sem nos podermos basear sobre qualquer coisa que viesse de trás. Assim, também
o esquema hegeliano de tese, antítese e síntese vai agora para à lixeira da
História, juntamente com todo o resto do pensamento iluminista. É a ruptura
pura e dura, a partir de amanhã nada será como dantes. No entanto é
precisamente essa suposição que distingue o Iluminismo do século XVIII e os
seus prolongamentos que se estendem até ao presente de todas as figuras do
pensamento anteriores (se omitirmos algumas, em todo o caso diferentes, ideias
religiosas da palingénese e da renovação cíclica do mundo).
"A
GLOBALIZAÇÃO É APENAS UMA FUGA ANTECIPADA"
Em Lisboa para a apresentação do seu livro (As Aventuras da
Mercadoria) e para uma conferência na Universidade Nova, Anselm Jappe falou ao
DN sobre a "crise do capitalismo" e a necessidade de combater os
perigos da globalização, embora sem ceder, como outros, à "lógica do
sistema".
Em As Aventuras da Mercadoria,
revisita as ideias de Marx sobre a crítica do valor. Porquê este regresso ao
Marx mais económico e menos político?
Nos últimos anos, ouvimos muitas vezes dizer que o pensamento de Marx está ultrapassado
e que há muitas coisas que já não podemos explicar com o pensamento de Marx. A
verdade é que, se uma análise simplesmente sociológica já não funciona, o Marx
que determinou as categorias de base do capitalismo - a lógica da mercadoria,
do trabalho abstracto, do dinheiro - ganhou actualidade, porque essa lógica que
então nascia ampliou-se mais e mais.