O VALOR É O HOMEM
TESES SOBRE A SOCIALIZAÇÃO
PELO VALOR E A RELAÇÃO ENTRE OS SEXOS
Roswitha Scholz
RESUMO
Este artigo discute o
problema da correlação entre capitalismo e patriarcado, que, segundo a autora,
ainda permanece sem solução, após vinte anos de pesquisa feminista. A autora
rejeita a tentativa que fazem alguns grupos feministas de - ao tentar
introduzir a problemática dos sexos como relação social constitutiva na crítica
marxista ao patriarcado - conferir ao trabalho doméstico o mesmo estatuto do
trabalho assalariado, o que levaria a uma reificação ainda maior das relações
sociais no plano teórico. E propõe a tese de que a contradição básica da
socialização através da forma-valor é determinada com especificação sexual.
Tratar-se-ia, portanto, de compreender o trabalho abstrato e o valor como princípio
masculino, caso contrário se recairia numa hierarquia conceitual, em que a
distribuição dos papéis sexuais é remetida a uma correlação secundária.
Palavras-chave:
patriarcado; capitalismo; feminismo; marxismo; valor; socialização; relação entre os sexos.
1. Após
vinte anos de pesquisa feminista, a correlação entre capitalismo e patriarcado
ainda é um problema irresoluto. As feministas que insistem nessa questão, e que
seguem Marx e a Teoria Crítica, recorrem a um marxismo emprestado aos
movimentos trabalhistas, cuja principal crítica à sociedade burguesa é a
apropriação da mais-valia pelo capital. A ressalva que outras feministas mais à
esquerda fazem a semelhante compreensão marxista é simplesmente que a questão
do patriarcado permanece fora de consideração, ou seja, que apenas e
tão-somente o antagonismo entre o trabalho assalariado e capital possui
validade como referência central. A seu ver faltaria conceder o devido lugar à
problemática dos sexos como relação social constitutiva. Assim, a crítica ao
patriarcado ficaria envolta numa concepção marxista antiquada e em grande
medida a-histórica, na qual a problemática dos sexos, em última instância,
reaparece forçosamente como corpo estranho, por ser apenas superficialmente
introduzida.
Nesta linha, muitas vezes se tenta elevar o trabalho
doméstico, não considerado nas análises do capital, à mesma categoria do
trabalho assalariado (isto é, do trabalho abstrato) e/ou determinar o
"valor" do trabalho doméstico (cf. Haug 1990, pp. 92 s. e Beer, 1989,
pp. 190 ss.). Semelhante ampliação do conceito de "trabalho
produtivo" corre a meu ver o perigo - contra sua intenção - de abrir
caminho a uma reificação ainda maior das relações sociais no plano teórico, uma
vez que a "produção da vida", assim chamada erroneamente, passa
também ela a ser apreendida com categorias que se orientam pela produção de
mercadorias.
Uma saída para tal dilema poderia a meu ver ser
oferecida por uma compreensão crítica da teoria de Marx que justamente não superestimasse
o "valor", ou seja, a forma de representação do trabalho abstrato,
diferentemente do marxismo cunhado pelos movimentos trabalhistas, o qual define
o "trabalho" como característica do gênero humano (com o que
concordam as feministas supracitadas). Pelo contrário, tratar-se-ia de uma crítica
do "trabalho", que na qualidade de "consumo
econômico-empresarial abstrato da força de trabalho e matérias-primas" se
torna cada vez mais obsoleto e tem de ser posto em questão (R. Kurz). Salvo
engano, é precisamente a ascensão do principio masculino (1) do
"trabalho abstrato como um tautológico fim em si mesmo" (R. Kurz) que
traz como resultado o confinamento doméstico e a repressão da mulher na
história ocidental, produzindo, ao fim e ao cabo, a perda da dimensão sensível
das relações humanas, a destruição da natureza e a ameaça de guerra nuclear.
Nesse sentido, o movimento feminista não precisa -
para dar prova de seu valor (moral e econômico) - tentar a redefinição da
atividade feminina em termos de trabalho, já que o "trabalho" é de
certo modo a "raiz de todo o mal". Isso não significa, por sua vez,
que a atividade feminina e as atribuições patriarcais a ela vinculadas, da
forma como se manifestam hoje, sejam de algum modo "melhores" e
permitam deduzir modelos para o futuro, como acreditam muitas feministas. De
fato, a "esfera feminina" e as qualidades imputadas às mulheres
representam somente o outro lado da moeda do "trabalho abstrato no
patriarcado ligado à forma-valor. Eis por que é tão errado referir-se
positivamente à esfera feminina quanto ao” trabalho “ em geral (2).
2. Ao
lançarmos mão da "crítica fundamental do valor", nos moldes em que
foi efetuada pelo grupo da revista KRISIS (3), surge o problema de que, a
exemplo do marxismo acima criticado dos movimentos trabalhistas, sua posição é
a princípio sexualmente neutra. Em suas obras, até agora, aquela crítica
abstrai sua conotação sexual específica e não vê que o "trabalho"
abstrato, alvo de suas objeções, constitui um principio masculino fundamental
que anda de mãos dadas com relações sexuais assimétricas, ou melhor, com a
dominação masculina. A "crítica do valor" comporta-se de modo
masculinamente universal, como é típico do pensamento masculino do Ocidente, e
sugere ser igualmente válida para todos e para todas.
No conceito do indivíduo abstrato e
"puntiforme", livre de conteúdos sexuais, os textos do grupo KRISIS
(até aqui) ofuscam o caráter sexual específico da lógica do valor (4) Minha
crítica vincula-se também ao fato de que o conceito de patriarcado (e, com ele,
o caráter de dominação da relação entre os sexos na forma-valor) é em parte
evitado ou mesmo conscientemente negado através do recurso ao caráter
fetichista da sociedade mercantil. Depois de intervenções críticas, o conceito
de valor assexuado e a rejeição sumária do conceito de patriarcado foram
parcialmente reformulados ou retirados, mas ainda está por vir uma verdadeira
explicação conceitual (5). O problema pode ser aguçado pela seguinte
alternativa: ou bem o trabalho abstrato e o valor são compreendidos já em seu nexo
constitutivo (e, portanto em seu próprio núcleo) como princípio
masculino, ou bem se volta a uma hierarquia conceitual, em que a
distribuição dos papéis sexuais é remetida, como simples "problema derivado"
ou de "concretização", a uma correlação secundária.
Nesse contexto, para evitar mal-entendidos que possam
surgir do conceito de patriarcado, esclarecemos que, ao falar de dominação
masculina, não queremos dizer obviamente que o homem se poste ao lado da mulher
constantemente de chicote em punho, para fazer valer a sua vontade. No sentido
aventado aqui, o domínio baseia-se essencialmente na institucionalização e na
internalização de normas sancionadas pela coletividade. Estudos feministas
revelam que, historicamente, as mulheres não raro se ergueram em defesa de seu
papel tradicional, oferecendo resistência e exigindo seus direitos a partir
dele (cf. Heintz e Honegger, 1981). Domínio masculino também não significa que
as mulheres se encontrem absolutamente despojadas de seu poder de influência.
Este, contudo, restringe-se em boa parte à esfera que lhes é atribuída.
Esse conceito diferenciado de dominação tampouco
contradiz o caráter fetichista do valor. Nos debates do grupo KRISIS, ao
menos até recentemente, o conceito de fetiche foi frontalmente contraposto ao
conceito de dominação e, portanto, ao de patriarcado. Para tanto foi preciso
supor um conceito de dominação simplificado e reduzido ao sujeito (6) . Do meu
ponto de vista, pelo contrário, a dominação é sem sujeito por sua
própria essência, ou seja, os depositários do domínio não são sujeitos
autoconscientes, mas agem no interior de uma moldura de sociabilidade dotada de
constituição historicamente inconsciente. O valor sem sujeito remete ao homem
sem sujeito, que na qualidade de dominador, de iniciador e realizador, colocou
em movimento instituições culturais e políticas capazes de cunhar a história,
que começaram a ter vida autônoma, inclusive com relação a ele (7).
3. Ao
caracterizar o patriarcado, suponho que as diferenças sociais entre os sexos
são produto da cultura, e portanto não de correm de dados biológicos (por
exemplo, a capacidade de dar à luz) (8) . A existência do patriarcado não deve
ser ontologizada, como mostram os estudos de cultura comparada:
Se os exemplos
etnológicos de relações equivalentes entre os sexos representam no cômputo
geral uma clara minoria, ainda assim eles são numerosos o bastante para impedir
que sejam descartados por completo como meras exceções que confirmam a regra
universalmente válida da subordinação feminina (Arbeitsgruppe Ethnologie Wien, 1989, pp. 15 s.).
Mesmo onde surgem elementos patriarcais, eles não
possuem sempre o mesmo significado. Um patriarcado no sentido de uma
determinação patriarcal das relações sociais por meio do trabalho abstrato e do
valor é típico apenas da sociedade ocidental. Por isso esta deve ser analisada
em separado.
O núcleo de minha tese é o seguinte: a contradição
básica da socialização através da forma-valor, de matéria (conteúdo, natureza)
e forma (valor abstrato) é determinada com especificação sexual. Todo conteúdo
sensível que não é absorvido na forma abstrata do valor, a despeito de
permanecer como pressuposto da reprodução social, é delegado à mulher (dimensão
sensível, emotividade, etc.). Há muito essa conexão é tematizada na literatura
feminista como o mecanismo da cisão (9), embora até onde sei nunca tenha
sido referida à constituição negativa da socialização pelo valor, no sentido de
uma crítica do valor e do trabalho. Somente por meio dessa relação, porém, será
possível explicar, para além do simples plano fenomênico, a problemática
conceitual da cisão (10).
No entanto, a cisão sexualmente especificada não pode
ser inferida diretamente da própria forma valor. Ao invés disso, ela é numa
certa medida a sombra lançada pelo valor, mas que não pode ser apreendida por
intermédio do instrumental "positivo" dos conceitos formulados por
Marx. As cisões de que resultam a esfera feminina, o contexto de vida feminino
e o âmbito de atividades imputado às mulheres (administração do lar, educação
dos filhos, "convívio social", etc.) são, portanto elementos
integrantes, por um lado, da socialização pelo valor, mas por outro, lhe são
também exteriores. Como no entanto a cisão necessariamente faz parte do valor e
com ele é posta, seria preciso criar um novo entendimento da socialização,
capaz justamente de levar em conta o mecanismo patriarcal da cisão ¾ não no
sentido de um acréscimo externo, mas no de uma alteração qualitativa da própria
teoria do valor, que seria assim também uma crítica do patriarcado.
A constituição do valor, sexualmente específica,
produz em última instância a repartição conhecida dos papéis entre os sexos; o
"feminino" assim adjudicado torna-se a condição de possibilidade do
princípio masculino do "trabalho" abstrato. A assimetria dessa
relação, na qual o elemento sensível é marcado como feminino e por isso mesmo
posto de lado e avaliado como inferior, justifica a fórmula algo
sensacionalista com que caracterizamos o patriarcado sem sujeito: "o valor
é o homem". Entretanto - e isso deve ser expressamente salientado - meu
interesse é a investigação de uma estrutura cultural. Não são tanto
homens e mulheres empíricos que tenho em mira, embora é claro que as relações
empíricas entre homens e mulheres sejam definidas por essa estrutura, sem
contudo serem nela totalmente absorvidas.
4, Essa
estrutura básica da relação de valor tem correspondência com a formação de uma
esfera privada e outra pública. A esfera privada, conseqüentemente,
é ocupada pelo tipo ideal "feminino" (família, sexualidade, etc.), ao
passo que a esfera pública ("trabalho" abstrato, Estado, política,
ciência, arte, etc.) é "masculina". De forma ideal, a mulher seria
assim o "recosto" social para o homem, que age na esfera pública.
Dessa relação (nossa velha conhecida no plano da aparência) entre esfera
pública e privada pode-se deduzir uma diferenciação histórica do patriarcado,
uma vez que tal relação deixou de ser parte evidente de todas as sociedades surgidas
até hoje.
Em sociedades agrárias, mesmo que patriarcais, o
divórcio entre esfera pública e privada ainda não se acha configurado, ou
apenas em pequeno grau; as mulheres, assim, guardam ainda uma parcela
relativamente grande de poder de influência, na medida em que a esfera
jurídico-formal e público-masculina não se tornou independente nem foi alçada à
posição dominante, o que dá mais campo às estratégias informais:
Sob os preceitos da
economia familiar camponesa, as mulheres têm mais poder e influxo do que a
aparência pública de dominação masculina deixaria entrever (...). O poder
feminino em condições agrárias baseia-se (...) na produção e no controle direto
de recursos vitais, assim como na condução indireta de decisões socialmente
relevantes (Heinzt e Honegger, 1981,
p. 15; cf. também, de forma análoga, Nadig, 1988).
O patriarcado, nesse sentido, ainda não desfruta da
mesma importância nem pode pleitear o papel universalmente determinante que
ocupa nas sociedades ocidentais pautadas pelo valor. Mas com isso não queremos
edulcorar ou mesmo enaltecer as relações por vezes brutais no interior dessas
sociedades não-europeias (ou também de velhas sociedades da Europa, anteriores
ao jugo do valor); trata-se, antes, de estabelecer o significado da separação entre
as esferas públicas e privada para a estrutura do patriarcado ligado à
forma-valor.
Simplificando ao extremo, poder-se-ia dizer: aquela
divisão das esferas e o patriarcado guardam uma relação de reciprocidade.
Quanto menos desenvolvida é a esfera pública, mais difuso e menos nítido é o
influxo do patriarcado na sociedade como um todo. E vice-versa: quanto mais
desenvolvida é a relação de valor, quanto mais claro é o divórcio entre esfera
pública e privada, mais inequívoca é a estrutura patriarcal. Surge assim a
possibilidade de um desenvolvimento contraditório, conforme se fale da
sociedade como um todo ou somente da esfera público-jurídica tomada em si
mesma: se é certo que o patriarcado ligado ao valor só se perfaz com a
separação entre esfera pública e privada, ao passo que decresce o antigo poder
informal de influência da mulher, não deixa de ser verdade, por sua vez, que a
posição da mulher dentro da esfera pública (ou mesmo seu acesso a tal
esfera) pode acusar simultaneamente uma melhora parcial.
A relação patriarcal de valor e dos sexos tem assim
uma história de efetivação longa e contraditória. No que segue, trataremos de
dar um breve apanhado histórico sob o aspecto da continuidade e das rupturas.
Meu interesse está voltado para uma abordagem histórico-sistemática, ou seja,
não procederei à enumeração de fatos, mas antes a rápidos flashes do
percurso em direção da clausura doméstica da mulher e da exclusão do
"feminino", desde a Antiguidade até os dias de hoje.
5. Os
pressupostos do patriarcado ocidental e cristão ligado à forma-valor têm origem
na Grécia antiga. É absurdo acreditar que somente os fundamentos da matemática
e das ciências naturais tenham sido lançados na Grécia. Tais bases só puderam
firmar-se sobre o solo de uma racionalidade específica, de cunho masculino e
mercantil. A própria situação geográfica da Grécia, sua dispersão em ilhas e o
predomínio do tráfego marítimo, devido à falta de alimentos, favoreceram
extraordinariamente a "intensificação da troca de mercadorias" (Sohn-Rethel,
1978, pp. 111), o que por sua vez ensejou a forma monetária. Nesse
espaço geográfico surgiu a primeira cunhagem de moedas (Lídia), sendo adotada
pelos gregos: segundo Sohn-Rethel, como sabemos, este foi um pressuposto
histórico para o pensamento racional e abstrato, desvinculado do mito. Nesse
meio social, a antiga nobreza agrária foi privada de seu poder, sobretudo nas
cidades jônicas; a fim de permitir os contratos no comércio multilateral de
mercadorias, foi necessário criar um organismo jurídico e uma jurisdição
pública.
Tais instituições constituíram uma nova forma e um
novo significado da esfera pública. O discurso perante o tribunal e a
assembléia popular ganhou relevância; era imprescindível saber argumentar de
modo abstrato e racional, a fim de grangear poder e prestígio. Essa esfera
pública que conduziu à criação da dialética, da lógica formal etc., era todavia
reservada exclusivamente aos cidadãos masculinos. As mulheres atenienses viviam
exiladas em casa, de onde deveriam sair o menos possível. A principal tarefa da
mulher era conceber um filho; caso isso não ocorresse, sua vida teria sido em
vão. A hipóstase da nova esfera pública, que exigia a conduta abstrata e
racional, andava de mãos dadas com a degradação da sexualidade em geral (cf.
Reinsberg, 1989). A ascensão do pensamento racional associou-se já desde o
berço à exclusão das mulheres.
A esfera pública, de quem também fazia parte a
formação cultural, necessitava (na figura da esfera privada) de um domínio que
lhe fosse contraposto, para o qual pudesse olhar do alto de sua posição. O
homem precisava da mulher como "antípoda", no qual ele projetava tudo
o que não era admitido no âmbito público e nas esferas adjacentes. Assim, já na
antiga Atenas, a mulher era tida e havida na conta de lasciva, eticamente
inferior, irracional, intelectualmente pouco dotada etc. (cf. Reinsberg, 1989,
pp. 42 s. e Pommeroy, 1985, pp. 362) - atributos esses que permaneceram em
vigor até à modernidade. Tal cisão é comprovada até mesmo nas mais abstratas
concepções teóricas da antiga filosofia. Para Platão, por exemplo, a matéria é
algo amorfo e dificilmente apreensível pelo pensamento, sendo definida (com
gênero feminino) como a "hospedeira e ama das ideias". Também
para Aristóteles o amorfo como byle (traduzido em latim por Cícero como materia,
de onde vem a designação corrente entre nós) é um conceito feminino (cf.
Pauli, 1990, p. 197).
6. Com a
derrocada da sociedade antiga, o intercâmbio mercantil e monetário sofreu
drástico retrocesso; paralelamente desmoronou a esfera pública separada e
diferenciada, predominante na sociedade greco-romana. As tribos germânicas
ainda não estavam estruturadas segundo o molde do valor. A despeito de fortes
elementos patriarcais, a mulher desfrutava entre os povos germanos de uma espécie
de significação mística. Tácito relata que as mulheres germanas gozavam de alta
reputação como feiticeiras, videntes e curandeiras. O patriarcado preso ao
valor teria assim de começar do zero para reconstruir seu poder sob condições
adversas.
Na sociedade medieval, subsistiram por longo período
resquícios "semimatriarcais" dos germanos no seio do patriarcado. Por
um lado, a mulher era juridicamente subordinada ao marido, precisava de um
representante legal (pai ou cônjuge) e podia em princípio ser até negociada
como cabeça de gado, escravo ou um objeto qualquer. Seria entretanto ilusório
deduzir que algo semelhante estivesse na ordem do dia na vida cotidiana. O
direito e a esfera pública desempenhavam papéis inteiramente diversos e
sensivelmente menores do que em sociedades dotadas de uma forma-valor mais
desenvolvida. Na Alta Idade Média, era até mesmo permitido às mulheres
dedicarem-se ao comércio e ocuparem-se de um ofício, embora não com a mesma
assiduidade dos homens. Ainda que o casamento fosse no fundamental uma relação
de poder, a mulher desfrutava possivelmente de certa autoridade na família ¾
ela tinha a chamada "última palavra" como administradora do lar. As
grávidas, em conformidade ao direito germânico, recebiam proteção especial (cf.
entre outros, Becker, 1977, pp. 41 ss). A própria imagem da bruxa não se
definia de antemão como negativa. Considerava-se que a magia podia ser boa e
podia ser má. O curandeirismo e ofício de parteira estavam solidamente
depositados em mãos femininas.
Nessa época, foi sobretudo nas doutrinas da Igreja
que se preservou a antiga e inequívoca imagem negativa da mulher. Como
sucessora de Eva, ela foi denunciada como causa de todo o mal e eterna sedutora
da carne. A partir do século XII, Eva, a pecadora, passou a ser confrontada com
a Virgem Maria. Desde então, a mulher devia ser quando muito um ente assexuado.
Em consonância à palavra de Paulo, segundo a qual a mulher tem de calar-se na
comunidade, ela perdeu sua razão de ser na esfera pública. Mas como a
"esfera pública" restringia-se praticamente à Igreja, ao passo que a
vida real centrava-se na "família produtiva", o significado social
dessa imagem feminina foi bastante limitado. Nas massas camponesas, no seio das
quais ainda subsistiam inúmeros resquícios pagãos e germânicos, a imagem cristã
da mulher como "poço de pecados" foi incapaz de firmar-se sobre as
pernas. De modo geral, os costumes sexuais não eram de forma alguma tão rígidos
quanto os prescritos pela Igreja (cf. Becker, 1977, pp. 57 ss.).
7. Se
posição da mulher nas relações patriarcais da Idade Média ainda era dotada de
um elemento contraditório, sua situação piorou drasticamente no início da Idade
Moderna. A imagem feminina negativa brandida pela Igreja tornou-se, sob as
novas condições, mais eficaz na prática. A Renascença, além de ser o
"renascimento" do antigo mundo espiritual, estava vinculada também a
uma respectiva mudança dos fundamentos sociais. A produção de mercadorias e o
fluxo monetário ganharam novo alento e conduziram ao processo de reestruturação
descrito por Marx em sua análise da acumulação primitiva do capital. Assim,
constituiu-se novamente uma esfera pública no interior da sociedade:
Embora os estágios
evolutivos da Idade Média sejam bastante diversos no que respeita às mulheres,
sendo muitas vezes contraditórios e avessos a uma imagem uniforme, podemos
observar no início da Idade Moderna que a situação das mulheres piorou a olhos
vistos, como dão prova as repressões por ela sofridas em todos os âmbitos
sociais. Quanto mais se desenvolvem uma esfera pública supra-regional, uma
jurisdição estatal e uma ciência institucionalizada, mais nítido se torna o
papel marginal atribuído à mulher (Becker, 1977, p. 79).
Francamente revolucionário foi o salto dado sobretudo
pelas ciências naturais nessa época. A imagem de um mundo mágico e místico foi
substituída pelas ciências experimentais e objetivas. Tais alterações não
retomaram simplesmente o antigo desenvolvimento greco-romano, mas foram muito
além. Com sua racionalidade, as ciências puseram em tela de juízo não apenas a
imagem tradicional do mundo, mas tornaram-se também diretamente práticas na
condição de experimentais, à diferença da Antiguidade; com a difusão do
conhecimento técnico, foi dado início à expansão da manufatura mercantil. Este processo
foi vertiginosamente acelerado com o descobrimento de novos continentes. As
incisões sociais a que foi submetida a sociedade agrária foram portanto muito
mais profundas do que na Antiguidade e já deixavam entrever o capitalismo
nascente. Além de a posição da mulher agravar-se com o impulso renovado da
sociedade do valor, foi instaurada literalmente uma campanha de aniquilação
contra o "feminino", sob a égide da caça às bruxas ¾ campanha esta
responsável por abrir caminho a um processo que avançaria futuro adentro:
O "novo ser
humano" da era industrial foi o homem. A imagem mágica e a mística da
mulher permaneceu intacta no período burguês, embora ela não fosse mais
considerada como sujeito da apropriação da natureza, mas como objeto da
dominação da mesma natureza (Bovenschen, 1977, p. 292).
Ora, a mulher (na figura da bruxa) mantinha uma
relação "simpática" com a natureza; de certo modo, ela fazia as vezes
de natureza. Para que a racionalidade do homem moderno pudesse impor-se na
esteira do legado antigo e para além dele, era necessário portanto literalmente
eliminar a mulher e tudo o que ela representava (o sensível, o difuso, o
incalculável, o contingente, etc.). Não se tratava apenas do fato de os homens
expropriarem brutalmente a ciência medicinal empírica das mulheres; antes, o
que estava em jogo era um projeto fundamentalmente diverso de relacionamento
com a natureza (cf. Bovenschen, 1977) (11) . A fundamentação teórica é
fornecida sobretudo pelo chamado Malleus maleficarum (O martelo das
bruxas), de 1487, redigido pelos padres H. Kraemer e J. Sprenger. Pais da
Igreja, poetas e pensadores antigos eram citados no fito de tornar plausível a
inferioridade da mulher e sua predisposição à bruxaria e ao pacto com o
demônio. Imputavam-se mais uma vez às mulheres atributos como inconstância,
concupiscência, raciocínio débil, extravagância, perfídia e credulidade (cf.
Becker, 1977, pp. 342 ss.) (12).
Não apenas os conhecimentos naturais heterodoxos das
"mulheres sábias" medievais, mas também as qualidades "femininas"
em geral (assim reputadas pelo patriarcado) devem ter aparecido como uma ameaça
aos olhos da incipiente modernidade masculina, inclusive no tocante à economia
afetiva e passional. Na Idade Média, o controle dos afetos e das paixões era em
regra pequeno: comia-se e bebia-se literalmente até cair, urinava-se pelos
cantos e à vista de todos e assim por diante. Agora era preciso modificar não
apenas os costumes de mesa. O autocontrole do indivíduo é também o
pressuposto de uma compreensão científico-racional da natureza e da sociedade
em geral, pois em seu princípio está o distanciamento em relação ao objeto de
interesse, fato que se acha incluso no controle dos sentimentos. Também o
comércio, a economia monetária, a divisão de trabalho e o convívio com
estrangeiros requeriam em grande medida uma dilação das paixões e o controle
dos impulsos (cf. Elias, 1976). Na caça às bruxas, portanto, estava claramente
em ação o mecanismo das projeções: o temor aos próprios impulsos e afetos
encontrava expressão na denúncia contra a mulher.
Os séculos XVI e XVII foram aparentemente também uma
época sacudida por crises e revoluções. Guerras camponesas, inflação e carência
de alimentos, dissolução das guildas, etc., impregnaram a imagem da sociedade;
boa parcela da população tornou-se miserável. Uma situação anômica como essa
foi talvez decisiva para que a caça às bruxas instituída pela Igreja
encontrasse respaldo também na população (tanto masculina quanto feminina):
Quando o processo de
trocas materiais entre o homem e a natureza ingressou em seu novo estágio (...)
a destruição da antiga relação com a natureza, especialmente seu estreito
vínculo com a mulher, tornou-se imprescindível. Os indivíduos teriam de
orientar-se pelas normas de trabalho nos novos tempos (...). A bruxa
encontra-se nesse ponto de intersecção do desenvolvimento histórico, no qual a
exploração da natureza adquire seu caráter sistemático. Vítima do controle
necessariamente progressivo da natureza, ela sucumbiu desse modo ao triunfo da
razão abstrata e da síntese formal entre identidade e não-identidade. Seus
traços desapareceram na generalidade dos conceitos com os quais o pensamento
moderno organizou a natureza (Bovenschen, 1977, pp. 290 e 292).
Fica assim comprovado que a velha noção da caça às bruxas
como um último estertor da "Idade das Sombras" não é de forma alguma
adequada. Pelo contrário, trata-se em certa medida de um primeiro fenômeno
de modernização, de um pressuposto sangrento para a ascensão moderna da
racionalidade masculina. Como em toda a reviravolta histórico-social, as forças
propulsoras eram contraditórias em sua ideologia. Embora de um lado a Igreja
antipatizasse com as novas idéias (das ciências naturais), uma vez que elas
punham em xeque a própria imagem do mundo, sua função no efetivo processo de
revolução social foi ambivalente. Por meio da caça às bruxas, de fato, a Igreja
forneceu o impulso decisivo para a destruição da antiga imagem mística do
mundo, e nesse sentido foi plenamente propícia aos novos poderes e às novas
idéias. Em que pese sua "animosidade ao progresso", a Igreja atuou de
certa forma como um algoz a serviço da nascente modernização. Isso também é
corroborado pelo fato de que "a neurose das bruxas não surgiu em áreas
rurais, mas nas regiões industrialmente mais desenvolvidas e intelectualmente
mais avançadas da Europa" (cf. Heinemann, 1989, pp. 37) ao passo que o Malleus,
por exemplo, foi rejeitado pela Inquisição espanhola. O Iluminismo, como o
impulso seguinte da modernização patriarcal, ligada ao valor, pôde assim
condenar a caça às bruxas com venerável indignação sobretudo porque essa
"tarefa" já havia sido previamente realizada.
8. O
potencial regulamentador da Igreja, ainda bastante superficial na Idade Média,
tornou-se objetivamente necessário com o início da Idade Moderna; o
protestantismo foi o primeiro a ditar o figurino do superego nas novas
relações. Além de instaurar, com o movimento da Reforma, uma religião
individualizada, a ética protestante proclamou a redenção da alma por meio da
conduta moral. Nesse contexto, as ordenações patriarcais dos papéis imputados
aos sexos adquiriram uma nova qualidade. A virulenta campanha contra o
"feminino" manifestou-se (em complemento ao projeto científico de
"controle da natureza") como tendência a domesticar a mulher
como "ente natural", isto é, fazer com que a mulher, como
representante da natureza (e a natureza como local de destino do mundo
feminino) levasse uma vida serena, doméstica e controlada pelo patriarcado.
Paralelamente à caça às bruxas, desenvolveu-se assim
o ideal materno como nova imagem da mulher. Os responsáveis para tanto foram a
Reforma e sobretudo Lutero. Segundo ele, à mulher competia a administração do
lar (cuja importância diminuiu relativamente) e ao homem, a política, as
querelas jurídicas, etc. (cuja importância aumentou relativamente). A
maternidade, para Lutero, era a vocação feminina. Embora tenha em certa medida
reabilitado a mulher dentro de seu papel restrito (em contraste à idéia de
inferioridade pespegada pela Igreja Católica), na medida em que atribuía valor
à sua atividade de esposa e mãe, a concepção de Lutero implicava ao mesmo tempo
o encerramento da mulher - e com ela a sexualidade e a sensibilidade - no
claustro do casamento, ao contrário do que ocorria na Idade Média.
Ratificou-se assim, desde Lutero, uma nova
codificação e funcionalização da sexualidade e sensibilidade. O ideal luterano
da mãe dona-de-casa conjugava a imagem da bruxa e da Virgem Maria (que Lutero
rejeitava em sua versão católica). Nasceu desse encontro a imagem da mulher
burguesa domesticada, que representava, por um lado, a humildade, a amabilidade
e a obediência e, por outro, também uma versão domesticamente comedida de
paixão e erotismo (cf. Hoher, 1983, pp. 49 ss.). Nessa concepção, revela-se o
posterior desenvolvimento da imagem patriarcal da mulher quando comparada às
noções da Antiguidade e da Igreja medieval - imagem esta que correspondia às
novas relações burguesas.
Em Lutero, é claro, tratava-se apenas de uma
"primeira abordagem" relativamente tosca à moderna imagem patriarcal
e burguesa da mulher, que de início recobria somente uma fina camada da
sociedade. Foi, sobretudo entre o patriciado e os mestres de ofício que as
atividades da mulher restringiram-se progressivamente ao homem e os filhos; num
processo concomitante, houve uma mudança de sentimentos ¾ o amor entre cônjuges
e entre pais e filhos foi descoberto como economia emocional domesticada:
(...)
"domesticação" não significa o desaparecimento físico da esposa como
individualidade sob a figura do marido, mas sim seu desaparecimento
tendencialmente psíquico. A consciência da própria individualidade lhe era
permitida somente nos limites de publicidade do lar. Ora, na medida em que o
lar resguardava suas funções públicas, isso não acarretava uma total exclusão
da própria esfera pública (Wunder, 1991, pp. 24).
Especialmente no campo, uma rígida diferenciação dos
âmbitos da atividade em "públicos" e "privados" levaria
ainda muito tempo para concretizar-se. Todavia, o esboço de uma feminilidade
burguesa e votada à família esgueirou-se progressivamente por todas as classes
e estamentos, e o desenvolvimento posterior recebeu dela uma marca indelével.
9. A era
da Ilustração deu novo impulso ao processo de domesticação da mulher. No
início, havia ainda entre os primeiros ilustrados opiniões favoráveis a
estender às mulheres o projeto de emancipação igualitária. Tais projetos
ideológicos da Ilustração, devotados a uma racionalidade supostamente neutra em
relação aos sexos, não foram capazes de se impor em face do peso de seu próprio
fundamento social, a saber, a progressiva socialização pelo valor. Esta, de
fato, requeria a crescente diferenciação dos papéis patriarcais entre os sexos,
tanto é que, na segunda metade do século XVIII, criou-se uma imagem feminina
que tornava a mulher novamente um ser da natureza. Essa imagem, no entanto,
adquiriu uma nova coloração e uma nova qualidade, de vez que a mulher estava
destinada "por natureza" a não ser mais que esposa, dona-de-casa e
mãe:
Por volta de meados
do século XVIII, as normas de conduta restritivas professadas pela Igreja foram
substituídas pela doutrina da mulher como um ser eticamente natural, a quem era
imanente um impulso irrefreável ao autosacrifício. Embora a nova imagem que se
delineava do caráter feminino ainda a descrevesse como um ser irracional e
movido pelos desejos, introduziu-se uma mudança decisiva, pois cada vez mais
atribuía-se aos cegos arrancos da mulher um propósito ético (Bennent, 1985, p. 44).
O duplo conceito da mulher como santa e meretriz foi
conservado e reforçado. Rousseau, que é tido como o fundador ideológico do
moderno patriarcado, considera a discrição, a obediência ao homem, a modéstia e
a castidade as virtudes cardeais da mulher; ao mesmo tempo, contudo, ele a
define também como astuta e coquete "por natureza". Estes últimos
atributos, segundo Rousseau, cabe a ela "cultivar" (dentro de
limites, é claro), para assim contrabalançar sua subordinação em face do homem
bem como sua fraqueza corporal, de raciocínio e de caráter (cf. Rousseau, 1986,
pp. 719 ss.).
Na medida em que à mulher se imputavam novas
qualidades como passividade e emotividade (se bem que agora restritas ao
círculo familiar burguês) e ao homem, por sua vez, a ação e a racionalidade no
espaço público da incipiente sociedade industrial, ocorreu uma
"polarização de caráter entre os sexos". A mulher e a família deviam
converter-se em pólos de oposição ao mundo externo cada vez mais dominado pela
racionalidade instrumental. Cabia à mulher não apenas ser uma dona-de-casa exemplar,
mas também tornar agradável a vida do marido com sua assistência, seus cuidados
e seu interesse. Essas tarefas adicionais representavam uma inovação (cf.
Hausen, 1978). À diferença dos primeiros patriarcados da Antiguidade, presos à
forma-valor, em que o homem ainda encontrava sua satisfação na própria esfera
pública, elas são testemunha do quanto a racionalidade patriarcal e do valor
fugiu ao controle do homem nesse meio tempo, do quanto ele depende agora de um
"bem-estar doméstico" propiciado pela mulher.
10. No
século XIX, a "vocação materna" da mulher burguesa ganhou relevância
ainda maior. As esferas de produção e reprodução cindiram-se cada vez mais. As
atribuições sexuais adquiriram traços quase profissionais: a mulher estava
"talhada" para atividades de cunho mais pessoal, e o homem para
atividades produtivas na ciência, tecnologia e cultura:
Quanto mais rápida e
profundamente se modificava o mundo externo (...), e quanto mais ágil e vivo o
empenho profissional e público dos homens, mais nítida era a discrepância entre
a existência familiar feminina e a inclinação profissional masculina. Se o
homem dotado de ambição e disposição desempenhava o papel do descobridor e
revolucionário progressista, a mulher burguesa viu-se confrontada com a tarefa
de manter a família em equilíbrio, de desincumbir-se dia após dia dos afazeres
domésticos e de funcionar como uma relojoaria de tique-taque cadenciado (Frevert, 1986, pp. 65).
Casamento e maternidade tornaram-se então o único locus
social onde a mulher (burguesa) podia locomover-se; de resto, ela dependia
inteiramente de seu marido. A domesticação da mulher atingiu no séc. XIX um tal
ápice que mesmo o forte instinto sexual imputado às mulheres ao longo do tempo
chegou a ser desmentido. O absurdo era tanto que foram promovidos debates
"científicos" entre os homens para saber se a mulher era capaz de
prazer sexual. A domesticação, portanto, foi infletida como tendência a um ser
absolutamente assexuado (cf. Frevert, 1986, pp. 128 ss.).
Mas o século XIX viu nascer também o primeiro
movimento feminista, cujos rudimentos remontam à Revolução Francesa. A
exigência de emancipação própria à Ilustração, que em sua abstração tem como
fundamento o sujeito masculino da socialização pelo valor, foi então pleiteada
pelas mulheres a partir de seu próprio modo de ser "divergente", isto
é, de acordo com sua posição social. O exílio no lar permaneceu assim
indisputado. Na esteira da Revolução de 1848, Luise Otto postulava o direito
das mulheres "à independência e maioridade no Estado". Após sua
proibição, o movimento feminista burguês recompôs-se nos anos 60 do século XIX.
Exigiam-se sobretudo uma melhor formação cultural das estudantes e o direito à
atividade remunerada, embora as mulheres devessem ocupar-se de tarefas correspondentes
à sua "destinação natural" (comércio e ensino, e mais tarde também a
assistência social). Uma razão importante para exigir o direito à atividade
remunerada residia no fato de que uma quantidade cada vez maior de mulheres
burguesas permanecia solteira. A própria estrutura familiar sofreu mudanças na
segunda metade do século XIX: muito do que antes era produzido em casa passou a
ser comercializado, e a importância da administração doméstica decaiu
proporcionalmente (Frevert, 1986, pp. 73 ss. e 174 ss.).
A atividade reprodutiva das mulheres devia então ser
continuada dentro da esfera do trabalho. Nos primórdios do movimento feminista,
o que estava em jogo para a grande maioria não era de modo algum a plena
igualdade de direitos. A maternidade já fora internalizada como uma
"vocação natural"; as supostas "diferenças entre os sexos"
não deviam ser violadas. Até mesmo o objetivo social desses primeiros
movimentos consistia somente no prolongamento social da feminilidade doméstica:
o mundo frio e exclusivo dos homens devia ser humanizado pelo "natural
sentimento materno" da mulher (cf. Frevert, 1986, pp. 124 ss.). Ao lado
dessa maioria dos movimentos feministas burgueses, havia ainda uma pequena e
radical minoria, representada por Helene Stöcker com sua "Nova
Ética". Esta facção punha em tela de juízo a domesticação patriarcal,
exigia um direito próprio às mulheres em relação a sua sexualidade, a revogação
do parágrafo 218 [Referência à disposição legal sobre o aborto contida no
Código Penal Alemão (N.T.)], proclamava o livre conúbio como alternativa ao
casamento, voltava-se contra a estigmatização jurídica e social de filhos
ilegítimos e reclamava o sufrágio feminino, em contraste ao comedimento típico
da maioria (cf. Schenk, 1980, pp. 32 ss.).
Se não diferia quanto ao resultado, pelo menos no
tocante ao ponto de partida a situação das trabalhadoras era diversa. A classe
operária surgida com a industrialização era a mesma que, ainda no século XX,
vivia quase como um corpo estranho, à margem da sociedade burguesa oficial e
por ela conscientemente excluída. Neste setor, a domesticação da mulher ocorreu
num grau muito menor, embora as antigas formas agrárias de existência da
feminilidade tivessem sido aniquiladas para dar lugar ao nefasto trabalho de
mulheres e crianças nas fábricas. As associações femininas burguesas foram as
primeiras a cuidar das trabalhadoras, ao passo que o movimento trabalhista
masculino, por razões de concorrência, portava-se com acentuada reserva
(Schenk, 1980, p. 48). Como a tendência objetiva do movimento trabalhista
consistia em inserir sem restrições a classe operária na socialização burguesa
pelo valor, ele estava condenado a reproduzir o próprio padrão de hierarquia
sexual burguesa. A "questão da mulher" foi subsumida à "questão
das classes". As contradições resultantes permanecem intactas. A
social-democracia, para dar um exemplo, exigia de um lado o sufrágio feminino e
a melhor remuneração das atividades femininas, mas de outro, afirmava que o
salário de um trabalhador masculino haveria de ser suficiente para
"alimentar uma família", o que implica a domesticação burguesa da
mulher trabalhadora. Dessa contradição não escapou nem mesmo o movimento
feminista das proletárias, que, apesar das reivindicações mais ou menos veementes
a favor da remuneração condigna, em boa parte afirmava a maternidade como a
"vocação natural" da mulher (Frevert, 1986, pp. 134 ss.). A
contradição apontada aqui se agravou por volta do final do século XIX e
persistiu até meados do século XX.
A crescente inserção de mulheres em atividades não
remuneradas alcançou seu auge na I Guerra Mundial, já que elas foram obrigadas
a substituir nas fábricas os postos vacantes dos homens recrutados pelo serviço
militar. Essa tendência não progrediu linearmente. Após o fim da Primeira
Grande Guerra e durante a crise econômica mundial, as mulheres foram as
principais atingidas pelo desemprego. Ao contrário de sua propagação do ideal
materno e do da dona-de-casa, os fatos indicam que no fascismo - talvez em
virtude dos preparativos de guerra a partir de 1935 - houve um recrudescimento
da atividade profissional feminina (cf. Daubler-Gmelin, 1977, pp. 28 ss.). Não
obstante todas as mudanças na atividade feminina remunerada, o padrão de
hierarquia sexual manteve-se bastante estável. O movimento feminista moderado,
que sempre propalara de maneira conservadora o ideal materno, dissolveu-se com
a ascensão ao poder dos nazistas em 1933. Pode-se afirmar com certa justiça
que, com sua ideologia da maternidade, ele foi propício à imagem feminina do
fascismo.
11. Na
segunda metade do séc. XX, a relação entre os sexos parece sofrer nova mudança
radical. As novas condições do problema podem ser expressas com auxílio da
consagrada "tese da individualização" de Ulrich Beck. Por
"individualização" entende Beck o processo segundo o qual as pessoas
libertam-se dos papéis sexuais que lhes foram introjetados pela "sociedade
industrial". A elas cabe reconstruir sua vida (se necessário, contra os
vínculos familiares) acima do mercado de trabalho, da instrução escolar e das
imposições de moradia (Beck e Beck-Gernsheim, 1990, pp. 13 s; cf., para o que
segue, Beck, 1990). Tal evolução ocorreu principalmente graças ao vertiginoso
aumento das atividades femininas remuneradas após o término da II Guerra. Surge
assim um novo potencial contraditório. De acordo com Beck, o núcleo familiar e
seus papéis sexuais são, por um lado, a base da sociedade industrial, mas, por
outro, o surto de individualismo produzido pelos mecanismos cegos de mercado
atinge progressivamente também a mulher e torna a tradicional repartição de
papéis mais problemática do que nunca. Outros aspectos relevantes são a
possibilidade de prevenção da gravidez, os processos de racionalização da
economia doméstica, etc.. Ao mesmo tempo, porém, a mulher vê-se presa ao seu
papel tradicional tanto pela responsabilidade que lhe é atribuída no tocante
aos filhos quanto pelo fato de que as mulheres são sempre as mais atingidas
pelo desemprego em massa:
Estamos portanto -
com todos os antagonismos, oportunidades e contradições - apenas no início do
processo que nos libertará das atribuições "estamentais" do sexo. A
consciência da mulher adiantou-se às relações sociais. Que os ponteiros de sua
consciência possam voltar atrás é algo improvável. Tudo depõe a favor da prognose de um extenso conflito: a contraposição
dos sexos define os anos vindouros (Beck, 1990, p. 24, grifos no original).
Beck demonstra empiricamente a disparidade da
situação entre homens e mulheres com base em dados contraditórios da
emancipação feminina. As mulheres, por exemplo, equiparam-se aos homens na
obtenção de diplomas escolares, embora a disposição de estudo das jovens tenha
simultaneamente decaído. As jovens de hoje têm melhor formação que suas mães,
embora muitas vezes escolham disciplinas "mal remuneradas" nas áreas
lingüística e pedagógica ou se dediquem a profissões extra-acadêmicas
fortemente ameaçadas pela racionalização (por exemplo, secretária). Em geral,
vale a regra de que as mulheres são encontradas principalmente nos patamares
inferiores das áreas dominantes da sociedade (política, economia, ciência,
mídia). Não é nada raro os homens reagirem às atividades femininas altamente
qualificadas lançando mão de razões biológicas para resguardar a velha
hierarquia.
Segundo Beck, é justamente a forte equiparação entre
homens e mulheres no processo de individualização que traz nitidamente à
consciência todas as assimetrias ainda existentes na relação entre os sexos.
Quem educa o filho, quem sustenta a família, quem segue o parceiro quando seja
necessário mudar de cidade por exigências profissionais, quem decide se as
crianças devem ser criadas dentro ou fora do casamento - tudo isso deixou de
ser inequivocamente claro e assentado:
Em todas as dimensões
da biografia irrompem possibilidades
de escolha e obrigações de escolha. Por princípio, os projetos e ajustes
necessários são revogáveis e dependem de legitimação no que se refere aos
encargos desiguais neles contidos. Em tais consensos e dissensos, os erros e
conflitos fazem aflorar com crescente nitidez os diferentes riscos e
conseqüências para homens e mulheres (Beck, 1990, p. 52, grifos no
original).
Essa constelação profundamente conflituosa não conduz
com exclusividade ao divórcio ou ao celibato:
A esperança da vida
conjugal é a última grande comunhão que a modernidade permitiu ao indivíduo
numa sociedade despojada de sua tradição. É nela, e talvez somente nela, que se
enfrentam e padecem as experiências
sociais, numa sociedade cujas realidades, perigos e conflitos resvalaram
para o abstrato e se furtam mais do que nunca à percepção e ao juízo sensíveis (Beck,
1990, p. 21, grifos no original).
Segundo Beck, portanto, trata-se antes de uma
"libertação rumo à família", num momento em que os mecanismos
de individualização atuantes na família modificam e tornam instáveis as formas
de convivência. A relação entre existência individual e familiar assume novo
aspecto. A família não se desagrega, embora não seja mais a instituição
solidamente estruturada pela qual homens e mulheres orientam toda sua vida. Em
vez disso, surge uma seqüência temporalmente justaposta e imbricada de diversas
formas de vida como família, celibato, comunidades de moradia, novamente
família, etc., pelas quais transitam mulheres e homens individualizados. Cada
um(a) tem de talhar sua biografia de maneira precária. Não é simples acaso, na
óptica de Beck, que a relação entre os sexos só se tenha tornado conflituosa na
modernidade tardia (ele vislumbra nela o "conflito do século"), já
que somente agora as classes se vêem privadas de sua tradição e a racionalidade
abstrata da sociedade industrial começa a infiltrar-se na esfera até então
particular do casamento e da família.
A investigação de Beck presta-se bem a demonstrar as
modificações empíricas na relação entre os sexos durante as últimas duas
décadas e sua história pregressa desde a II Guerra. A estrutura patriarcal
torna-se precária à medida em que as mulheres são capazes, por intermédio do
desenvolvimento social, de se distanciarem do seu papel, o qual nem por isso, contudo,
é superado (13). A meu ver, entretanto, a estrutura teórica de relações
da análise de Beck é fundamentalmente equivocada. Embora o autor, no contexto
teórico, afirme que a divisão dos papéis sexuais seja a "base da sociedade
industrial", o conceito de patriarcado é cuidadosamente evitado. Da
mesma forma, já se vê, ele tampouco relaciona o fundamento patriarcal (apenas
indiretamente mencionado) com a socialização pelo valor, da qual nem mesmo faz
ideia. Apesar de constante, o uso de conceitos como a "modernidade",
"a sociedade industrial", etc., é bastante difuso e nunca chega a uma
definição da sociedade ante o pano de fundo de seu desenvolvimento
androcêntrico e ligado ao valor. Para ele, em última instância, a relação
patriarcal entre os sexos e sua distribuição de papéis não passam de
"fenômenos" empiricamente comprováveis. Nisso ele enxerga apenas um
problema entre tantos da "sociedade pautada pelo risco" (cf. Beck,
1986).
Por apegar-se, em último recurso, a uma estrutura
teórica de relações sexualmente neutra ("sociedade industrial"), Beck
se vê por fim legitimado a neutralizar a mudança empírica das relações entre os
sexos com auxílio do conceito de "individualização", que em sua obra
adquire o estatuto de "chave teórica" para a análise das alterações.
No plano conceitual, portanto, e como simples conseqüência da linha
argumentativa de Beck, a relação assimétrica entre os sexos é novamente posta
em xeque por uma categoria sexualmente indiferente. A
"individualização", e não a problemática dos sexos, aparenta ser com
isso o profundo e "verdadeiro" problema. A argumentação de Beck
coincide neste ponto com o conceito de "indivíduo abstrato"
(igualmente neutro em referência aos sexos) da crítica do valor realizada pelo
grupo KRISIS. Ignora-se o fato de que esse "indivíduo abstrato",
precisamente em sua constituição ligada à forma-valor, é incapaz de
desvencilhar-se de seu papel sexual, porque o valor (a forma mercantil da
sociedade) é ele próprio sexualmente constituído.
Enquanto essa relação não se firmar no pano
teórico-conceptual, a argumentação estará condenada a justificar a crise dos
papéis sexuais com motivos meramente sociológicos, como ocorre em Beck, ou até
mesmo a fazer referência a uma crescente "dissolução" dos
papéis sexuais (14) e das determinações patriarcais já "dentro" de
uma socialização pelo valor, que restaria então como o último
"verdadeiro" problema (sexualmente neutro) da modernidade (como, em
linhas gerais, no trabalho de Turcke, 1991). Em vez disso, seria preciso
encarar de frente a própria constituição patriarcal da relação de valor, ou
seja, o pressuposto sexualmente patriarcal da produção e troca de mercadorias,
que já se encontra na raiz da socialização do valor e não pode ser apreendido
por uma concepção "sociologista" abreviada dos papéis (como em Beck).
12. Quanto
mais coisificadas as relações humanas se apresentam, e portanto quanto mais
desenvolvida for a relação de valor patriarcal e a-subjetiva, mais nítidas
despontam as cisões patriarcais, que hoje já não se alinham com a mesma
evidência de antes, ao relacionamento homem-mulher. Tais cisões, além de
problemas individuais, tornam-se também uma questão pública, isto é, política.
Sobretudo os "novos movimentos sociais", que subiram ao palco social
nos anos 70 e 80 compreendem a si mesmos como reação ao caráter anônimo e
abstrato das relações sociais. Se atentarmos no leque de temas ao redor dos
quais se agrupam tais movimentos, saltará aos olhos a espantosa correspondência
que eles guardam com as atribuições patriarcais referentes "à
mulher".
A temática dos movimentos pacifistas, ecológicos e
psicológicos está em correspondência com as idéias segundo as quais a mulher é
um ser natural mais pacífico e emocional do que o homem. No próprio movimento
alternativo está contida "a questão da mulher", na medida em que ele
se volta contra o trabalho abstrato e alienado - uma esfera que, apesar de
todas as mudanças na atividade remunerada, nunca absorveu as mulheres com a
intensidade com que absorve os homens. Com isso, o trabalho doméstico ainda é
tido como um pólo oposto ao trabalho abstrato. Não admira, pois, sob tais
condições, que o novo movimento feminista tenha surgido sob o signo dos
movimentos de protesto. Quando tudo o que é oprimido e marginalizado se faz
ouvir em massa, a depositária social dessa repressão, "a mulher",
torna-se também necessariamente rebelde. Os mecanismos objetivados da
socialização do valor em forma patriarcal são eles próprios responsáveis não
apenas por conduzir ao distanciamento da mulher em face do papel que lhe é
atribuído (constituindo assim um pressuposto para sua luta emancipatória), mas
também por transformar em objeto de crítica social o "potencial de
destruição da dimensão sensível" desses mesmos mecanismos - potencial este
desenvolvido historicamente através de catástrofes sociais e ecológicas. Nesses
termos, poder-se-iam mesmo considerar os movimentos de protesto dos anos 70 e
80 como idealmente femininos, como expressão da mulher total,
ainda que isso não seja necessariamente reconhecido por suas integrantes e o
embate entre os sexos dentro deles permaneça obviamente virulento.
Segundo K. W. Brand, os novos movimentos sociais "não seguem mais a linha
tradicional do movimento trabalhista". Em vez disso:
Eles inflamam-se
sobretudo em torno de problemas da reprodução social(...). De um lado, a
progressiva destruição dos espaços de vida natural e coletiva, a crescente
concentração tecnocrática de ordens sistêmicas e de coerção, o perigo iminente
de uma guerra atômica; de outro, tentativas de edificar contextos vitais de
organização autônoma, voltados para as próprias necessidades, e de estender as
possibilidades de participação política e de consciência individual - estes são
os temas de primeiro plano dos movimentos políticos e contraculturais de protesto
(Brand, 1984, p. 9).
Ora, seria possível objetar que os nossos movimentos
de protesto e seus temas não são tão novos assim. Como o próprio movimento
feminista, eles tiveram seus precursores históricos. Todo o processo de
modernização, desde o séc. XIX foi acompanhado pelo surgimento de correntes de
crítica à civilização dotadas de conteúdos análogos. Na Alemanha, por exemplo,
podemos citar o movimento de reforma da vida (Lebensreformbewegung), surgido na
segunda metade do séc. XIX e o movimento da juventude (Jugendbewegung), que
teve origem no início do séc. XX:
O Lebensreformbewegung compunha-se
de pequenos movimentos parciais, cujo objetivo comum - a despeito de toda a
heterogeneidade - consistia na recriação de um modo de vida "natural"
que assegurasse a unidade entre homem e natureza por meio da modificação da
conduta individual. Alimentação saudável, moradias em ambiente natural, cura
através das forças naturais, contacto corporal com os elementos da natureza
(luz, água) e uma vida em comunidade eram os pontos norteadores dessa
específica concepção de mundo (Raschke, 1985, p. 44).
O Jugendbewegung buscava igualmente produzir a
"unidade com a natureza" por meio da peregrinação e da vida grupal.
De certa maneira, isso nos recorda o "acesso simpático à natureza"
outrora imputado à bruxa ou à mulher. Supostos espaços naturais eram buscados
em espaços que, também supostamente, encontravam-se à margem da indústria.
Salta aos olhos, porém, que tais movimentos de
crítica à civilização davam mostras de um pendor masculino não apenas quanto à
composição dos integrantes, mas também ao expressar sua exigência de uma nova
relação com a natureza numa forma falicamente distorcida. Logo surgiram
no Jugendbewegung, que originalmente guardara distância do patriotismo e
da germanofilia, fortes correntes anti-semitas, racistas e nacionalistas. Os
partidários de tal movimento exigiam uma
Reformulação nacional
consoante às formas de organização da juventude. Da comunidade dos grupos
peregrinos surgiu por essa via a comunidade popular, do líder do grupo surgiu o
líder do povo. Camaradagem, lealdade e sectarismo foram realçados militarmente
e guindados a virtudes políticas universalmente obrigatórias (Raschke, 1985, p. 49).
Em parte, as razões para tanto podem ser buscadas
numa diferenciação contemporânea da classe média, que foi afetada e totalmente
transformada pela ampliação do trabalho abstrato. Foram justamente os
"perdedores" masculinos desse período que se sentiram acossados pelo
processo de modernização e reagiram com "regressão".
No antigo movimento pacifista que começou a formar-se
a partir de 1890, a participação feminina foi ao contrário relativamente grande
e houve mesmo coincidências pessoais entre seus líderes e os do movimento
feminista (cf. Raschke, 1985, p. 42). Neste último também era evidente, no
entanto, o ideário de crítica à civilização. A massificação, a
desespiritualização e a objetivação foram vistas assim como resultado da
racionalidade masculina; o movimento feminino faria frente a tais fenômenos
negativos com o "espiritual sentimento materno". Em muitos textos da
parte mais moderada do movimento, porém, essa crítica era traspassada pelo
ideário "popular". A crítica da racionalidade masculina, portanto,
não estava isenta de "identificações fálicas" (Hass, 1988, p.85).
Isso pode ser ilustrado por uma passagem de Gertrud Baumer, num texto escrito
em 1914:
Na verdade o que
esses tempos fizeram de nós? (...). Como eles nos transformaram? (...). A
experiência mais pungente, universal e arrebatadora é a revelação em nós da
consciência do povo. Não, não somos pessoas isoladas, apesar de todo o
refinamento dissoluto (...) hoje não estamos sós, hoje somos um povo, unidade
de sangue e de raça, de índole e de cultura (Baumer, cit. por Hass, 1988, p. 84).
Poder-se-ia nesse sentido arriscar a afirmação de
que, num certo estágio de evolução do patriarcado em sua forma-valor por volta
da passagem do século, a bruxa reprimida fez seu retorno sob uma roupagem
fálica - e isso no seio do próprio movimento feminista. O elemento sensível
recalcado, que fora enfeixado na figura da mulher e graças ao qual ela acabara
nas fogueiras dos autos de fé, fluiu nessa época rumo ao elemento popular
falicamente distorcido, ou mesmo à truculência militar das corporações
masculinas. Essa distorção paradoxal revela apenas, porém, que a sensibilidade,
a emotividade, a espontaneidade etc., não representam qualidades
"femininas", pura e simplesmente. Trata-se antes de momentos cindidos
no interior da natureza histórico-social da espécie, que podem manifestar-se de
forma também estranha no pólo sexual oposto. Por certo se pode afirmar com
alguma plausibilidade nesse sentido que, a exemplo da ideologia do
"sentimento materno" dos primeiros movimentos feministas em
específico, as correntes de crítica à civilização a partir de fins do século
XIX também ajudaram, em geral, a limpar o terreno para o fascismo (embora seja
necessário aqui proceder a análises minuciosas, para evitar falsas
generalizações). Nefasta e catastrófica não foi a pura e simples tematização do
caráter reprimido histórica e socialmente, mas a forma inconsciente e
falicamente pervertida em que foi realizada.
É sobre esse pano de fundo de reflexão histórica que
caberia a discussão dos "novos movimentos sociais", na qual se analisa
e critica já desde os anos 70 a suposta primazia da ideologia de sangue e de
solo, também no caso das concepções feministas. Tal crítica será falsa e
imprecisa se, fundamentada ela própria num falso vínculo imediato, não levar em
conta a estrutura patriarcal do valor como tal, nem sua evolução histórica. Que
o clamor pela natureza e a sensibilidade pudesse manifestar-se em forma
falicamente distorcida ainda no fascismo está relacionado, a meu ver, com o
fato de o princípio masculino do "trabalho" abstrato na época estar
ainda em progresso. Se as cisões internas da relação homem-mulher irrompem mais
uma vez em toda a sociedade, a partir das décadas de 70 e 80, isso está ligado
à obsolescência do próprio conceito de "trabalho" abstrato.
Dessa nova situação histórica resultam, apesar de
conteúdos análogos, diferenças decisivas entre as correntes críticas de hoje e
as de então. Ao contrário dessas últimas, os novos movimentos de finais do séc.
XX distinguem-se precisamente pelo incisivo anti-racismo e antinacionalismo.
Suas preferências valorativas ressaltam o desdobramento próprio da
personalidade e a igualdade de direitos. A participação numérica das mulheres é
bastante grande e, além disso, a possibilidade de se imporem estruturas
autoritárias (apesar de seu surgimento ocasional em seitas "psi", por
exemplo) é muito menor. Feitas as contas, o lado de choque dos novos movimentos
é mais "brando" que o dos antigos. Todas essas diferenças não podem
ser simplesmente ignoradas.
Igualmente falso seria criticar a irracionalidade de
ambos os movimentos críticos do ponto de vista iluminista ou racionalista (e
portanto também "masculino"), isto é, despejar a criança junto com a
água do banho. Pois essa irracionalidade expressa o próprio
"reverso", cindido e obscuro, da socialização patriarcal do valor e,
por via de conseqüência, da razão e do racionalismo masculinos. Em forma
distorcida, os movimentos de crítica à civilização encerram momentos de
verdade, na medida em que representam um protesto irracional e imediatista conta
a "lógica de consumo econômico-empresarial" e contra o caráter
mediato e abstrato da moeda. O fascismo, todavia, mostra por onde pode
enveredar tal protesto inconsciente e distorcido. Em seu falso imediatismo,
estes movimentos talvez sempre contenham um potencial de barbárie, ainda que
hoje isso se revele sob aspecto diverso do que antes da metade do século.
Não se trata, portanto, de simplesmente render
homenagem aos movimentos de crítica à civilização, mesmo que em sua forma
atual. Um imediato "regresso à natureza" não seria apenas impossível,
mas também bárbaro e reacionário. A noção heurística da "repressão das
naturezas interna e externa", absolutamente adequada para caracterizar a
estrutura patriarcal, tem de ser por sua vez historicizada. O indivíduo (o
homem e em igual medida a mulher) é parte da natureza. A assimilação de
tais conhecimentos aparentemente banais é hoje mais urgente do que nunca.
Contudo, não há natureza pura e simples, na medida em que as idéias que a
cercam acusam sempre um caráter histórico e cultural. Não se pode simplesmente
fazer que "retroceda" a roda da história. A cultura patriarcal do
Ocidente, em seu desenvolvimento, não encerra apenas um potencial destrutivo,
mas também momentos de progresso num sentido plenamente positivo, como por
exemplo a ampliação das necessidades, benefícios médicos, etc.. Por isso o
objetivo da crítica não pode ser o retrocesso a um nível de civilização aquém
do já atingido. Nesse respeito, as correntes de crítica à civilização, mesmo em
sua forma hodierna, representam na melhor das hipóteses um mero estágio
transitório. Ainda assim, tais mudanças nas preferências dos novos movimentos
sociais poderiam ser uma oportunidade ou um ponto de referência para, em vez de
tomar o caminho de volta, finalmente ultrapassar o patriarcado em sua
forma-valor.
Os aspectos da reprodução social delegados "à
mulher" neste patriarcado contêm "desde o início" os problemas
essenciais que afloram de maneira clara e irrecusável no estágio final da
socialização pelo valor. Mas tal reconhecimento só se torna possível em nossos
dias. Na história até hoje, disparidades de toda sorte puderam ser
problematizadas: a relação senhor-escravo, suserano-vassalo,
capitalista-proletário; caracteristicamente, porém, todas elas erguem-se no
plano homem-homem. Só depois de meados do século XX foi possível vir à tona a
problemática básica até então oculta do patriarcado ligado ao valor ¾ a cisão
em termos da relação homem-mulher. Só agora atingimos a raiz do problema, pois
os mecanismos patriarcais passaram a conduzir-se com necessidade, e em todos os
níveis, ad absurdum. Embora já estivesse na ordem do dia no século
passado, como problema supostamente isolado, a "questão da mulher"
foi relegada a um segundo plano (sobretudo pela "questão de classe")
devido ao baixo grau de desenvolvimento da socialização pelo valor. Somente
depois que a antiga questão de classes passou para o segundo plano e se revelou
um problema imanente ao patriarcado do valor, foi possível conduzir o
patriarcado como tal, e portanto o valor como tal, ao centro das
atenções críticas.
É certo que os novos movimentos de protesto em sua
forma atual de imediatismo equívoco (pela qual não devemos derramar nossas
lágrimas), já se encontram há anos em declínio e em parte já desapareceram sem
deixar vestígios. Uma vez que seus conteúdos se difundiram por toda a
sociedade, houve uma crescente desradicalização. Todavia, é mais do que
provável que o leque de temas pelos quais eles se interessaram continue a
seduzir os movimentos sociais no futuro. Pois a problemática ecológica,
pacifista e aquela vinculada à relação entre os sexos serão agravadas, em
escala mundial, na mesma proporção que a crise econômica do
"trabalho" abstrato - e isso quanto mais evidente for o "colapso
da modernização" (Kurz,
1991) e a crise do patriarcado do valor.
13. "O
valor é o homem", não o homem como ser biológico, mas o homem como
depositário histórico da objetivação valorativa. Foram quase exclusivamente os
homens que se comportaram como autores e executores da socialização pelo valor.
Eles puseram em movimento, embora sem o saber, mecanismos fetichistas que
começaram a levar vida própria, cada vez mais independente, por trás de suas
costas (e obviamente por trás das costas das mulheres). Como nesse processo a
mulher foi posta como o antípoda objetivo do "trabalhador" abstrato -
antípoda obrigado a lhe dar sustentação feminina, em posição oculta ou inferior
- , a constituição valorativa do fetiche já é sexualmente assimétrica em sua
própria base e assim permanecerá até cair por terra. Hoje parece chegada a hora
em que este fim se aproxima historicamente, pois o homem deixou de ser
literalmente "senhor" de seus próprios monstros e de si mesmo. O
homem aparece como um aprendiz de feiticeiro, só que agora não há mais um
mestre patriarcal capaz de consertar a situação.
Georg Simmel foi um homem que já no início do nosso
século fez a observação crítica do pendor assimetricamente masculino de
"nossa" cultura oficial. O quanto o caráter social masculino tem por
centro o "trabalho" abstrato é a propósito demonstrado por Simmel em
forma que o ensaísmo agrega:
(...)
a especialização que caracteriza nossas profissões e nossa cultura em geral é
de natureza totalmente masculina. Pois ela não constitui algo meramente
externo, mas só é possível através da mais profunda particularidade psicológica
do espírito masculino; concentrar-se numa tarefa absolutamente unilateral,
diferenciada da personalidade como um todo, de modo a fazer com que a ação
objetivamente especializada e a personalidade subjetiva desfrutem cada uma
delas, por assim dizer, de uma vida isolada da outra. Toda divisão do trabalho
levada a extremos significa a separação entre o sujeito e seu ofício, o qual
por sua vez é inserido numa correlação objetiva e sujeita-se às exigências de
um todo impessoal, ao passo que os movimentos verdadeiramente subjetivos e
intrínsecos do indivíduo formam um mundo à parte e levam como que uma
existência privada (Simmel, 1985, p.
162).
Há muito a esfera do "trabalho" abstrato
deixou de ser propriedade exclusiva dos homens. O pressuposto patriarcal básico
da relação de valor, porém, não foi por isso eliminado, mas apenas tornou-se
precário e conflituoso. A despeito de toda a atividade remunerada, o
"trabalho" abstrato não possui até hoje para as mulheres o mesmo poder
fundador de identidade que para os homens. Vê-se que o fetichismo do
"trabalho" como "tautológico fim em si mesmo" e os
critérios de sucesso por ele implicados estão enraizados na personalidade de
cada homem. Isso vale sobretudo, é claro, para os representantes de
instituições político-econômicas e culturais, mas não raro para o teórico
masculino (razão pela qual as mulheres que fazem carreira nessas áreas
sujeitam-se a duras provas de adaptação).
A divergência entre, de um lado, a ação objetivamente
especializada que é inserida num contexto supra-pessoal e, de outro, a
personalidade subjetiva dela divorciada que se demora numa "esfera
privada" tem seu correspondente direto no plano da determinação formal da
sociedade. Pois do mesmo modo que o homem abstrai-se a si mesmo como pessoa em
sua atividade objetivamente especializada, assim também as mercadorias
produzidas como "coisas sociais" não são objetos materiais e sensíveis,
mas abstrações "fantasmagóricas", segundo o termo de Marx. Em ambos
os casos, o componente sensível - o substrato empírico-subjetivo - é excluído
da relação social. Simmel aliás chega ao ponto de desvelar aspectos de
"despersonificação" no indivíduo masculino. Ele insinua assim qual o
"ganho neurótico" que uma tal despersonificação do homem rende: poder
e, supostamente, "soberania" (cf. Simmel, 1985, p. 207).
Simmel, porém, admite as diferenças existentes entre
os sexos (não somente as biológicas) como "dados da natureza". Em
contraste ao homem cindido e não idêntico, ele vê a mulher quase como o
indivíduo perfeito "em si", que foi privado de seu poder de
influência pelo desenvolvimento industrial. Com isto, o sociólogo obstrui,
inclusive para si mesmo, toda solução crítica para a relação assimétrica e
fetichista entre os sexos. Apesar de seu brilhante relato do vínculo entre os
sexos, da maneira como ele se mostrava no início do século XX, Simmel não vê
(seguramente condicionado pela época) que as capacidades, qualidades e condutas
atribuídas a homens e mulheres são produtos de uma longa evolução do
patriarcado do valor. A mulher não é o "indivíduo mais perfeito", mas
tão somente a outra faceta, tomada como inferior, da cisão patriarcal, e por
isso um ser pelo menos tão reduzido quanto o homem.
Apenas à luz desse pano de fundo histórico e
estrutural torna-se evidente o quanto é errado confirmar as mulheres em seu
atual modo de ser ou mesmo redefinir como superioridade a sua posição de
inferioridade e transformá-la em alternativa social, como é o caso de certas
correntes feministas. Christina Thürmer-Rohr, em suas pesquisas sobre a
"tese da cumplicidade", destacou o modo como se manifesta a alienação
da mulher. Ela critica sobretudo a eterna prontidão das mulheres (cuja origem
está na socialização) de conformarem-se à realidade patriarcal por meio da
identificação com sua existência limitada (cf. Thürmer-Rohr, 1989, pp. 143 e
idem 1987, pp. 42) (15). Mas devemos salientar, por sua vez, que as
"vantagens" neuróticas que as mulheres podem tirar de seus papéis são
contrastadas hoje pela possibilidade de distanciamento feminino em relação a
estes mesmos papéis. São as mulheres que, cada dia mais, tomam a iniciativa nos
conflitos sociais objetivos surgidos entre os sexos, como revela o movimento
feminista, cujo desenvolvimento se dá sob múltiplas formas.
Os mecanismos dominantes postos e mantidos em
movimento pelo homem - mecanismos estes que se autonomizaram às suas costas -
têm como conseqüência última produzir a própria "castradora" do
homem. O patriarcado do valor foi obrigado a criar para si um refúgio onde
pudesse resguardar-se de si próprio: a privacidade abstrata da família, a
esfera de ação preferida da mulher. Ora, são os próprios mecanismos produzidos
inconscientemente pelo sexo masculino que tornam esse refúgio tão precário a
ponto de fazer esvair o "bem-estar" (patológico) dos homens e
permitir às mulheres sacudirem o seu jugo. De fato, a própria inserção feminina
no "trabalho" abstrato significa não apenas a crescente alienação
("masculina"), mas ao mesmo tempo a maior independência da mulher em
face de seu papel tradicional.
Simultaneamente, o "perigo de castração"
emana do próprio "trabalho" abstrato, que até agora agiu como doador
de identidade. De fato, a onda de racionalização iniciada nas duas últimas
décadas através de novas tecnologias e da globalização dos mercados não afeta
apenas as mulheres com função remunerada (embora elas sejam as mais atingidas),
mas também um número crescente de homens. Como não se trata mais de um mero
desemprego "cíclico", mas sim estrutural, também nesse sentido
uma nova qualidade é alcançada. Ao mesmo passo, o absurdo e o poder de
destruição do "trabalho" abstrato vêm a lume tanto subjetiva quanto
objetivamente (crise ecológica). O próprio desenvolvimento tecnológico e
estrutural torna cada dia mais obsoleto esse marco constitutivo da identidade
masculina no patriarcado do valor. Em todos os níveis, também os homens
são forçados a refletir sobre sua identidade tradicional, seja ela pessoal e
subjetiva ou social. O "trabalho" abstrato não pode mais ser o campo
social pelo qual se orienta a identidade masculina. Os poucos movimentos
masculinos já existentes, de resto, põem em questão os pontos de referência de
sua identidade.
Não se trata, portanto, de desviar mais uma vez o
problema social contido na "questão da mulher" para o campo dos
"princípios" abstratos, para as universalidades masculinas. A
"perda de dimensão sensível" das relações, reiteradamente lamentada
por sociólogos como Ulrich Beck, não pode ser apreendida nem criticada se o
problema básico das cisões patriarcais que caracteriza a sociedade de valor não
ocupar o cerne da crítica. A atual problemática da sociedade global,
como vimos, é o produto da longa história patriarcal e cristã-ocidental da
socialização pelo valor. Essa forma que se tornou obsoleta não pode,
entretanto, ser superada sem que a identidade masculina seja rompida. Toda
tentativa (aberta ou velada) de subtrair-se tanto subjetiva quanto teoricamente
a tal exigência e estender sobre a crise do valor o véu da neutralidade sexual
está condenada ao fracasso.
Como a "questão da mulher" é tudo menos uma
questão exclusivamente feminina, resulta por outro lado que se deve
rejeitar a perspectiva na qual o "grupo" feminino (assim compreendido
sociologicamente) apareça como simples "sujeito de interesses" ao
lado de outros grupos sociais definidos, sendo tratado como um "grupo
limite" ou quase como "classe" (ou substituto de classe, para os
inspirados no velho marxismo). Isso não somente porque as mulheres constituem a
metade da humanidade (o que já seria razão suficiente), mas porque, na questão
feminina de hoje em dia, a problemática global da sociedade em crise
encontra sua expressão. A crise social e ecológica do mundo é produto dos
"potenciais de destruição do sensível" presentes na forma do valor;
tais potenciais, por sua vez, resultam do mecanismo patriarcal de cisões que,
histórica e estruturalmente, se encontra na base de toda esta relação.
A fim de alcançar uma outra "razão
sensível" e uma correspondente relação social que não seja mais
estruturada pelo valor, seria necessário também ultrapassar a
civilização atual e de certo modo "recuperar" as cisões patriarcais
(em seu nível de civilização atingido na sociedade mundial) para compor o
relacionamento da espécie. A fim de enfrentar a crise de modo produtivo, há que
se constituir uma "esquerda feminista" que tenha consciência tanto
subjetiva e pessoal quanto objetiva e social do mecanismo de cisão. Um
feminismo nesses moldes não se pode dar ao luxo de restringir-se às mulheres e
ao movimento feminista. Tanto homens quanto mulheres têm de compreender que
"nossa" sociedade é determinada pelo patriarcado e pelo valor.
Isso não exclui (ao contrário, torna ainda mais
imprescindível) que as mulheres continuem a organizar-se autonomamente, nem que
os homens tentem ganhar consciência de si próprios nos movimentos masculinos. O
patriarcado, afinal, não se nos depara apenas como mecanismo externo; nós
mesmos, homens e mulheres, somos o patriarcado, e o confronto direto
entre os sexos é um dos aspectos centrais de sua crise. Mas além disso é
urgente a luta feminista de ambos os sexos contra as formas de existência sociais,
objetivadas e reificadas das cisões patriarcais produzidas pelo valor. A
superação do patriarcado é ao mesmo tempo a superação da forma fetichista da
mercadoria, pois esta é o fundamento da cisão patriarcal. O objetivo
revolucionário seria portanto um grau mais elevado de civilização, no qual homens
e mulheres sejam capazes de fazer pelas próprias mãos sua história, para além
do fetichismo e de suas atribuições sexuais.
NOTAS
(1).
"Princípio" masculino é utilizado aqui não no sentido de um modo de
ser a priori do homem e da mulher, mas na acepção de um "fato"
social de fundo cultural e histórico (ver abaixo).
(2). Ainda que
tanto o trabalho doméstico como a educação dos filhos representem de certo modo
o reverso do trabalho abstrato e não possam por isso ser apreendidos
teoricamente com o conceito de "trabalho", isso não significa que
eles estejam absolutamente livres de aspectos instrumentais ou de normas
"protestantes". Eis por que a meu ver se deve procurar um terceiro
conceito, com o qual se possa definir com mais precisão teórica a atividade
tradicional da mulher na esfera da reprodução, já que o termo
"atividade" é por demais difuso e possui um caráter excessivamente
genérico. Além disso, por intermédio do conceito "atividade"
poder-se-ia alimentar o velho mito da dona de casa ociosa. Essa questão, longe
de ser irrelevante, não pode entretanto ser desenvolvida aqui. Na falta de tal
esclarecimento, sirvo-me de ora em diante do insatisfatório conceito de
"atividade" ao tratar do "trabalho" na esfera da
reprodução.
(3). A
bipartição do tema em socialização pelo valor e relação entre os sexos
permitiu-me, de um lado, aderir nos principais tópicos à posição da revista KRISIS,
mas, de outro, sentir um profundo mal estar no tocante ao tratamento teórico da
chamada "questão da mulher". Além disso, pude verificar que as
mulheres apenas a custo se fazem ouvir pela redação masculina da revista. O
estímulo para o presente texto deve-se assim não aos homens do grupo, mas às
discussões que, conscientemente, foram mantidas com mulheres à margem do raio de
influência da KRISIS.
(4). Cf. Peter Klein,
"Demokratendämmerung", KRISIS, 11, pp. 189 ss. A
problemática dos sexos ocupa o espaço de uma simples nota de rodapé. Algo
diverso, obviamente, ocorre quando a relação entre os sexos é vista sob o
prisma de um problema especial, como no ensaio "Freiheit,
Gleichheit, Schwesterlichkeit", de Norbert Trenkle, KRISIS, 11. Mas
aqui também o problema dos sexos é tratado em vista da igualdade burguesa como
princípio estrutural; a relação entre os sexos como princípio estrutural
"autônomo" da sociedade burguesa e patriarcal não é levada em conta.
Em que pese toda a crítica ao poder sexista, etc., tal princípio desaparece por
trás de conceitos genéricos e sexualmente neutros, e subsiste assim, em última
instância, como mero fenômeno de concretização.
(5). Ernst
Lohoff, por exemplo, ainda insiste na recusa do conceito de patriarcado e
reporta-se a seu argumento no artigo "Bruederchen und Schwesterchen",
KRISIS, 11. Cf. a nota seguinte.
(6). Como
afirma Ernst Lohoff: "O termo ‘patriarcado’ funciona como fórmula resumida
para referir o domínio arbitrário dos homens sobre as mulheres. É possível que
tal noção tenha um certo valor propagandístico. Mas quando faz menção de
integrar a teoria social, ela denuncia a si mesma no contato com a realidade
das figuras do fetichismo. Todas as relações fetichistas contrapõem o homem à
mulher, mas sujeitam ambas as partes de modo equivalente. Os homens não
comandam um regimento patriarcal arbitrário, mas apenas executam (!) nas
mulheres a relação fetichista de poder que é pressuposta. A coerção que exercem
sobre as mulheres tem seu fundamento original não na vontade masculina, mas no
princípio de síntese social que se encontra sempre pressuposto, anterior aos
dominadores" (KRISIS, 11, p. 99). Sem contar o fato de que a
cultura teórica feminista já tenha, em geral, ultrapassado uma noção assim crua
de dominação como a suposta por Lohoff, nota-se aqui que o "princípio de
síntese social" é superficialmente contraposto à relação assimétrica entre
os sexos. A idéia de que a própria relação entre os sexos estruture o cerne do
"princípio de síntese social", como acredito ser o caso do
patriarcado do valor, não pode assim vir a lume. Além disso, com tais figuras
argumentativas, (e justamente numa situação histórica em que o embate entre os
sexos está na ordem do dia), não é preciso que o homem ponha a si mesmo a
questão. Ora, dessa forma ele estará, literalmente, reduzido a uma
"marionete" do fetiche do valor.
(7). Os
comentários críticos a diversos aspectos dos textos de alguns membros do grupo KRISIS
não podem aqui ser levados adiante. No que segue não se procederá a uma
discussão explícita com os artigos do KRISIS publicados até agora sobre
a relação entre os sexos nem a um debate minucioso com as posições da pesquisa
feminista; ambos ocorrerão, no máximo, marginalmente. Interessa-me apenas,
sobretudo por razões de auto-esclarecimento, a primeira abordagem positiva de
uma idéia básica que dispensa, de caso pensado, distinções meticulosas.
Trata-se assim, de um esboço geral que, como rudimento, possui caráter
provisório.
(8).
Obviamente, não é que as diferenças biológicas entre os sexos sejam
insignificantes. Em todas as culturas determinadas noções prendem-se às
características biológicas dos sexos e procede daí a repartição de atividades.
O modo de ver tais noções, porém, é extremamente variado de sociedade para
sociedade, de tribo para tribo, e pode até ser contraditório. Em muitas
culturas, além disso, existem três ou mais sexos. O sexo, portanto, é constituído
socialmente (cf. Gildemeister, 1992). Nesse sentido, não é de todo aconselhável
levar adiante as interessantes tentativas de lançar luz sobre a existência dos
antigos matriarcados ou o "surgimento do patriarcado" (Gerder
Lerner). No meu entender, é justo nesse ponto que o perigo de projeções
anacrônicas é particularmente grande, e isso não apenas em vista das
idealizações. Gerder Lerner, por exemplo, fala de "permuta de
mulheres", "objetivação da capacidade feminina de parir" e de
aspectos análogos em sociedades anteriores à do valor. Padrões de reflexão
surgidos apenas no patriarcado do valor são portanto transplantados a
sociedades alheias à forma-valor. Tenho isso como extremamente problemático
(cf. Lerner, 1991).
(9). O
fenômeno da cisão específica dos sexos é manifesto, por exemplo, na análise do
surgimento das ciências (naturais) no início da idade moderna, na investigação
de projetos iluministas e seus esboços literários e, tempos depois, na pesquisa
sobre a personalidade do cientista masculino e na prática psicoterapêutica. Mas
também investigações empíricas sobre as tendências de diversos comportamentos
morais em homens e mulheres ou na esfera da coeducação alinham-se com a tese
avançada aqui (cf., entre outros, na fecunda literatura sobre esse tema,
Richter, 1979; Bovenschen, 1980; Gilligan, 1984; Bennent, 1985; Nölleke, 1985;
Norwood, 1986; Brehmer, 1988; Woesler de Panafieu, 1989; Bublitz, 1990;
Kofmann, 1990; List, 1990; Welsshaupt, 1990). Em tais investigações, não raro
se faz uso do método psicanalítico. Mesmo a tradicional marxista Frigga Haug
comenta que as atividades e as condutas das mulheres são "cindidas e
deslocadas (augelagert) do trabalho social em seu conjunto" (Haug,
1990, p. 91), embora tome como ponto de partida o velho conceito marxista de
"ontologia do trabalho (total)", no qual aquilo que se acha cindido
deve ser reintegrado como "trabalho reconhecido". Tal posição,
naturalmente, está longe de uma "crítica do valor".
(10). Aqui,
porém, trataremos sobretudo da dimensão histórica e das formas de expressão
social da relação entre os sexos no patriarcado do valor, a fim de designar os
pressupostos genéricos para uma posterior explanação conceitual.
(11). Considero
esta interpretação já "antiga" de Bovenschen como ainda muito
esclarecedora, ao contrário de novas tentativas de explicação, como as de
Gerhard Schormann. Schormann verifica (principalmente quanto à "função de
bode expiatório") pontos de contato entre os pogroms judeus na
Idade Média, a caça às bruxas e o holocausto do nazistas. Essa comparação
parece-me todavia um tanto superficial, pois não é capaz de explicar porque tal
grupo – e por quais motivos – iniciou justamente em tal época a perseguição.
Num comentário à parte, o autor considera desnecessário discutir os trabalhos
científicos sobre o tema da caça às bruxas e debater as interpretações neles
propostas (cf. Schormann, 1991).
(12). A caça às
bruxas tem de ser vista em conjunto com os movimentos heréticos que, já no
século XIII, transferiram à Igreja o ônus da legitimação. Muitas mulheres
integraram os movimentos heréticos. Sabás, pactos com o diabo e cópulas com
demônios só foram inventados no final de Idade Média. Não se trata porém de um
resquício pagão. Infelizmente, não podemos nos deter aqui sobre os detalhes
desse assunto (cf. Honegger, 1978, pp. 34 ss.)
(13). As
conseqüências para o caráter social feminino que resultam das análises da
mudança social, como as referidas por Beck, são tomadas em consideração por R.
Gildemeister. Segundo ela, "ao lado do ensino dos padrões de ação
vinculados aos sexos" surge também a "crescente possibilidade de
reconhecimento da sua relatividade". Isso, porém, "sem que se
arranhe o fundamental princípio binário de construção do relacionamento entre
os sexos". Assim, com "a formação da ‘identidade sexual’ (…) existe
hoje evidentemente um grande arsenal de conflituosidade nas mulheres, o qual em
várias tentativas de definir com valor positivo o ‘caráter social feminino’ é
apenas insuficientemente elaborado". Apoiando-se em Hagemann-White,
Gildemeister vê hoje o "(…) ‘caráter social feminino’ como uma definição
ambígua, já que nele impera uma ‘tensão’" (Gildemeister, 1992, pp. 235
s.).
(14).
Gildemeister também questiona tais interpretações em relação a "tendências
individualizantes": "A flexibilização superficial das atribuições
sexuais, por exemplo, não é atrelada na mesma medida a uma abertura real dos
campos de ação. As tendências individualizantes parecem ser parte de um
processo de desenvolvimento social em que a visão dos fatos sociais é
nebulosamente distorcida, encobrindo a realidade predominante do embate entre
os sexos e sua relação assimétrica (…). E, com isso, a liberdade sob condição
converte-se em armadilha: as tarefas reprodutivas, por exemplo, são em grau
ainda maior incumbidas às mulheres ou por elas já realizadas. Sob tais
pressupostos, a polarização dos sexos conduz necessariamente a uma
posterior politização da diferença entre os sexos" (Gildemeister,
1992, p. 236, grifos no original). Embora Gildemeister não partilhe de minha
estrutura teórica da sociedade, sua tese comprova que não há de modo algum uma
dissolução dos papéis sexuais nos últimos tempos.
(15). Nesse
contexto, Heidemarie Bennent também critica as concepções de emancipação como
as de Marcuse ou Richter, que mesmo nos tempos modernso vêem na
"mulher" um ser menos alienado que o homem e transferem a ela, em
última instância, o encargo de salvar a humanidade. Quanto a isso, Bennent
enumera os aspectos negativos do caráter social feminino legado pela tradição.
Os principais tópicos são os seguintes: sensibilidade, que tem lugar apenas nas
proximidades da esfera privada, segundo o lema "amigos, amigos, negócios à
parte", acompanhada ainda de uma formação sofrível das capacidades
intelectuais e de raciocínio; acentuado consumismo, que visa compensar a
exclusão da esfera pública; recusa de pretensões próprias
("abnegação"), para contrabalançar a alienação do homem na esfera do
trabalho; pendor ao conservadorismo e à aceitação do que lhe é dado graças a
seu enclausuramento e à formação deficiente de suas capacidades intelectuais
(cf. Bennent, 1985, pp. 227 ss.). Além disso, a glorificação do caráter social
feminino como pretensa alternativa ignora totalmente que tal caráter, em razão
das mudanças sociais, tornou-se ele próprio ambíguo nos últimos anos.
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