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NÃO CORRA MAIS

PARA O COLAPSO!

 

 

O impensável e o impossível vão se encontrar!

Crítica Radical

 

 

 

Ne courez plus ver ne courez plus vers l’effondrement (Version française)

 

Do not run any more for the collapse! (English version)

No corra más hacia el colapso ! (Version española)

 

 

 

            Um homem ficava perturbado  ao ver sua sombra e  mal-humorado  ao  notar  suas  pegadas. Um dia resolveu  livrar-se  de  ambas.  Levantou-se  e  pôs-se  a  correr  para  fugir tanto de  uma como da  outra.

            Mas a sombra  continuava  acompanhando-o  e,  ao  colocar  o pé  no chão, aparecia a pegada.  Atribuiu seu  erro ao  fato  de  que  não  estava correndo  como  devia.  Então  pôs-se a  correr  velozmente  e sem  parar.

            Um sábio  soube  da  história  do  homem e resolveu  ajudá-lo. Pensou  bastante  e  descobriu  uma  maneira  de acabar  com o seu  sofrimento.  Mas  quando  o sábio chegou para visitá-lo soube  que  o homem  tinha morrido, quando corria.

 

 

 

A crise ecológica mundial e sua conexão com a agressão ao “Parque do Cocó” em Fortaleza

 

            A cidade de Fortaleza se situa no entorno do “Parque do Rio Cocó”, que ao chegar às proximidades de sua foz se alastra e se constitui num complexo de mangues próprios à manutenção de um ecossistema biológico importante para o equilíbrio natural da cidade. Trata-se de um dos mais importantes sistemas ecológicos urbanos, e isso situado numa cidade de cerca de 2,4 milhões de habitantes, figurante entre as maiores capitais do país. Tal condição não ficaria imune às agressões ao meio ambiente próprias a uma sociedade que considera a terra uma mercadoria e os cursos d’água como escoadouro barato de dejetos humanos e industriais, e onde tudo é mensurado por um quantitativo de valor e destinado a sua reprodução contínua. Assim, além das já conhecidas agressões poluentes que tornam as águas do rio e do mangue do Parque do Cocó impróprias para o consumo humano, e até mesmo para a pesca e outras atividades extrativas da piscicultura, desde há muito, e agora mais intensamente, avançam construções de imóveis sobre as suas margens, numa corrida autofágica provocada pela especulação imobiliária e pela avidez de lucros do setor da construção civil.

 

Debord e o autêntico   

Anselm Jappe

 

Sabe-se que a descoberta de um Marx "heterodoxo" nos anos sessenta casava bem com a evidenciação das suas raízes hegelianas — em teóricos como Adorno e Marcuse, assim como em autores mais engajados numa releitura filológica de Marx tais como Roman Rosdolsky, Hans-Georg Backhaus ou Helmut Reichelt. Na França, Hegel era conhecido sobretudo através da leitura para-existencialista que fizeram dele Alexandre Kojève nos anos trinta. Pode-se, assim, dizer que A sociedade do espetáculo é uma das raras contribuições francesas ao hegelo-marxismo, e convém mencionar que Debord, no fim da vida — quando ele estava, segundo alguns, completamente desviado de todo pensamento marxista ou filosófico — acreditava ainda que ter dado essa contribuição foi um de seus...

 

 

 

O ESPETÁCULO COMO ILUSÃO E REALIDADE

Gérard Briche

A noção de "espetáculo", da qual os situacionistas fizeram seu conceito crítico mais conhecido, é uma noção equívoca. Sua banalidade aparente se deve muito ao fato de que ele seja empregado por numerosos cretinos, que se apóiam Debord com toda inconsciência e com toda impostura.

 

O cúmulo dessas imposturas, no mais das vezes conscientes, consiste em atribuir aos situacionistas e a Debord, ao contrário da evidência (e de suas declarações explícitas!), uma raiva das imagens [1].

 

 

 

 

 

ADEUS ÀS ILUSÕES

 

DE QUE AMANHÃ SE TRATA?

Crítica Radical

 

Por causa disso, esta edição apresenta novos desafios aos(às) leitores(as). Expõe descobertas significativas. Mostra idéias e propostas em movimento. Idéias e práticas que continuam buscando o quarto proibido. O quarto onde estão guardados os segredos mais importantes da humanidade...

 

 

MANIFESTO CONTRA O TRABALHO

 

1. O domínio do trabalho morto

Um cadáver domina a sociedade – o cadáver do trabalho. Todos os poderes ao redor do globo uniram-se para a defesa deste domínio: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só conhecem um lema: trabalho, trabalho, trabalho !

Os que ainda não desaprenderam a pensar reconhecem facilmente que esta postura é infundada. Pois a sociedade dominada pelo trabalho não passa por uma simples crise passageira, mas alcançou seu limite absoluto. A produção de riqueza desvincula-se cada vez mais, na seqüência da revolução microeletrônica, do uso de força de trabalho humano – numa escala que há poucas décadas só poderia ser imaginada como ficção científica. Ninguém poderá afirmar seriamente que este processo pode ser freado ou, até mesmo, invertido. A venda da mercadoria força de trabalho será no século XXI tão promissora quanto a venda de carruagens de correio no século XX. Quem, nesta sociedade, não consegue vender sua força de trabalho é considerado "supérfluo" e é jogado no aterro sanitário social.

Quem não trabalha, não deve comer ! Este fundamento cínico vale ainda hoje – e agora mais do que nunca, exatamente porque tornou-se desesperançosamente obsoleto. É um absurdo: a sociedade nunca foi tanto sociedade do trabalho como nesta época em que o trabalho se faz supérfluo. Exatamente na sua fase terminal, o trabalho revela, claramente, seu poder totalitário, que não tolera outro deus ao seu lado. Até nos poros do cotidiano e nos íntimos da psique, o trabalho determina o pensar e o agir. Não se poupa nenhum esforço para prorrogar artificialmente a vida do deus-trabalho. O grito paranóico por "emprego" justifica até mesmo acelerar a destruição dos fundamentos naturais, já há muito tempo reconhecida. Os últimos impedimentos para a comercialização generalizada de todas as relações sociais podem ser eliminados sem crítica, quando é colocada em perspectiva a criação de alguns poucos e miseráveis "postos de trabalho". E a frase, seria melhor ter "qualquer" trabalho do que nenhum, tornou-se a profissão de fé exigida de modo geral.

 

A BOLHA DO IMOBILIÁRIO

Robert Kurz

Economistas neoliberais e críticos tradicionais do capitalismo têm uma coisa em comum: uns e outros admiram a dinâmica capitalista que aparentemente não tem entraves. Mas a acumulação do capital há muito que ocorre essencialmente nos mercados de capital-dinheiro, sob a forma de bolhas financeiras sem substância. Uma parte crescente da produção de mercadorias, real mas pobre em trabalho e nesse sentido substancialmente "desvalorizada"...

 

 

 

DEMOCRACIA, QUE ARAPUCA!

Anselm Jappe

"Nunca um candidato especulou de modo mais monótono sobre a monotonia das massas", disse Marx referindo-se a Napoleão III. Inúmeros habitantes da Itália ou do Brasil devem ter tido a mesma sensação quando viram chegar ao poder um Berlusconi ou um Collor de Mello. Poder-se-ia, então, ter a impressão de que a "democracia", duramente conquistada, tivesse sido anulada de repente, dado que o uso "despolitizante" da mídia e da indústria do entretenimento permite aos poderosos fazerem eleger pelo povo, "democraticamente", quem bem entenderem. A diferença entre Napoleão III e seus êmulos modernos (1) é que estes construíram sua fortuna política sobre o uso desabusado da mídia e da notoriedade que a televisão confere. Fizeram-no com tal sucesso, que seus adversários passaram a reivindicar em alto e bom som uma partilha equitativa de tais vantagens(2), ao mesmo tempo em que, virtuosamente, declaram que não fica bem vender um homem político como se vende um detergente. A redução da política a "mero espetáculo" é pois, geralmente, criticada um pouco por toda parte e, sobretudo, por quem se vê, momentaneamente, em desvantagem no terreno do confronto. Quem quer aparecer como crítico sério e preocupado com os destinos da sociedade reclama que a "política", a verdadeira, séria, com p maiúsculo, seja recolocada em seu trono.

 

 

O VALOR É O HOMEM

 

TESES SOBRE A SOCIALIZAÇÃO PELO VALOR E A RELAÇÃO ENTRE OS SEXOS

 

Roswitha Scholz

 

 

Este artigo discute o problema da correlação entre capitalismo e patriarcado, que, segundo a autora, ainda permanece sem solução, após vinte anos de pesquisa feminista. A autora rejeita a tentativa que fazem alguns grupos feministas de - ao tentar introduzir a problemática dos sexos como relação social constitutiva na crítica marxista ao patriarcado - conferir ao trabalho doméstico o mesmo estatuto do trabalho assalariado, o que levaria a uma reificação ainda maior das relações sociais no plano teórico. E propõe a tese de que a contradição básica da socialização através da forma-valor é determinada com especificação sexual. Tratar-se-ia, portanto, de compreender o trabalho abstrato e o valor como princípio masculino, caso contrário se recairia numa hierarquia conceitual, em que a distribuição dos papéis sexuais é remetida a uma correlação secundária....

 

 

 

 

RECUSA

 

UMA CRISE INÉDITA

Crítica Radical

    

Uma  crise inédita ronda o mundo – a crise do dinheiro!

Seus mais recentes impactos exibem um cenário de terra arrasada sobre a humanidade e o planeta.

Para enfrentar esta crise, duas propostas:

Uma quer que a civilização do dinheiro continue.

A outra quer superá-la.

A primeira está impotente frente à catástrofe que nos ameaça. Ao administrar a crise contribui para aprofundar a barbárie.

A segunda entende a crise como oportunidade rara para a emancipação humana. Daí o alerta pra recusar e superar o dinheiro, sua crise, sua vida e sua sociedade.

Será possível?

 

 

 

PORQUE VENCEREMOS O CAPITALISMO

Crítica Radical

 

Uma subversão radical ronda o mundo – a subversão pra superar o capitalismo.

Ultrapassar este sistema produtor de mercadorias é superar o capital, seu sujeito, seu fetichismo, sua dissociação e o valor, essa abstração real que comanda a vida humana com todas as suas categorias. O resultado desta subversão da crítica radical e sua práxis só pode ser a morte do capitalismo!

 

 

 

PUBLICAÇÃO DO GRUPO

 

OS MÉRITOS DE ROMAN ROSDOLSKY

Anselm Jappe

 

 

Ensaísta escreve sobre Gênese e Estrutura de O capital de Karl Marx de Roman Rosdolsky, livro cuja versão em português será lançada em Fortaleza. Trata-se de um guia para a obra de Marx.

 

É raro nestas épocas, que uma obra marxista seja traduzida, vendida, lida e discutida 34 anos depois da sua primeira publicação. Mas, é exatamente isto que acontece, atualmente no Brasil, com o livro Gênese e estrutura de O capital de Karl Marx, de Roman Rosdolsky. E apesar de se tratar de um livro muito erudito, ele não interessa somente como documento histórico, mas também como um guia atualíssimo para compreender a obra de Marx.

 

As raras informações biográficas disponíveis sobre o autor nos fazem pensar que a sua vida não foi particularmente feliz: era sempre um homem errado, no lugar errado. Nascido no ano de 1898 em Galizia (uma parte histórica da Polônia) aderiu ao socialismo durante a primeira Guerra Mundial. Colaborava na edição das obras completas de Marx e Engels em Moscou, quando Stalin decide, em 1931 acabar com este empreendimento. Estava na Polônia quando da invasão dos nazistas, que o levaram preso para um campo de concentração, e depois, finalmente emigrou para os EUA, onde naquela época a vida não era muito fácil para um estudioso marxista. De fato, ele mesmo recorda a dificuldade para encontrar textos para estudar.

 

 

 

PEQUENO GLOSSÁRIO

Fetichismo

Conceito que se origina na crítica da religião do século XVIII, sendo considerado uma característica essencial das religiões "primitivas". Fundamentava-se nas observações de colonizadores portugueses na África e servia para designar uma crença que imagina em objetos mortos uma alma e forças sobrenaturais. Marx referiu esse conceito ironicamente à moderna sociedade produtora de mercadorias, que se sujeita a um fetichismo análogo na forma do dinheiro e de seu movimento de exploração em empresas. Assim, o conceito tornou-se corriqueiro na critica da lógica da mercadoria, apesar de ser, a rigor, demasiadamente geral. Pois no fundo, Marx não quer ressaltar, apenas, o fato de que a objetos em geral podem ser atribuídas forças sobrenaturais que nada tem a ver com sua existência natural...

 

 

PUBLICAÇÃO DO GRUPO

AS LEITURAS DE MARX PARA O SÉCULO XXI(*)

Robert Kurz

Quem for tido por morto vive mais. Na qualidade de teórico ativo e crítico, Karl Marx já foi dado por morto mais de uma vez, mas sempre conseguiu escapar da morte histórica e teórica. Tal feito se deve a um motivo: a teoria marxista só pode morrer em paz juntamente com o seu objeto, ou seja, com o modo de produção capitalista. Esse sistema social, que é "objetivamente" cínico, regurgita sobremodo de exigências de comportamentos tão descaradas impostas aos seres humanos, produz ao lado de uma riqueza obscena e insípida uma pobreza em massa de tal dimensão, é marcado em sua dinâmica de cólera cega pelo potenciamento de catástrofes tão incríveis que a simples sobrexistência desse sistema necessita...

 

 

CRÍTICA DO CAPITALISMO PARA O SÉCULO XXI

Com Marx para além de Marx: o Projecto Teórico do Grupo "EXIT!" 

O texto aqui apresentado procura sintetizar numa espécie de "instantâneo" o processo de elaboração teórica desenvolvido até hoje a partir da abordagem da crítica social defendida nesta página de Internet. Poderá servir como primeira orientação para novos interessados. É um texto programático, claro que não no sentido dum programa político, que estabeleça uma "linha", mas no sentido de um programa teórico, em muitos aspectos ainda a desenvolver.

 

 

Sic Transit gloria artis
O "fim da arte" segundo Theodor W. Adorno e Guy Debord

Anselm Jappe 

É difícil, atualmente, eludir a idéia de que o "fim da arte", proclamado aos quatro ventos e, com não menos ardor, rechaçado durante a década de 60, tenha finalmente ocorrido, embora com alguma dissimulação: "Not with a bang, but with a whimper" (T.S. Eliot). Durante mais de cem anos, a evolução da arte foi identificada a uma sucessão ininterrupta de inovações formais e de "vanguardas" que ampliavam cada vez mais as fronteiras da criação. Porém, após um último período de esplendor - pelo menos aparente - que chega até o início dos anos 70, não se impôs nenhuma nova tendência vanguardista e apenas se observou a repetição de elementos fragmentários, isolados e desvirtuados da arte do passado. A suspeita de que a arte moderna esteja esgotada começa a propagar-se inclusive entre aqueles que, durante muito tempo, a haviam firmemente recusado. O mínimo que se pode dizer é que, há decênios, nada se viu de comparável às revoluções formais do período de 1910 a 1930. Entretanto, se hoje se produzem ou não obras de valor é, com certeza, uma questão discutível; mas dificilmente se encontrará quem ainda veja na arte dos últimos anos a "manifestação sensível da idéia" ou, pelo menos, uma expressão tão consciente e concentrada de sua época como foram a literatura, as artes visuais e a música das primeiras décadas do século.

 

            TABULA RASA

Robert Kurz

Até onde é desejável, obrigatório ou lícito que vá a crítica ao Iluminismo?

A crítica radical tem que se debater com a inércia aparentemente avassaladora do existente que se sedimentou na consciência geral e, por conseguinte, também na esfera teórica da sociedade; e não apenas no plano da reflexão enquanto tal, mas igualmente nos hábitos e preconceitos intelectuais, nas imaginações e nos ideais, assim como nas limitações institucionais, nos limites impostos por tabus etc. Tanto mais importa, quando se trata de formular uma crítica radical da própria crítica radical, revolucioná-la, dotá-la de um paradigma novo. Nesse contexto coloca-se o problema da resistência de atrito em potência, porque nesse caso a sedimentação de algo existente tem de ser superada em um sentido duplo: por um lado, na consciência geral da sociedade oficial e, por outro, no seio da consciência geral da crítica exercida até à data que se pretende transformar.

 

 

PENSAR NOVAS FORMAS DE PRODUÇÃO E DE CONSUMO

Anselm Jappe

A miséria e o desemprego se espraiam pelo mundo afora e se difunde cada vez mais a sensação de que vivemos numa época de crise contínua e aguda. Mas não sempre se tem em conta um fato tão fundamental quão elementar: não são as capacidades produtivas que estão em crise. Pelo contrário, se produz muito mais do que se usa, e se joga, literalmente, no mar os “excedentes” alimentares. O que efetivamente está em crise é o mecanismo de mediação, representado pelo dinheiro: no capitalismo, se produz somente aquilo que pode ser transformado em dinheiro, o que é vendido no mercado, caso contrário se abandona a produção, por mais útil que ela possa ser; e somente quem consegue transformar a sua força-trabalho em dinheiro pode aceder aos produtos disponíveis, caso contrário permanecem inutilizados.

 

 

O REINO DA CONTEMPLAÇÃO PASSIVA

Anselm Jappe

 

Gostaria de começar precisando algumas idéias de Guy Debord, autor do livro A Sociedade do Espetáculo que dá, num certo sentido, o título a todo este ciclo de conferências. Como foi justamente sublinhado nas contribuições dos organizadores e de alguns dos conferencistas dos quais pude ler os resumos, a crítica radical do espetáculo formulada por Debord vai muito além de uma simples crítica à televisão e aos meios de comunicação de massa. Ele mesmo disse: "O espetáculo não pode ser compreendido como um abuso do mundo visível, produto das técnicas de difusão massiva das imagens." Reconhecer, hoje, um valor "profético" no livro de Debord publicado em 1967 é portanto fácil, mas também redutivo, se se vê a perspicácia de Debord somente no fato de ele ter pressentido uma sociedade dominada por uma dúzia ou uma centena de canais televisivos de entretenimento ou notícias-espetáculo. Atualmente está na moda, nos ambientes que se crêem mais inteligentes, torcer o nariz diante do "espetáculo", e existem diretores de televisão e idealizadores de programas televisivos na Itália e ministros franceses que amam citar Debord e elogiá-lo.

 

 

As Aventuras da Mercadoria – Apresentação

 

Le avventure della merce, As aventuras da mercadoria quer ser, sobretudo um livro introdutório, um texto didático. Desde o início dos anos noventa, a “crítica do valor” saiu do estreito círculo dos iniciados para atingir um público mais amplo, sobretudo graças aos livros de Robert Kurz . Isso vale particularmente para o Brasil. Mas, faltava um texto que reassumisse os temas essenciais da crítica do valor. Procurei, por isso, escrever um livro que não pressupõe nenhum conhecimento prévio do leitor, nem uma adesão sua a alguma idéia. Começando com a análise das relações mais elementares, que intercorrem entre aqueles que vivem numa sociedade na qual a satisfação das necessidades toma a forma de uma troca de mercadorias, conduzi, depois, lentamente a análise a níveis mais complexos. Se o leitor admitir os resultados, muito evidentes, das análises de base – que se referem à troca de poucas mercadorias -, deve depois, conseqüentemente, reconhecer também a verdade de tudo o que segue.

 

 

 

A ciência e a emancipação humana

De um obscurantismo a outro?

Resumo da conferência apresentada em Fortaleza em 2005

 

Anselm Jappe

 

Qual é a posição na história da relação entre o que pode ser chamado, em sentido amplo, "pensamento emancipacionista" (isto é, a liberação dos indivíduos da coerção heterônima, da forma de vida não sujeita à discussão livre, portanto de diversas formas de fetichismo social) de um lado, e a confiança na ciência e nas suas aplicações tecnológicas do outro lado ?

Durante muito tempo - desde as primeiras manifestações do Iluminismo em diante - a crítica social via a ciência como sua aliada, concebida como o oposto da religião e da tradição, isto é, dos reinos estabelecidos sem discussão e sem justificativa.

O advento de uma sociedade melhor era muitas vezes considerado como a conseqüência inevitável do progresso da ciência e da sua aplicação à vida e às forças produtivas. Progresso social e progresso científico pareciam marchar no mesmo passo. Antes, o socialismo parecia a condição social necessária para que a ciência pudesse verdadeiramente desenvolver o seu potencial de melhorar da vida humana.

 

 

O PASSADO E O PRESENTE DA TEORIA (De Debord)*

Anselm Jappe

A crítica situacionista no contexto da sua época

É interessante examinar o lugar da crítica situacionista no interior do pensamento francês moderno, marxista ou não. Ver-se-á o quanto a posição situacionista ia "contra a corrente" na década de 60 mas, também, o quanto estava objectivamente próxima de outras correntes de pensamento.

O marxismo francês sempre apresentou características muito particulares. Antes de tudo, é necessário lembrar que, na França, o pensamento socialista foi menos marxista que em outros lugares, em proveito de autores como Proudhon e Fourier. E mesmo nos aspectos em que se prevalecia do marxismo, houve duas tendências que, de facto, nunca se encontraram: de um lado, um "marxismo" de uso "popular", reduzido ao mínimo e abundantemente "pedagogizado", que o PCF oferecia como um catecismo aos seus adeptos.

 

 

ENTREVISTA CONCEDIDA POR ANSELM JAPPE EM 2003 NO RIO DE JANEIRO

AO GRUPO ANTIVALOR

 

Antivalor: No Brasil existe um certo desconhecimento em relação ao Grupo Krisis. A obra de Robert Kurz é relativamente bem conhecida, mas o mesmo não ocorre com a obra do Krisis em geral. Como, então, surgiu o Grupo, quais foram os seus desdobramentos ao longo do tempo e qual a relação que você estabelece com ele?

Anselm Jappe: O Grupo Krisis nasceu em 1986, através de pessoas que estavam insatisfeitas com o marxismo tradicional e formaram inicialmente uma revista intitulada Crítica Marxista. Essa revista era formada por um núcleo de pessoas que permaneceram juntas por muitos anos e por uma série de outros colaboradores que freqüentemente mudavam, com cada etapa de desenvolvimento. O primeiro número da Crítica Marxista ainda chamava-se "a crise do valor de troca", pois era uma das primeiras tentativas de retomar a questão do valor. Depois, ocorreu uma radicalização no desenvolvimento da Crítica Marxista que, primeiramente, conduziu à discussão sobre o conceito de luta de classes, depois ao de trabalho, sujeito, etc. Foi uma radicalização progressiva que, conforme avançava, provocava cisões dentro do grupo, saída de alguns integrantes e também incorporava novas pessoas. Esse período, podemos dizer, "heróico" do Krisis, quando as contribuições mais importantes e mais sacrílegas foram realizadas, durou mais ou menos de 1986 a 1993. O nome mudou quando o número 8/9 foi publicado, marcando, assim, o afastamento em relação à tradição marxista e, sobretudo, a importância da análise da crise da sociedade da mercadoria para o pensamento do grupo. Pessoalmente, conheci o Krisis em 1992-3.

 

 

UMA QUESTÃO DE PONTO DE VISTA

Anotações a propósito da crítica do Iluminismo

Anselm Jappe

 

Seria de uma banalidade considerável acusar-se a crítica do Iluminismo de, ela própria, estar ainda apegada ao pensamento iluminista. As diversas variantes desta acusação foram rechaçadas, de um modo assaz convincente, pelo próprio Robert Kurz. Mas existe um ponto em que a crítica do Iluminismo realmente parece permanecer profundamente iluminista, e até mais iluminista que o próprio Iluminismo: estamos a falar do desejo de fazer tábua rasa, do iconoclasmo, da ruptura com todas as tradições. Se apenas podemos "virar as costas, com raiva e nojo, a todo o lixo intelectual do Ocidente" (Robert Kurz, Razão Sangrenta, in: Krisis 25 [2002]), p. 66 [nº 1, 2º §, N.T.]; no que se segue, será citado como RS), o que nos resta é realmente começarmos do zero sem nos podermos basear sobre qualquer coisa que viesse de trás. Assim, também o esquema hegeliano de tese, antítese e síntese vai agora para à lixeira da História, juntamente com todo o resto do pensamento iluminista. É a ruptura pura e dura, a partir de amanhã nada será como dantes. No entanto é precisamente essa suposição que distingue o Iluminismo do século XVIII e os seus prolongamentos que se estendem até ao presente de todas as figuras do pensamento anteriores (se omitirmos algumas, em todo o caso diferentes, ideias religiosas da palingénese e da renovação cíclica do mundo).

 

 

"A GLOBALIZAÇÃO É APENAS UMA FUGA ANTECIPADA"

 

Em Lisboa para a apresentação do seu livro (As Aventuras da Mercadoria) e para uma conferência na Universidade Nova, Anselm Jappe falou ao DN sobre a "crise do capitalismo" e a necessidade de combater os perigos da globalização, embora sem ceder, como outros, à "lógica do sistema".

Em As Aventuras da Mercadoria, revisita as ideias de Marx sobre a crítica do valor. Porquê este regresso ao Marx mais económico e menos político?

Nos últimos anos, ouvimos muitas vezes dizer que o pensamento de Marx está ultrapassado e que há muitas coisas que já não podemos explicar com o pensamento de Marx. A verdade é que, se uma análise simplesmente sociológica já não funciona, o Marx que determinou as categorias de base do capitalismo - a lógica da mercadoria, do trabalho abstracto, do dinheiro - ganhou actualidade, porque essa lógica que então nascia ampliou-se mais e mais.