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Novo texto de Anselm Jappe na Revista francesa Lignes

 

TEXTOS

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Fórum Transnacional Antifetichista

English Version THE COLLAPSE OF CAPITALISM

Version Française LE CAPITALISME A ECHOUÉ

Versión Española EL CAPITALISMO FRACASÓ

Um colapso ameaça o mundo – o colapso do capitalismo.

A causa desse fracasso foi captada, e sua crise anunciada pela crítica radical.

Hoje, uma teoria crítica radical renovada reclama um ambiente favorável para o pensar e o agir emancipatórios.

Para pensar, debater e enfrentar este desafio, você está convidado(a) para um fórum transnacional. Um fórum que pretende encarar o fundamento lógico do sistema, seu desenrolar no tempo histórico e sua barreira mundialmente apresentada pela crise atual - o fórum transnacional antifetichista.

Um fórum que tem como fundamento a revolução teórica da crítica radical do valor-dissociação. Um fórum que vai desencadear o processo de construção de um movimento social emancipatório que transcenda o sistema produtor de mercadorias e inaugure uma nova relação social. Um fórum que possibilite o encontro do impensável com o impossível para ultrapassarmos a história das relações fetichistas. Um fórum que tem como objetivo a conquista da sociedade da emancipação humana.

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Violência, mas para quê?*

Anselm Jappe

 

Qual é a cara da violência na França? Para alguém que frequenta habitualmente  diferentes países europeus, a primeira imagem de violência, a partir do momento em que se chega a uma estação ou aeroporto na França, é a polícia. Eu nunca vi tantos policiais quanto atualmente na França, principalmente em Paris. Nem na Turquia na época da ditadura militar.  Poder-se-ia crer que um golpe de Estado está  acontecendo, ou que nos encontramos em um país ocupado. Na Itália ou na Alemanha, nada de comparável neste momento. E que policiais: um ar de brutalidade e de arrogância que desafia qualquer tentativa de comparação. Desde que se faz a menor objeção que seja, – por exemplo, em face de controles de documentos e a revistas de bagagens antes do acesso a um trem, algo como nunca se viu – sente-se estar bem próximo da prisão, de golpes a cassetetes e finalmente da acusação de “ultraje a agente da força pública”[1].  É até difícil imaginar com o que isso pode parecer  quando se tem a pele mais escura, ou quando não se podem apresentar os documentos exigidos.

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ENTREVISTA DE JORGE PAIVA NAS PÁGIANS AZÚIS

 

O POVO - São 35 anos de Ceará que estão se completando agora. Como é que a luta contra a ditadura de então o trouxe para o Ceará?


Jorge Paiva - Nós chegamos ao Ceará porque São Paulo estava ficando pequeno. A polícia estava chegando muito perto da gente e tivemos que fugir. E a fuga não poderia ser pelo Sul, porque a região já estava mapeada, estava caindo bastante gente. Daqui, a idéia era sair para o exterior. Eu era da AP (Ação Popular), recém ingresso no PCdoB, e a opção pelo Ceará foi porque o partido estava bem estruturado aqui e eu passaria por um processo de reeducação por ser um militante um tanto quanto indisciplinado... (Leia a íntegra)

 

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É culpa de quem?

Anselm Jappe

 

Desta vez, todos os comentaristas estão de acordo: o que está acontecendo não é uma simples turbulência passageira dos mercados financeiros. Nós estamos de fato numa crise considerada como a pior desde a segunda guerra mundial, ou desde 1929. Mas é por culpa de quem, e por onde encontrar a saída? A resposta é quase sempre a mesma: a “economia real” é sadia, são os mecanismos nada sadios de ummercado financeiro que escapou a todo e qualquer controle que estão colocando a economia mundial em perigo. Assim, a explicação mais rápida, mas que é também a mais difundida, atribui toda a responsabilidade  à “avidez” de um punhado de especuladores que teriam jogado com o dinheiro de todos como se estivessem em um cassino. Mas reduzir os arcanos da economia capitalista, quando esta anda tão mal, às ações de uma conspiração de malvados tem um longa tradição perigosa. Seria a pior das saídas possíveis designar mais uma vez como bode expiatório, a “altas finanças judias” ou outra, à vingança do “povo honesto” dos trabalhadores e dos possuidores de poupança.

 

 

 

 

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Para além do capitalismo

eee

 

Uma alternativa ronda o mundo - a alternativa anti-fetichista.

         Trata-se de um movimento para superar teórica e praticamente a história das relações fetichistas.

Entre essas relações cabe destacar a abstração real do valor, que além de se constituir no fundamento da sociedade capitalista, ameaça hoje a humanidade e o planeta. Sua morte possibilita a emancipação humana.

 

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A superideologia

Dinheiro queimado

ROBERT KURZ
ESPECIAL PARA A FOLHA

Crise -qual crise? Eis o que tonitruavam até pouco tempo atrás ideólogos liberais, de direita e também de esquerda, que acreditam na vida eterna do capitalismo. Saiu cada vez mais do foco da atenção o fato de essa espécie de sociedade não apenas ter uma história, mas ser mesmo a história de uma dinâmica cega.
Justamente nas duas últimas décadas, as pessoas queriam perceber apenas os "eventos" transitórios nas formas sociais a-históricas de uma ontologia capitalista. Isso vale para indivíduos comuns e para os pobres, assim como para as elites.

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NÃO CORRA MAIS

PARA O COLAPSO!

 

 

Crítica Radical

 

 

Ne courez plus ver ne courez plus vers l’effondrement (Version française)

 

Do not run any more for the collapse! (English version)

No corra más hacia el colapso ! (Version española)

 

 

 

            Um homem ficava perturbado  ao ver sua sombra e  mal-humorado  ao  notar  suas  pegadas. Um dia resolveu  livrar-se  de  ambas.  Levantou-se  e  pôs-se  a  correr  para  fugir tanto de  uma como da  outra.

            Mas a sombra  continuava  acompanhando-o  e,  ao  colocar  o pé  no chão, aparecia a pegada.  Atribuiu seu  erro ao  fato  de  que  não  estava correndo  como  devia.  Então  pôs-se a  correr  velozmente  e sem  parar.

            Um sábio  soube  da  história  do  homem e resolveu  ajudá-lo. Pensou  bastante  e  descobriu  uma  maneira  de acabar  com o seu  sofrimento.  Mas  quando  o sábio chegou para visitá-lo soube  que  o homem  tinha morrido, quando corria.

 

 

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A crise ecológica mundial e sua conexão com a agressão ao “Parque do Cocó” em Fortaleza

 

            A cidade de Fortaleza se situa no entorno do “Parque do Rio Cocó”, que ao chegar às proximidades de sua foz se alastra e se constitui num complexo de mangues próprios à manutenção de um ecossistema biológico importante para o equilíbrio natural da cidade. Trata-se de um dos mais importantes sistemas ecológicos urbanos, e isso situado numa cidade de cerca de 2,4 milhões de habitantes, figurante entre as maiores capitais do país. Tal condição não ficaria imune às agressões ao meio ambiente próprias a uma sociedade que considera a terra uma mercadoria e os cursos d’água como escoadouro barato de dejetos humanos e industriais, e onde tudo é mensurado por um quantitativo de valor e destinado a sua reprodução contínua. Assim, além das já conhecidas agressões poluentes que tornam as águas do rio e do mangue do Parque do Cocó impróprias para o consumo humano, e até mesmo para a pesca e outras atividades extrativas da piscicultura, desde há muito, e agora mais intensamente, avançam construções de imóveis sobre as suas margens, numa corrida autofágica provocada pela especulação imobiliária e pela avidez de lucros do setor da construção civil.

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Debord e o autêntico   

Anselm Jappe

 

Sabe-se que a descoberta de um Marx "heterodoxo" nos anos sessenta casava bem com a evidenciação das suas raízes hegelianas — em teóricos como Adorno e Marcuse, assim como em autores mais engajados numa releitura filológica de Marx tais como Roman Rosdolsky, Hans-Georg Backhaus ou Helmut Reichelt. Na França, Hegel era conhecido sobretudo através da leitura para-existencialista que fizeram dele Alexandre Kojève nos anos trinta. Pode-se, assim, dizer que A sociedade do espetáculo é uma das raras contribuições francesas ao hegelo-marxismo, e convém mencionar que Debord, no fim da vida — quando ele estava, segundo alguns, completamente desviado de todo pensamento marxista ou filosófico — acreditava ainda que ter dado essa contribuição foi um de seus...

 

 

 

O ESPETÁCULO COMO ILUSÃO E REALIDADE

Gérard Briche

A noção de "espetáculo", da qual os situacionistas fizeram seu conceito crítico mais conhecido, é uma noção equívoca. Sua banalidade aparente se deve muito ao fato de que ele seja empregado por numerosos cretinos, que se apóiam Debord com toda inconsciência e com toda impostura.

 

O cúmulo dessas imposturas, no mais das vezes conscientes, consiste em atribuir aos situacionistas e a Debord, ao contrário da evidência (e de suas declarações explícitas!), uma raiva das imagens [1].

 

 

 

 

 

ADEUS ÀS ILUSÕES

 

DE QUE AMANHÃ SE TRATA?

Crítica Radical

 

Por causa disso, esta edição apresenta novos desafios aos(às) leitores(as). Expõe descobertas significativas. Mostra idéias e propostas em movimento. Idéias e práticas que continuam buscando o quarto proibido. O quarto onde estão guardados os segredos mais importantes da humanidade...

 

 

MANIFESTO CONTRA O TRABALHO

 

1. O domínio do trabalho morto

Um cadáver domina a sociedade – o cadáver do trabalho. Todos os poderes ao redor do globo uniram-se para a defesa deste domínio: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e socialistas franceses. Todos eles só conhecem um lema: trabalho, trabalho, trabalho !

Os que ainda não desaprenderam a pensar reconhecem facilmente que esta postura é infundada. Pois a sociedade dominada pelo trabalho não passa por uma simples crise passageira, mas alcançou seu limite absoluto. A produção de riqueza desvincula-se cada vez mais, na seqüência da revolução microeletrônica, do uso de força de trabalho humano – numa escala que há poucas décadas só poderia ser imaginada como ficção científica. Ninguém poderá afirmar seriamente que este processo pode ser freado ou, até mesmo, invertido. A venda da mercadoria força de trabalho será no século XXI tão promissora quanto a venda de carruagens de correio no século XX. Quem, nesta sociedade, não consegue vender sua força de trabalho é considerado "supérfluo" e é jogado no aterro sanitário social.

Quem não trabalha, não deve comer ! Este fundamento cínico vale ainda hoje – e agora mais do que nunca, exatamente porque tornou-se desesperançosamente obsoleto. É um absurdo: a sociedade nunca foi tanto sociedade do trabalho como nesta época em que o trabalho se faz supérfluo. Exatamente na sua fase terminal, o trabalho revela, claramente, seu poder totalitário, que não tolera outro deus ao seu lado. Até nos poros do cotidiano e nos íntimos da psique, o trabalho determina o pensar e o agir. Não se poupa nenhum esforço para prorrogar artificialmente a vida do deus-trabalho. O grito paranóico por "emprego" justifica até mesmo acelerar a destruição dos fundamentos naturais, já há muito tempo reconhecida. Os últimos impedimentos para a comercialização generalizada de todas as relações sociais podem ser eliminados sem crítica, quando é colocada em perspectiva a criação de alguns poucos e miseráveis "postos de trabalho". E a frase, seria melhor ter "qualquer" trabalho do que nenhum, tornou-se a profissão de fé exigida de modo geral.

 

A BOLHA DO IMOBILIÁRIO

Robert Kurz

Economistas neoliberais e críticos tradicionais do capitalismo têm uma coisa em comum: uns e outros admiram a dinâmica capitalista que aparentemente não tem entraves. Mas a acumulação do capital há muito que ocorre essencialmente nos mercados de capital-dinheiro, sob a forma de bolhas financeiras sem substância. Uma parte crescente da produção de mercadorias, real mas pobre em trabalho e nesse sentido substancialmente "desvalorizada"...

 

 

 

DEMOCRACIA, QUE ARAPUCA!

Anselm Jappe

"Nunca um candidato especulou de modo mais monótono sobre a monotonia das massas", disse Marx referindo-se a Napoleão III. Inúmeros habitantes da Itália ou do Brasil devem ter tido a mesma sensação quando viram chegar ao poder um Berlusconi ou um Collor de Mello. Poder-se-ia, então, ter a impressão de que a "democracia", duramente conquistada, tivesse sido anulada de repente, dado que o uso "despolitizante" da mídia e da indústria do entretenimento permite aos poderosos fazerem eleger pelo povo, "democraticamente", quem bem entenderem. A diferença entre Napoleão III e seus êmulos modernos (1) é que estes construíram sua fortuna política sobre o uso desabusado da mídia e da notoriedade que a televisão confere. Fizeram-no com tal sucesso, que seus adversários passaram a reivindicar em alto e bom som uma partilha equitativa de tais vantagens(2), ao mesmo tempo em que, virtuosamente, declaram que não fica bem vender um homem político como se vende um detergente. A redução da política a "mero espetáculo" é pois, geralmente, criticada um pouco por toda parte e, sobretudo, por quem se vê, momentaneamente, em desvantagem no terreno do confronto. Quem quer aparecer como crítico sério e preocupado com os destinos da sociedade reclama que a "política", a verdadeira, séria, com p maiúsculo, seja recolocada em seu trono.

 

 

O VALOR É O HOMEM

 

TESES SOBRE A SOCIALIZAÇÃO PELO VALOR E A RELAÇÃO ENTRE OS SEXOS

 

Roswitha Scholz

 

 

Este artigo discute o problema da correlação entre capitalismo e patriarcado, que, segundo a autora, ainda permanece sem solução, após vinte anos de pesquisa feminista. A autora rejeita a tentativa que fazem alguns grupos feministas de - ao tentar introduzir a problemática dos sexos como relação social constitutiva na crítica marxista ao patriarcado - conferir ao trabalho doméstico o mesmo estatuto do trabalho assalariado, o que levaria a uma reificação ainda maior das relações sociais no plano teórico. E propõe a tese de que a contradição básica da socialização através da forma-valor é determinada com especificação sexual. Tratar-se-ia, portanto, de compreender o trabalho abstrato e o valor como princípio masculino, caso contrário se recairia numa hierarquia conceitual, em que a distribuição dos papéis sexuais é remetida a uma correlação secundária....

 

 

 

 

RECUSA

 

UMA CRISE INÉDITA

Crítica Radical

    

Uma  crise inédita ronda o mundo – a crise do dinheiro!

Seus mais recentes impactos exibem um cenário de terra arrasada sobre a humanidade e o planeta.

Para enfrentar esta crise, duas propostas:

Uma quer que a civilização do dinheiro continue.

A outra quer superá-la.

A primeira está impotente frente à catástrofe que nos ameaça. Ao administrar a crise contribui para aprofundar a barbárie.

A segunda entende a crise como oportunidade rara para a emancipação humana. Daí o alerta pra recusar e superar o dinheiro, sua crise, sua vida e sua sociedade.

Será possível?

 

 

 

PORQUE VENCEREMOS O CAPITALISMO

Crítica Radical

 

Uma subversão radical ronda o mundo – a subversão pra superar o capitalismo.

Ultrapassar este sistema produtor de mercadorias é superar o capital, seu sujeito, seu fetichismo, sua dissociação e o valor, essa abstração real que comanda a vida humana com todas as suas categorias. O resultado desta subversão da crítica radical e sua práxis só pode ser a morte do capitalismo!

 

 

 

PUBLICAÇÃO DO GRUPO

 

OS MÉRITOS DE ROMAN ROSDOLSKY

Anselm Jappe

 

 

Ensaísta escreve sobre Gênese e Estrutura de O capital de Karl Marx de Roman Rosdolsky, livro cuja versão em português será lançada em Fortaleza. Trata-se de um guia para a obra de Marx.

 

É raro nestas épocas, que uma obra marxista seja traduzida, vendida, lida e discutida 34 anos depois da sua primeira publicação. Mas, é exatamente isto que acontece, atualmente no Brasil, com o livro Gênese e estrutura de O capital de Karl Marx, de Roman Rosdolsky. E apesar de se tratar de um livro muito erudito, ele não interessa somente como documento histórico, mas também como um guia atualíssimo para compreender a obra de Marx.

 

As raras informações biográficas disponíveis sobre o autor nos fazem pensar que a sua vida não foi particularmente feliz: era sempre um homem errado, no lugar errado. Nascido no ano de 1898 em Galizia (uma parte histórica da Polônia) aderiu ao socialismo durante a primeira Guerra Mundial. Colaborava na edição das obras completas de Marx e Engels em Moscou, quando Stalin decide, em 1931 acabar com este empreendimento. Estava na Polônia quando da invasão dos nazistas, que o levaram preso para um campo de concentração, e depois, finalmente emigrou para os EUA, onde naquela época a vida não era muito fácil para um estudioso marxista. De fato, ele mesmo recorda a dificuldade para encontrar textos para estudar.

 

 

 

PEQUENO GLOSSÁRIO

Fetichismo

Conceito que se origina na crítica da religião do século XVIII, sendo considerado uma característica essencial das religiões "primitivas". Fundamentava-se nas observações de colonizadores portugueses na África e servia para designar uma crença que imagina em objetos mortos uma alma e forças sobrenaturais. Marx referiu esse conceito ironicamente à moderna sociedade produtora de mercadorias, que se sujeita a um fetichismo análogo na forma do dinheiro e de seu movimento de exploração em empresas. Assim, o conceito tornou-se corriqueiro na critica da lógica da mercadoria, apesar de ser, a rigor, demasiadamente geral. Pois no fundo, Marx não quer ressaltar, apenas, o fato de que a objetos em geral podem ser atribuídas forças sobrenaturais que nada tem a ver com sua existência natural...

 

 

PUBLICAÇÃO DO GRUPO

AS LEITURAS DE MARX PARA O SÉCULO XXI(*)

Robert Kurz

Quem for tido por morto vive mais. Na qualidade de teórico ativo e crítico, Karl Marx já foi dado por morto mais de uma vez, mas sempre conseguiu escapar da morte histórica e teórica. Tal feito se deve a um motivo: a teoria marxista só pode morrer em paz juntamente com o seu objeto, ou seja, com o modo de produção capitalista. Esse sistema social, que é "objetivamente" cínico, regurgita sobremodo de exigências de comportamentos tão descaradas impostas aos seres humanos, produz ao lado de uma riqueza obscena e insípida uma pobreza em massa de tal dimensão, é marcado em sua dinâmica de cólera cega pelo potenciamento de catástrofes tão incríveis que a simples sobrexistência desse sistema necessita...

 

 

CRÍTICA DO CAPITALISMO PARA O SÉCULO XXI

Com Marx para além de Marx: o Projecto Teórico do Grupo "EXIT!" 

O texto aqui apresentado procura sintetizar numa espécie de "instantâneo" o processo de elaboração teórica desenvolvido até hoje a partir da abordagem da crítica social defendida nesta página de Internet. Poderá servir como primeira orientação para novos interessados. É um texto programático, claro que não no sentido dum programa político, que estabeleça uma "linha", mas no sentido de um programa teórico, em muitos aspectos ainda a desenvolver.

 

 

Sic Transit gloria artis
O "fim da arte" segundo Theodor W. Adorno e Guy Debord

Anselm Jappe 

É difícil, atualmente, eludir a idéia de que o "fim da arte", proclamado aos quatro ventos e, com não menos ardor, rechaçado durante a década de 60, tenha finalmente ocorrido, embora com alguma dissimulação: "Not with a bang, but with a whimper" (T.S. Eliot). Durante mais de cem anos, a evolução da arte foi identificada a uma sucessão ininterrupta de inovações formais e de "vanguardas" que ampliavam cada vez mais as fronteiras da criação. Porém, após um último período de esplendor - pelo menos aparente - que chega até o início dos anos 70, não se impôs nenhuma nova tendência vanguardista e apenas se observou a repetição de elementos fragmentários, isolados e desvirtuados da arte do passado. A suspeita de que a arte moderna esteja esgotada começa a propagar-se inclusive entre aqueles que, durante muito tempo, a haviam firmemente recusado. O mínimo que se pode dizer é que, há decênios, nada se viu de comparável às revoluções formais do período de 1910 a 1930. Entretanto, se hoje se produzem ou não obras de valor é, com certeza, uma questão discutível; mas dificilmente se encontrará quem ainda veja na arte dos últimos anos a "manifestação sensível da idéia" ou, pelo menos, uma expressão tão consciente e concentrada de sua época como foram a literatura, as artes visuais e a música das primeiras décadas do século.

 

            TABULA RASA

Robert Kurz

Até onde é desejável, obrigatório ou lícito que vá a crítica ao Iluminismo?

A crítica radical tem que se debater com a inércia aparentemente avassaladora do existente que se sedimentou na consciência geral e, por conseguinte, também na esfera teórica da sociedade; e não apenas no plano da reflexão enquanto tal, mas igualmente nos hábitos e preconceitos intelectuais, nas imaginações e nos ideais, assim como nas limitações institucionais, nos limites impostos por tabus etc. Tanto mais importa, quando se trata de formular uma crítica radical da própria crítica radical, revolucioná-la, dotá-la de um paradigma novo. Nesse contexto coloca-se o problema da resistência de atrito em potência, porque nesse caso a sedimentação de algo existente tem de ser superada em um sentido duplo: por um lado, na consciência geral da sociedade oficial e, por outro, no seio da consciência geral da crítica exercida até à data que se pretende transformar.

 

 

PENSAR NOVAS FORMAS DE PRODUÇÃO E DE CONSUMO

Anselm Jappe

A miséria e o desemprego se espraiam pelo mundo afora e se difunde cada vez mais a sensação de que vivemos numa época de crise contínua e aguda. Mas não sempre se tem em conta um fato tão fundamental quão elementar: não são as capacidades produtivas que estão em crise. Pelo contrário, se produz muito mais do que se usa, e se joga, literalmente, no mar os “excedentes” alimentares. O que efetivamente está em crise é o mecanismo de mediação, representado pelo dinheiro: no capitalismo, se produz somente aquilo que pode ser transformado em dinheiro, o que é vendido no mercado, caso contrário se abandona a produção, por mais útil que ela possa ser; e somente quem consegue transformar a sua força-trabalho em dinheiro pode aceder aos produtos disponíveis, caso contrário permanecem inutilizados.

 

 

O REINO DA CONTEMPLAÇÃO PASSIVA

Anselm Jappe

 

Gostaria de começar precisando algumas idéias de Guy Debord, autor do livro A Sociedade do Espetáculo que dá, num certo sentido, o título a todo este ciclo de conferências. Como foi justamente sublinhado nas contribuições dos organizadores e de alguns dos conferencistas dos quais pude ler os resumos, a crítica radical do espetáculo formulada por Debord vai muito além de uma simples crítica à televisão e aos meios de comunicação de massa. Ele mesmo disse: "O espetáculo não pode ser compreendido como um abuso do mundo visível, produto das técnicas de difusão massiva das imagens." Reconhecer, hoje, um valor "profético" no livro de Debord publicado em 1967 é portanto fácil, mas também redutivo, se se vê a perspicácia de Debord somente no fato de ele ter pressentido uma sociedade dominada por uma dúzia ou uma centena de canais televisivos de entretenimento ou notícias-espetáculo. Atualmente está na moda, nos ambientes que se crêem mais inteligentes, torcer o nariz diante do "espetáculo", e existem diretores de televisão e idealizadores de programas televisivos na Itália e ministros franceses que amam citar Debord e elogiá-lo.

 

 

As Aventuras da Mercadoria – Apresentação

 

Le avventure della merce, As aventuras da mercadoria quer ser, sobretudo um livro introdutório, um texto didático. Desde o início dos anos noventa, a “crítica do valor” saiu do estreito círculo dos iniciados para atingir um público mais amplo, sobretudo graças aos livros de Robert Kurz . Isso vale particularmente para o Brasil. Mas, faltava um texto que reassumisse os temas essenciais da crítica do valor. Procurei, por isso, escrever um livro que não pressupõe nenhum conhecimento prévio do leitor, nem uma adesão sua a alguma idéia. Começando com a análise das relações mais elementares, que intercorrem entre aqueles que vivem numa sociedade na qual a satisfação das necessidades toma a forma de uma troca de mercadorias, conduzi, depois, lentamente a análise a níveis mais complexos. Se o leitor admitir os resultados, muito evidentes, das análises de base – que se referem à troca de poucas mercadorias -, deve depois, conseqüentemente, reconhecer também a verdade de tudo o que segue.

 

 

 

A ciência e a emancipação humana

De um obscurantismo a outro?

Resumo da conferência apresentada em Fortaleza em 2005

 

Anselm Jappe

 

Qual é a posição na história da relação entre o que pode ser chamado, em sentido amplo, "pensamento emancipacionista" (isto é, a liberação dos indivíduos da coerção heterônima, da forma de vida não sujeita à discussão livre, portanto de diversas formas de fetichismo social) de um lado, e a confiança na ciência e nas suas aplicações tecnológicas do outro lado ?

Durante muito tempo - desde as primeiras manifestações do Iluminismo em diante - a crítica social via a ciência como sua aliada, concebida como o oposto da religião e da tradição, isto é, dos reinos estabelecidos sem discussão e sem justificativa.

O advento de uma sociedade melhor era muitas vezes considerado como a conseqüência inevitável do progresso da ciência e da sua aplicação à vida e às forças produtivas. Progresso social e progresso científico pareciam marchar no mesmo passo. Antes, o socialismo parecia a condição social necessária para que a ciência pudesse verdadeiramente desenvolver o seu potencial de melhorar da vida humana.

 

 

O PASSADO E O PRESENTE DA TEORIA (De Debord)*

Anselm Jappe

A crítica situacionista no contexto da sua época

É interessante examinar o lugar da crítica situacionista no interior do pensamento francês moderno, marxista ou não. Ver-se-á o quanto a posição situacionista ia "contra a corrente" na década de 60 mas, também, o quanto estava objectivamente próxima de outras correntes de pensamento.

O marxismo francês sempre apresentou características muito particulares. Antes de tudo, é necessário lembrar que, na França, o pensamento socialista foi menos marxista que em outros lugares, em proveito de autores como Proudhon e Fourier. E mesmo nos aspectos em que se prevalecia do marxismo, houve duas tendências que, de facto, nunca se encontraram: de um lado, um "marxismo" de uso "popular", reduzido ao mínimo e abundantemente "pedagogizado", que o PCF oferecia como um catecismo aos seus adeptos.

 

 

ENTREVISTA CONCEDIDA POR ANSELM JAPPE EM 2003 NO RIO DE JANEIRO

AO GRUPO ANTIVALOR

 

Antivalor: No Brasil existe um certo desconhecimento em relação ao Grupo Krisis. A obra de Robert Kurz é relativamente bem conhecida, mas o mesmo não ocorre com a obra do Krisis em geral. Como, então, surgiu o Grupo, quais foram os seus desdobramentos ao longo do tempo e qual a relação que você estabelece com ele?

Anselm Jappe: O Grupo Krisis nasceu em 1986, através de pessoas que estavam insatisfeitas com o marxismo tradicional e formaram inicialmente uma revista intitulada Crítica Marxista. Essa revista era formada por um núcleo de pessoas que permaneceram juntas por muitos anos e por uma série de outros colaboradores que freqüentemente mudavam, com cada etapa de desenvolvimento. O primeiro número da Crítica Marxista ainda chamava-se "a crise do valor de troca", pois era uma das primeiras tentativas de retomar a questão do valor. Depois, ocorreu uma radicalização no desenvolvimento da Crítica Marxista que, primeiramente, conduziu à discussão sobre o conceito de luta de classes, depois ao de trabalho, sujeito, etc. Foi uma radicalização progressiva que, conforme avançava, provocava cisões dentro do grupo, saída de alguns integrantes e também incorporava novas pessoas. Esse período, podemos dizer, "heróico" do Krisis, quando as contribuições mais importantes e mais sacrílegas foram realizadas, durou mais ou menos de 1986 a 1993. O nome mudou quando o número 8/9 foi publicado, marcando, assim, o afastamento em relação à tradição marxista e, sobretudo, a importância da análise da crise da sociedade da mercadoria para o pensamento do grupo. Pessoalmente, conheci o Krisis em 1992-3.

 

 

UMA QUESTÃO DE PONTO DE VISTA

Anotações a propósito da crítica do Iluminismo

Anselm Jappe

 

Seria de uma banalidade considerável acusar-se a crítica do Iluminismo de, ela própria, estar ainda apegada ao pensamento iluminista. As diversas variantes desta acusação foram rechaçadas, de um modo assaz convincente, pelo próprio Robert Kurz. Mas existe um ponto em que a crítica do Iluminismo realmente parece permanecer profundamente iluminista, e até mais iluminista que o próprio Iluminismo: estamos a falar do desejo de fazer tábua rasa, do iconoclasmo, da ruptura com todas as tradições. Se apenas podemos "virar as costas, com raiva e nojo, a todo o lixo intelectual do Ocidente" (Robert Kurz, Razão Sangrenta, in: Krisis 25 [2002]), p. 66 [nº 1, 2º §, N.T.]; no que se segue, será citado como RS), o que nos resta é realmente começarmos do zero sem nos podermos basear sobre qualquer coisa que viesse de trás. Assim, também o esquema hegeliano de tese, antítese e síntese vai agora para à lixeira da História, juntamente com todo o resto do pensamento iluminista. É a ruptura pura e dura, a partir de amanhã nada será como dantes. No entanto é precisamente essa suposição que distingue o Iluminismo do século XVIII e os seus prolongamentos que se estendem até ao presente de todas as figuras do pensamento anteriores (se omitirmos algumas, em todo o caso diferentes, ideias religiosas da palingénese e da renovação cíclica do mundo).

 

 

"A GLOBALIZAÇÃO É APENAS UMA FUGA ANTECIPADA"

 

Em Lisboa para a apresentação do seu livro (As Aventuras da Mercadoria) e para uma conferência na Universidade Nova, Anselm Jappe falou ao DN sobre a "crise do capitalismo" e a necessidade de combater os perigos da globalização, embora sem ceder, como outros, à "lógica do sistema".

Em As Aventuras da Mercadoria, revisita as ideias de Marx sobre a crítica do valor. Porquê este regresso ao Marx mais económico e menos político?

Nos últimos anos, ouvimos muitas vezes dizer que o pensamento de Marx está ultrapassado e que há muitas coisas que já não podemos explicar com o pensamento de Marx. A verdade é que, se uma análise simplesmente sociológica já não funciona, o Marx que determinou as categorias de base do capitalismo - a lógica da mercadoria, do trabalho abstracto, do dinheiro - ganhou actualidade, porque essa lógica que então nascia ampliou-se mais e mais.

 

A ARTE DE DESMASCARAR

A Sociedade do Espetáculo:
Um dos principais libelos contra o capitalismo.

Anselm Jappe

 

“Sociedade do espetáculo”: esta expressão já está em voga, especialmente ao se falar de televisão. No Brasil, parece se impor mais do que em outros lugares. Poucos, porém, sabem que, na origem, este era o título de um livro de Guy Debord, agora traduzido pela primeira vez no Brasil (Ed. Contraponto).

Lançado na França em 1967, A Sociedade do Espetáculo tornou-se inicialmente livro de culto da ala mais extremista do Maio de 68, em Paris; hoje é um clássico em muitos países. Em um prefácio de 1982, o autor sustentava com orgulho que o seu livro não necessitava de nenhuma correção.

O “espetáculo” de que fala Debord vai muito além da onipresença dos meios de comunicação de massa, que representam somente o seu aspecto mais visível e mais superficial. Em 221 brilhantes teses de concisão aforística e com múltiplas alusões ocultas a autores conhecidos, Debord explica que o espetáculo é uma forma de sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária, e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta em sua existência real.

 

 

                                                                                            DO MARXISMO À CRÍTICA DO VALOR                               

Ulrich Leicht

Sobre o ensaio de Anselm Jappe de

"... transmitir ao leitor a paixão que o autor sente pelo tema aparentemente tão abstracto do valor"

 

Uma vista de olhos ao livro de Jappe "AS AVENTURAS DA MERCADORIA. Para uma nova crítica do valor"

Saiu em Abril de 2005, em tradução alemã na editora UNRAST, o livro de Anselm Jappe, um autor de há muitos anos da antiga Krisis, publicado dois anos antes em edição francesa na editora parisiense Denoel "Les aventures de la marchandise. Pour une nouvelle critique de la valeur" [Tradução portuguesa: "As aventuras da mercadoria. Para uma nova crítica do valor", Editora Antígona, Lisboa 2006 - NT]. Ainda que "As aventuras da mercadoria. Para uma nova crítica do valor" tenha sido escrito primeiramente para um público francês, sendo o subtítulo algo irritante devido evidentemente a esta circunstância, a meu ver são de saudar a edição alemã e o desejo do autor. No capítulo introdutório "Será o mundo uma mercadoria?" escreve Anselm Jappe:

"O objectivo deste livro era expor ao público francês para entendimento geral os fundamentos da crítica do valor e apresentar-lhe alguns autores dele desconhecidos. Estas temáticas e estes autores são seguramente conhecidos do público de língua alemã. Mas também no espaço de língua alemã faltava uma introdução resumida dos fundamentos da crítica do valor. O que justifica uma edição alemã. A maioria dos autores criticados no último capítulo são franceses, mas uma vez que as suas teorias ou também são conhecidas na Alemanha, ou aí encontram equivalentes, pareceu adequado publicar também este capítulo, tal como o resto do livro, numa edição idêntica à versão francesa". (p. 19 – paginação referente à edição alemã) [entre parêntesis rectos a paginação da edição portuguesa - NT]

 

 

«O capitalismo será apenas um

 parêntesis na história humana»


Entrevista com Anselm Jappe, autor do livro «As Aventuras da Mercadoria– Para uma nova crítica do Valor», publicada no jornal Público de 21 de Maio de 2006.

O filósofo Anselm Jappe esteve em Lisboa para apresentar o seu último livro, editado pela Antígona. «As Aventuras da Mercadoria – Para uma nova crítica do Valor» não pretende ser um programa político, mas contribuir para a de uma consciência crítica.
 

Público – A tradicional divisão entre esquerda e direita continua válida?
Anselm Jappe – Por um lado as diferenças tradicionais ainda fazem algum sentido. Mas, por outro lado, pode dizer-se hoje que aquilo a que tradicionalmente se chama de esquerda muito frequentemente apenas ajudou o capitalismo a desenvolver-se mais. Deu uma contribuição involuntária, por exemplo, para a comercialização da vida diária. A esquerda tem tirado as coisas que estavam no caminho do capitalismo individualista e neoliberal

 

 

O EMBATE DOS BÁRBAROS

Anselm Jappe 

Os rios sempre correm para o mar, e a globalização capitalista vai e volta para o seu próprio centro, para o centro do centro. Se tudo está globalizado, se os mercados nunca dormem e as mercadorias ocidentais penetram até nos lugares mais recônditos do mundo, como é que alguém pode se admirar de também a guerra e o terror não pouparem ninguém? É claro que os atentados de Nova Iorque e Washington impressionam pelo número de vítimas, por seu caráter espetacular e pelo desejo incondicional dos autores de praticar a maior carnificina possível. Mas, no fundo, apenas aconteceu nos Estados Unidos aquilo que a grande maioria dos países vem experimentando nos últimos sessenta anos, desde a Guatemala até o Camboja, desde a Sérvia até o Vietnã, desde o Iraque até a Biafra, sem se falar na Segunda Grande Guerra Mundial. Embora se tenha consciência de que 6.000 mortos representam um terrível quadro, não se pode furtar à incômoda sensação de que americanos, ainda mais se trabalharem em Manhattan, ao que parece são mais iguais que outras pessoas.

 

 

O MERCADO ABSURDO DOS HOMENS SEM QUALIDADE

Anselm Jappe

Apresentação do Livro "Os Últimos Combates", Editora Vozes, Brasil.

O capitalismo está chegando ao fim. A prova: a queda da União Soviética. A base desta análise: a "obscura" crítica do "valor" de um tal de Karl Marx. Será que a luta de classes e a luta pela democracia derrotarão o capitalismo? A luta de classes não foi outra coisa senão o motor do desenvolvimento capitalista e jamais poderá levar à sua superação. A democracia não é o antagonista do capitalismo mas sua forma política, e ambos esgotaram seu papel histórico. A queda dos regimes do Leste não significa o triunfo definitivo da economia de mercado, mas um passo ulterior em direção ao ocaso da sociedade mundial da mercadoria.

 

                                                                                                          RAZÃO SANGRENTA

20 Teses contra o chamado Iluminismo e os "Valores Ocidentais"

Robert Kurz

O capitalismo a si mesmo se vence até à morte, tanto materialmente como no plano ideal. Quanto maior a brutalidade com que esta forma de reprodução, tornada modelo social universal, devasta o mundo, mais ela vai infligindo golpes a si mesma e minando a própria existência. Neste quadro se inscreve também o comum ocaso intelectual das ideologias da modernização, numa ignorância e falta de ideias de tipo novo: direita e esquerda, progresso e reacção, justiça e injustiça coincidem de forma imediata, uma vez que o pensamento nas formas do sistema produtor de mercadorias paralisou por completo. Quanto mais estúpida se torna a representação intelectual do sujeito do mercado e do dinheiro, mais horroroso fica o seu tagarelar repetitivo das estafadas virtudes burguesas e valores ocidentais. Não há paisagem do planeta, marcada pela miséria e pelos massacres, sobre a qual não chovam a cântaros lágrimas de crocodilo, de um humanitarismo policial democrático; não há vítima desfigurada pela tortura que não seja usada como pretexto na exaltação das alegrias da individualidade burguesa. Qualquer idiota servidor do estado, que se esforça por escrever umas linhas, invoca a democracia ateniense; qualquer patife ambicioso, da política ou da ciência, pretende bronzear-se à luz do iluminismo.

 

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*Texto publicado na Revista francesa Lignes n°29, maio-2009. A edição 29 possui o título Da violência na política. N.T.

[1] “No momento em que escrevo estas observações, acaba de ser publicado um relatório da Amnesty internacional intitulado “França: policiais acima das leis” que confirma todas essas impressões. Felizmente, as iniciativas de “vigiar os vigias” começam a se multiplicar um pouco por toda parte.